ARRABAL: O PÂNICO
NO PALCO

Teatro especial para o autor mais
estranho dos cinco continentes

Cemitério de Automóveis: onde os pobres vivem
como em palácios

"Se eu fôsse ‘normal’, não seria normal." Quem assim fala de si mesmo é Fernando Arrabal, 37 anos, dramaturgo espanhol que vive em Paris e tem mais de trinta peças escritas, além de vários livros. Arrabal chega agora a São Paulo (já é conhecido dos públicos carioca e paraense): quatro obras suas, reunidas sob o título da primeira — "O Cemitério de Automóveis" — serão encenadas pelo Teatro Ruth Escobar, da capital paulista. As outras três: "A Oração", "Primeira Comunhão" e "Os Dois Carrascos". Não sendo "normal". Arrabal explica como encontrou um certo eqüilíbrio: "Preciso evitar a loucura a qualquer preço. Portanto, devo praticar algumas formas falsas de loucura". O homem é realmente estranho: baixo, cara quadrada, barbicha, óculos. Alguns retratos seus, pintados por amigos, tentam desvendar o que êle tem de essencial. Num dêles, chamado "nascimento de Arrabal", a cabeça do poeta aparece em primeiro plano, de perfil. Da bôca aberta saí o corpo nu de um Arrabal menor, de cuja bôca aberta sai outro, e assim por diante. Mais um quadro: Arrabal nu, adorado por três mulheres gigantescas e ameaçado pela mão enorme da imortalidade. Em "Anatomia Explicada de Arrabal", êle está novamente nu, tórax e ventre abertos, tôdas as entranhas à mostra.

Maravilha e horror — Fernando Arrabal não é essencialmente um nudista e sim o pontífice máximo do Teatro Pânico, escola que nasceu em Paris, no famoso Café de la Paix, em 1960. O Teatro Pânico já produziu espetáculos que a revista francesa "Réalités" define como "festas extravagantes e primitivas, a meio caminho entre a maravilha e o horror". Um teatro obsessivo, violento, erótico, por vêzes macabro, e também de uma ternura quase infantil. "O Cemitério de Automóveis" é uma transposição voluntàriamente ingênua do mistério da Paixão. Emanu toca pistão para entreter os pobres, que moram em automóveis abandonados, como em palácios. Êle é também ladrão e assassino: rouba os ricos e mata gente que o aborrece. Denunciado à polícia por seu companheiro Topé, é crucificado numa bicicleta. As peças de Arrabal são representadas nos cinco continentes. Dizem os seus discípulos, com um toque de melagomia bem de acôrdo com a atitude pânica que, sôbre o teatro do mestre, como sôbre o império espanhol de Carlos V, "o sol nunca se põe".

Fernando Arrabal:
"Se eu fôsse ‘normal’,
não seria normal"
Foto: Cristiano Mascaro  

O pânico — A confusão, o humor, o terror, o acaso e a euforia são, segundo Fernando Arrabal, os fundamentos da "maneira de ser" pânica. Um dos expoentes dessa escola é Alejandro Jodorowski, chileno filho de russos, diretor de teatro, contista, romancista, campeão de karatê. Jodorowski explica que, para o homem pânico, qualquer problema não tem uma só solução e sim infinitas. A inteligência pânica é capaz de afirmar duas idéias contraditórias ao mesmo tempo — o bem e o mal, o feio e o belo, a construção e a destruição — ou não afirmar nenhuma. O tempo não é uma sucessão ordenada, lógica, mas um todo, onde as coisas e os acontecimentos, passados e presentes, estão em eufórica mistura. E tôdas as atividades artísticas são apenas fragmentos da única verdadeira manifestação pânica: A FESTA-ESPETÁCULO. Para a criação de tal festa em São Paulo, a empresária Ruth Escobar já gastou quase 200.000 cruzeiros novos: 80.000 com a montagem de "O Cemitério de Automóveis" e mais de 100.000 com a adaptação, especialmente para a peça, de uma nova sala de espetáculos. Era uma oficina mecânica, no centro da cidade. A capacidade é de quinhentos lugares, sendo 260 cadeiras giratórias.

Palco revolucionário — Conta o cenógrofo Wladimir Pereira Cardoso, marido de Ruth, que êles tiveram de inventar um tipo de palco que rompe com todos os modelos conhecidos. As cenas se desenvolvem numa plataforma central, à qual os atôres chegam por uma rampa, e também numa passarela elevada que contorna tôda a sala, junto às paredes. A representação, portanto, envolve o público por todos os lados e em vários planos simultâneos. Sôbre a passarela circulará até uma motocicleta, o que obrigou o cenógrofo a usar materiais resistentes e caros. Com tanta despesa, observa um dos atôres, "vai ser preciso faturar alto". A idéia de ganhar dinheiro não é desagradável aos apóstolos do pânico. Segundo o próprio Arrabal, um dos objetivos da sua escola é "o confôrto na liberdade".

Para quem não vai? — Diferente é a posição de Victor Garcia, 33 anos, o diretor argentino (também radicado na França), que Ruth foi buscar em Paris para a montagem de "O Cemitério de Automóveis". Baixo, nervoso, longos cabelos encaracolados, vestido exòticamente (calça justa, colête florido, casaco de pele), Garcia aparece muitas vêzes com uma margarida atrás da orelha e um colar de contas brancas, do qual pende um macaquinho no lugar do medalhão. Diz êle que estudou tudo o que é possível estudar, mas sempre foi o último aluno. "E tôdas as coisas que aprendi, trato de esquecê-las ràpidamente". Cursou quatro anos de medicina, viajou muito, mas acabou no teatro, que era a sua vocação. Mas Victor Garcia acha que o público e os atôres estão mortos, que o teatro está morto. "Não podemos salvar o teatro fazendo teatro". Por isso, destina os seus espetáculos "justamente às pessoas que não vão ao teatro." Essa afirmação pânica de duas idéias contraditórias não deve ser tomada ao pé da letra.




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