FESTIVAL EM CRISE

Cineastas querem acabar com as
mostras de "arte burguesa e mundana"

Foto: ART Foto: COFRAM
Cannes, 1960: ganha
"A Doce Vida"
Veneza, 1961: "Marienbad" premiado

"Festival de Cinema não é corrida de bicicleta nem jôgo de futebol", desabafou Luigi Chiarini, o atormentado diretor do Festival de Veneza, dias antes de começar a mostra. No entanto, foi esperando ver algo tão emocionante quanto uma disputa esportiva — ou uma luta livre entre cineastas, espectadores e a polícia — que repórteres e fotógrafos se reuniram em Veneza para a abertura do 29º Festival de Cinema, semana passada. Os receios de Chiarini, 57 anos, socialista e crítico de cinema, são fáceis de explicar: êle temia que se repetisse no seu festival o que ocorrera quatro meses antes com o festival de Robert Favre Le Bret, cinqüenta anos, gaulista e organizador da mostra de Cannes, cujo Palácio do Festival foi invadido por um grupo de cineastas que se dependuraram nas cortinas e puseram fim à exibição dos filmes. Chiarini teve mais sorte que Le Bret. Em Veneza, na noite da abertura, os hóteis estavam semidesertos. Não houve violências. Mas também não houve mais nada. Os fotógrafos carregavam cartazes: "Precisa-se de celebridades para fotografar". Mesmo sem incidentes, a sorte de Veneza, êste ano, foi tão triste quanto a de Cannes. Pelos mesmos motivos, mas com armas diferentes, cineastas e críticos ameaçavam a vida dos dois mais célebres festivais de cinema do mundo.

Feira de vaidades — Como imaginar um festival de cinema contestado pelos próprios autores de filmes? Todos os anos, depois das premiações, os diretores e jurados dos festivais são duramente atacados pelos concorrentes derrotados. Os festivais nasceram como mostra do cinema cultural e artístico. Foi com êsse espírito que Mussolini criou em 1932 o mais antigo dêles, o de Veneza. Hoje, grupos cada vez maiores de cineastas acham que a função foi desvirtuada. Êles passaram a representar cada vez mais os intêresses dos grandes produtores. Entre as cinqüenta mostras de cinema que se realizam todos os anos, nenhuma pode rivalizar com a de Cannes no aspecto social e comercial; no último Festival, nos poucos dias em que o Mercado de Filmes pôde funcionar normalmente, 110 filmes foram negociados. Em Veneza, Berlim e Moscou, as reuniões de homens de negócios acompanham os debates entre os críticos. Em Cannes, êste ano, a taça transbordou: a revolução estudantil nas ruas de Paris foi o pretexto para que os cineastas protestassem violentamente contra a transformação dos festivais em convenções de homens de emprêsa. Alguns críticos não viram no episódio mais que uma explosão de ressentimentos pessoais: entre os líderes da invasão do Palácio estavam Jean-Luc Godard (que jamais teve um de seus filmes exibidos oficialmente em Cannes), François Truffaut (que teve o seu "La Mariée Était en Noir", com Jeanne Moreau, recusado pela Comissão de Seleção) e Claude Lelouch (campeão em 1966 com "Um Homem, Uma Mulher" e que teve o seu "Viver por Viver" recusado).

Foto: Divulgação
Veneza, 1958: "O Homem do Riquixá", último grande prêmio aos japonêses

Claro enigma — Aos descontentes de Cannes seguiram-se os descontentes de Pesaro, na Itália (cujo Festival do Cinema Nôvo, em julho, acabou com a polícia prendendo vários cineastas), e as ameaças a Chiarini. Nos três casos há mais que ressentimentos pessoais. Não são os prêmios, os jurados ou os filmes que não prestam: é a própria idéia de "festival" que está sendo repelida. Os cineastas denunciam uma soma de erros que, segundo êles, torna impossível até mesmo uma reformulação dos festivais: acham melhor que acabem de vez. Os festivais, dizem, são autônomos em relação aos produtores, mas o júri sofre muitas pressões: os prêmios são dados em função da futura carreira comercial dos filmes e por isso quase sempre ganham os grandes produtores. O fato de muitos cineastas importantes terem sido premiados não quer dizer nada, segundo François Truffaut: "Os festivais utilizam o prestígio dos grandes autores para sua própria promoção". Cannes, que começou a ter seu festival em 1946, passou a ser visto como o modêlo máximo de festival comercial, enquanto Veneza, mudando de linha sob a orientação de Chiarini, há uns cinco anos procura firmar-se como festival sério. Erros grandes como os de Cannes — o prêmio a "Sublime Tentação" contra "Noites de Cabíria", de Fellini, em 1957, ou a "Orfeu Negro" contra "Os Incompreendidos", de Truffaut, em 1959 — não são comuns em Veneza.

O mundano e o burguês — Um documento recente da ANAC — Associação Nacional de Autores Cinematográficos da Itália, com mais de 2 mil sócios — despreza tudo isso: "É preciso por fim ao ritual mundano de fraques e taças de champanha em que os festivais se transformaram". Assim, o drama do bem-intencionado Chiarini, antigo senhor de Veneza, é exemplar: socialista, é chamado de "burguês" pelos cineastas de esquerda; organizador de uma mostra em que o lado mundano tem seu pêso, é chamado de "intratável" nas rodas mundanas; mediador indireto entre os comerciantes de filmes, foi ameaçado de boicote pela poderosa FIAP (Federação Internacional de Produtores de Filmes), descontente com um festival que convidava diretamente os filmes de autores independentes, sem seu visto. Em Veneza, como em Cannes, Berlim ou Moscou, os festivais vivem um drama: qual a porcentagem de comércio e de arte ideal? Os radicais propõem um ponto final puro e simples; outros querem festivais artísticos; os últimos — os mais interessados — querem vender seus filmes. "Os festivais fizeram muito pelo cinema", diz um produtor americano. "É hora dos cineastas tentarem fazer algo por êles."

A CARREIRA DOS PREMIADOS: VENEZA

  FILME DIRETOR PAÍS BILHETERIA CRÍTICA
1957 Aparajito Satyajit Ray Índia **
1958 O Homem do Riquixá Hiroshi Inagaqui Japão *
1959 Il Generale Della Rovere Roberto Rosselini Itália $ *
  A Grande Guerra Mario Monicelli Itália $
1960 A Passagem do Reno André Cayatte França
1961 O Ano Passado em Marienbad Alain Resnais França $ ***
1962 A Infância de Ivã Andrei Tarkovski União Soviética *
1963 Mani Sulla Città Francesco Rossi Itália **
1964 Il Deserto Rosso Michelangelo Antonioni Itália $ ***
1965 Vagas Estrêlas da Ursa-Maior Luchino Visconti Itália $ ***
1966 A Batalha de Argel Gillo Pontecorvo Itália *
1967 Belle de Jour Luis Buñuel França $$$ ***

 

A CARREIRA DOS PREMIADOS: CANNES

  FILME DIRETOR PAÍS BILHETERIA CRÍTICA
1957 Sublime Tentação William Wyler Estados Unidos $
1958 Quando Voam as Cegonhas Mikhail Kalatozov União Soviética $
1959 Orfeu Negro Marcel Camus França $
1960 A Doce Vida Federico Fellini Itália $$$ ***
1961  Viridiana Luis Buñuel México $ ***
  Une Aussi Longue Absence Henri Colpi França
1962 O Pagador de Promessas Anselmo Duarte Brasil
1963 O Leopardo Luchino Visconti Itália $ *
1964 Os Guarda-Chuvas do Amor Jacques Demy França $ **
1965 A Bossa da Conquista (The Knack) Richard Lester Inglaterra $ *
1966 Um Homem, Uma Mulher Claude Lelouch França $$$ *
  Signore e Signori Pietro Germi Itália
1967 Blow Up Michelangelo Antonioni Inglaterra $$ ***




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