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GONZAGA, A VOLTA
DO BAIÃO
Luís Gonzaga: 2 milhões de discos vendidos.
Os Beatles vão vender mais?
"O baião tem um quê que as outras danças não têm."
"Baião", de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, 1945. Luís
Gonzaga deu uma gargalhada quando soube que os Beatles iam gravar "Asa
Branca", baião feito por êle e Humberto Teixeira em 1948. "Agora
é que eu quero ver se os Beatles vendem mesmo", comentou. "Minha
gravação vendeu mais de 2 milhões de discos." Luís Gonzaga, 56 anos,
fala grosso com sua voz nordestina, não porque os Beatles gravaram uma
música sua, nem porque os jornais o trazem para as manchetes como papa
de um culto de repente ressuscitado, o culto do baião. A segurança de
Luís Gonzaga vem de que, com mais de 2 mil músicas gravadas, êle já perdeu
até a conta dos milhões de discos vendidos até hoje. No fim do mês estará
na praça o seu 21º LP, com seu eterno parceiro Humberto Teixeira, ex-deputado
federal pelo Ceará e Rei do Baião. Como os vinte anteriores, o LP venderá
bem: em 1945, as prensas da RCA Victor (onde grava há 28 anos) chegaram
a trabalhar só para êle, o que provocou protestos do presidente da firma.
Instrumento de tango Luís Gonzaga do Nascimento nasceu
filho de sanfoneiro na Fazenda Caiçara, no sopé da serra do Araripe, Pernambuco,
fronteira com o Ceará. Com doze anos ganhou o seu primeiro cachê para
animar com a sanfona um casamento no povoado. Além do cachê ganhou os
elogios do Mestre Duda, sanfoneiro de fama na região. Convocado pelo Exército,
o jovem sanfoneiro veio para o Rio em 1932, época da Revolução Paulista.
Dando baixa, Luís Gonzaga se viu obrigado a tocar na zona portuária e
em cabarés do Mangue, bairro da prostituição. Mas sua grande aspiração
era tocar no programa de calouros de Ari Barroso, o compositor que êle
mais admirava. O sarcástico Ari, porém, mostrou mais espanto do que admiração
ao ver entrar no palco aquêle jovem nordestino carregando uma pesada harmônica.
"Isso é instrumento de tango. Não venha dizer que no Nordeste se
faz música com isso." Mas Luís Gonzaga tocou até o fim, classificando-se
em primeiro lugar. A música, "Vira e Mexe", seria depois o seu
primeiro disco. E, com o primeiro disco, veio também o apelido de "Lua",
pela sua cara redonda de lua cheia. Cinco anos depois dessa gravação,
Luís Gonzaga conhecia Humberto Teixeira.
Baião de Dois O que Luís Gonzaga e Humberto Teixeira fizeram,
a partir de 1945, foi trazer para a cidade (e vestir com roupas de cidade)
uma velha música nordestina. O baião original era entremeado de falas,
e isso dificultava o ritmo. "Estilizamos as principais características,
traduzimos os modismos do Nordeste e tornamos a música mais dançável",
diz Humberto Teixeira. Pesquisadores e folcloristas, como Câmara Cascudo,
já haviam notado uma tendência de dança no baião. E ainda em 1842 o Padre
Miguel do Sacramento, do Recife, escrevia: "Em batizados e casamentos
havia o costume de tocar minuetos rasteiros, em geral arrematados com
um baião, dança ainda não considerada imoral como hoje". Foi no ano
em que Gonzaga e Teixeira se conheceram, num programa de auditório da
Rádio Nacional (atraía mais gente do que hoje os programas de auditório
da TV), que os Quatro Ases e Um Coringa inauguraram a Época do Baião,
com a música da dupla, "Baião" verdadeira receita do
nôvo ritmo ("Eu vou mostrá pra vocês/ Como se dança o baião...").
A Época do Baião durou quase cinco anos. "Juàzeiro" foi
gravado até no Japão. Entre baiões, rojões e toadas, a dupla Lua
Teixeira compôs mais de trinta sucessos: "Mangaratiba", "Que
Nem Jiló", "No Meu Pé de Serra", "Paraíba" (que
entrou para os dicionários no sentido de "mulher-macho"), "Asa
Branca".
A volta do baião Em seu último LP, Wilson Simonal incluiu
dois baiões: "Paraíba", de Luís Gonzaga, e "Sá Marina",
do jovem compositor carioca Antonio Adolfo. "Sá Marina", em
compacto, está nas paradas de sucesso do Rio e de São Paulo; nos Estados
Unidos, Sérgio Mendes prepara-se para gravá-la. "Luís Gonzaga é super
da pesada", diz Antonio Adolfo, 21 anos. "Todo mundo está fazendo
hoje o que êle fazia, só a estilização é diferente". Caetano Veloso
confessa: "Minhas influências musicais vêm de João Gilberto e do
iê-iê-iê, passando por Luís Gonzaga". Outro do grupo tropicalista,
Gilberto Gil, admite também a influência de Gonzaga, "o primeiro
fenômeno musical que me tocou". Traços de baião marcam suas composições,
bem como as de Geraldo Vandré ("Disparada"), de Milton Nascimento
("Travessia") e de Edu Lôbo ("Ponteio", que para Luís
Gonzaga é um exemplo perfeito do xaxado). Foram essas músicas que trouxeram
Luís Gonzaga de volta para a televisão: todos os domingos, à tarde, êle
dá duas horas de baião pela TV Continental, do Rio. Seu programa na Rádio
Mauá, "Noite Impecável", é o líder de audiência no horário:
"É um programa como eu gosto, para o povo mesmo". Em 1950, Luís
Gonzaga compôs, com um nôvo parceiro, Zé Dantas, "A volta da Asa
Branca". Hoje, sôbre a volta da "Asa Branca", nos braços
dos Beatles, êle diz: "Os meninos inglêses têm muito sentimento e
não avacalham a música. A toada dêles parece bastante com as coisas do
Nordeste. Até as gaitas de fole lembram a nossa sanfona..."

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