CHECOS TÊM ESPERANÇAS

Dubcek, político de sete fôlegos,
continua à procura de uma saída

Raras vêzes um líder checoslovaco reuniu tantas características dos heróis de seu país como Alexander Dubcek. Mesmo com a Checoslováquia ocupada há três semanas por fôrça do Pacto de Varsóvia, êle continua o político de sete fôlegos, com uma notável capacidade de se manter no poder. Êle tem a obstinação do soldado Schweik — personagem literário nacional, encarnação do resistente passivo e heróico — e a singela honestidade de Jan Huss — queimado em 1415 como herege porque queria reformar a Igreja. E muitos só conseguem ver no alto, magro e tímido Dubcek um moderno Dom Quixote atirando-se de lança em punho contra as muralhas do Kremlin. Qualquer que seja sua imagem, Dubcek prossegue a luta contra Moscou na estreita margem de liberdade que os tanques soviéticos lhe concederam. Com a economia nacional tendo prejuízos diários de 400 milhões de coroas (NCr$ 90 milhões), a preocupação principal de Dubcek é obter a rápida retirada das tropas estrangeiras e normalizar, o quanto antes, a vida interna do país. Na semana passada, em companhia do Presidente Svoboda, êle percorreu diversas fábricas para explicar aos operários, pessoalmente, a necessidade de manterem a cabeça fria para que os militares russos decidam a retirada da Checoslováquia dos soldados do Pacto de Varsóvia.

Com os russos — Pouco a pouco, na cadência habitual em que Dubcek sempre seguiu suas atividades, a Checoslováquia vai encontrando seu caminho. No início da semana, êle alcançou grande vitória política, ao renovar o Presidium do Comitê Central do PC com uma maioria de partidários seus e, ao mesmo tempo, obter um voto de confiança do partido em todos os dirigentes do país. O Comitê Central passou de noventa para 170 membros e se os liberais de Dubcek tiveram de sacrificar alguns nomes — como o Ministro Ota Sik, cérebro da reforma econômica — o saldo foi favorável aos que desejam que a Checoslováquia prossiga o caminho da democratização, mesmo com tôdas as exigências soviéticas. A resistência passiva dos checoslovacos desceu a quase zero e Alexander Dubcek prepara-se para discutir com os russos a rápida retirada das tropas e a não ingerência nos assuntos internos do país.

Tratar com os russos é um velho hábito para Dubcek. Dos quatro aos dezessete anos êle morou na URSS, estudou nas escolas soviéticas e aprendeu a conhecer a língua e o caráter do povo russo. Depois de ter sido operário, militante comunista e guerrilheiro antinazista na região da Eslováquia, durante a II Guerra, êle voltaria à Russia em 1958, para freqüentar a escola de marxismo onde foi colega de Leonid Brezhenev — atual dirigente do PC soviético. Em 1961 Dubcek retornava definitivamente a seu país, abrindo caminho através das fileiras partidárias até chegar a Secretário do PC eslovaco e, desde janeiro, do Partido Comunista de tôda a Checoslováquia. Nessa época, êle era um homem de confiança de Moscou.

Êrro de cálculo — Qual foi a falha no cálculo dos russos? Em primeiro lugar, êles se esqueceram que Dubcek — ao contrário de seu antecessor checo, o impassível Antonin Novotny — é um eslovaco, com uma parte altamente emocional no seu caráter: êle é, por exemplo, um fanático torcedor de futebol que não fica calmo quando seu time está perdendo. (Êle estava em Bratislava, torcendo, quando sua seleção nacional de futebol ganhou do Brasil por 3 a 2, em junho dêste ano).

Os russos falharam, também, em não prever que Dubcek cresceria no exercício da liderança desde janeiro — e, na mesma medida, crescia a sua determinação de enfrentar os russos. Em maio, em Moscou, na primeira série de encontros com dirigentes soviéticos, Dubcek encarou Brezhenev nos olhos e disse: "Leonid Illitch, quem tem o direito de pretender tirar a patente do verdadeiro marxismo"? Depois dêsse dia, os liberais checoslovacos sentiram nêle uma nova determinação. Dubcek transformava-se. Ao invés dos longos e tediosos discursos do início do ano, agora êle apelava para palavras mais diretas e de maior interêsse popular. Também acrescentou um fino traço de ironia: "O povo estava descontente com os líderes; como não podemos mudar o povo, mudamos os líderes", disse êle na televisão, comentando a queda dos conservadores. O desafio de Dubcek, mantido até que os soviéticos não tivessem outra alternativa para detê-lo do que invadir o país, em 21 de agôsto, foi uma surprêsa para Moscou. Um funcionário russo, certa vez, comentou: "On nie Dubcek" ("Êle não é um pequeno carvalho"), fazendo trocadilho com a palavra "Dubcek" que, em russo, significa pequeno carvalho. Em seguida, acrescentou: "On nastoiáchtchi dub". ("Êle é um verdaeiro carvalho.") Outro disse: "Pensávamos que Dubcek fôsse o mais aceitável substituto para Novotny. Afinal, êle conheceu nosso país intimamente, conheceu nossos dirigentes, aprendeu nossa língua, estudou em nossas escolas". E rematou, com amargura: "Talvez êle nos conheça bem demais, além do que seria bom para nós".

Herói e vilão — Os russos não conseguiram achar nenhum comunista checoslovaco disposto a ficar no lugar de Dubcek — e tiveram de tolerá-lo. Até quando, ninguém sabe. Pragmático e realista, Dubcek controla com firmeza o seu próprio povo, para evitar provocações aos russos. Com 46 anos de idade, casado e com três filhos, êle é um dos mais jovens líderes comunistas do mundo, com um futuro ainda incerto: tanto pode continuar no poder até conseguir a vitória total a longo prazo, como pode ser atirado à fogueira como o herege Jan Huss.

Homem de família, que não fuma nem bebe, Dubcek conservou seus hábitos simples. Nos fins de semana sem crise política à vista costumava ir a Bratislava, sempre dirigindo pessoalmente seu carro através dos 320 quilômetros que separam Praga de sua cidade. O lar de Dubcek ainda é a mesma casa pequena precisando de uma boa pintura. Aos domingos, êle costumava surgir na piscina pública da cidade, dando elegantes mergulhos do trampolim e assinando autógrafos para as crianças. Sua popularidade pouco sofreu com os acôrdos de Moscou e a invasão soviética: pesquisa recente deu-lhe 71% de apoio "dentro das atuais circunstâncias". A cortina de ferro baixou novamente sôbre a Checoslováquia, mas o povo ainda vê em Dubcek o líder que pode levantá-la, mais uma vez, com esfôrço e paciência — duas qualidades que não faltam ao Secretário-Geral do PC checo.




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line