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REBELIÃO NA
GALÁXIA VERMELHA
A todo custo, a Rússia pretende ser,
ainda e sempre, o sol
Durante os últimos vinte anos, o mundo comunista
pretendeu ser uma grande galáxia, unida e brilhante,
onde um sol poderoso e infálivel deveria dirigir o
movimento de todos os planêtas. Essa galáxia, formada
depois da explosão que foi a última guerra, estende-se
desde as costas orientais do Pacífico até a cortina de
ferro que divide a Europa ao meio. Ela sai mesmo dos seus
limites naturais, chega até as Caraíbas, onde gravita
um meteoro Cuba. No seu centro, está a URSS,
Moscou, o Kremlin. Dentro dela, catorze países, mais de
1 bilhão de habitantes quase um têrço da
humanidade.
Desde que a galáxia foi formada, o Kremlin tem-se
esforçado, por diversas maneiras, em ser o sol único e
incontestado. Aos países que lhe giram em volta, nem
sequer foi reconhecido até hoje o papel de planêtas: de
fato, no Ocidente, êles são chamados de satélites.
Entretanto, nem tudo tem corrido de acôrdo com os planos
do Kremlin: os satélites, ora um, ora outro, ensaiam há
tempos sua rebelião. E o sol, a cada vez, fica menos
luminoso.
Navios naufragados Quando Berlim
Ocidental se rebelou em 1953, quando Budapeste resistiu
à invasão soviética em 1956, o mundo comunista sofreu
sérios arranhões, mas o Oriente se fechou sôbre os
acontecimentos que comoviam o Ocidente como o mar sôbre
navios naufragados e o sol do Kremlin ficou apenas
um pouco menos brilhante. Quando a China, a partir de
1960, começou a se afastar da URSS, a cisão foi mais
grave eram 700 milhões de pessoas escapando à
direção de Moscou mas a galáxia continuou
poderosa. Muito antes, em 1948, um satélite mais
orgulhoso e distante a Iugoslávia já
havia rompido com o centro do sistema. A partir de 1966,
a Romênia começou a seguir o mesmo caminho. A última
rebelião, entretanto, foi bastante forte para abalar
tôda a estrutura do mundo comunista. A invasão da
Checoslováquia rebelde, ainda que muito menos sangrenta
que as repressões de Berlim e Budapeste, põe em xeque
um dos pontos altos da retórica comunista: o "bloco
monolítico" como se autodefinia a compacta e
afinada galáxia vermelha , já não é mais
monolítico.
Nem uma palha A primeira prova dessa
cisão geral está dentro da própria Checoslováquia: os
tanques soviéticos vieram "salvar o
socialismo", mas não encontraram nenhum socialista
checoslovaco que os apoiasse ao contrário da
Hungria, onde houve Janos Kadar e seus burocratas
ajudando os russos a eliminarem Imre Nagy e seus
rebeldes. Nem as famosas "milícias operárias"
guarda pretoriana formada em 1947 nos modelos
stalinistas, com o objetivo de sustentar os governantes
impostos por Moscou chegaram a mexer uma palha em
apoio dos invasores. A segunda prova está na
condenação quase geral feita à invasão pelo comunismo
internacional.
Ao lado dos checoslovacos estão a Iugoslávia de Tito, aos 76 anos patriarca
do comunismo europeu; a Romênia, que há anos escolheu o caminho do "comunismo
nacional"; todos os grandes partidos comunistas da Europa ocidental,
começando pelo italiano, o mais importante do mundo depois do soviético
e do chinês, e passando pelo francês, freqüentemente acusado de fidelidade
excessiva ao Kremlin. Na esteira dos partidos, grande número de personalidades
de extrema esquerda por exemplo o inglês Bertrand Russell, o filósofo
que pretendia julgar Johnson por causa da guerra do Vietnam ou o francês
Jean-Paul Sartre estão do lado dos checoslovacos. Os cinco signatários
do Pacto de Varsóvia, que determinou a invasão da Checoslováquia
URSS. Polônia, República Democrática Alemã, Hungria e Bulgária ,
só conseguiram a aprovação de Fidel Castro, surpreendentemente disposto
a louvar os tanques soviéticos, depois de ter, por muito tempo, definido
uma posição bem próxima à da China que, naturalmente, aproveita
a situação para liberar mais um dos seus tradicionais ataques contra o
Kremlin.
Entre os próprios invasores, chegou a haver divergências sérias. Janos
Kadar, o húngaro, talvez atormentado pelos fantasmas de Budapeste, opunha-se
francamente à intervensão armada. Êle ameaçou mesmo não entregar tropas
húngaras para a operação e, na "reunião dos cinco", em Varsóvia,
travou uma tempestuosa discussão com o mais duro entre os duros, Walter
Ulbricht e provocou a suspensão dos debates, pois o líder alemão
oriental, 75 anos de idade, acabou se sentindo mal. Kadar só veio a concordar
com a invasão mais tarde, por um acidente pessoal: exasperou-se com a
publicação na imprensa checoslovaca de um artigo assinado por alto funcionário
do Ministério do Exterior, louvando Imre Nagy e condenando sua execução
ordenada, ou permitida, pelo próprio Kadar.
Policentrismo, teoria e prática A indignação de tantos
comunistas exprime, na verdade, um sentimento que não chega a ser nôvo
em fôlha. Pouco antes de morrer, em agôsto de 1964, o líder do PC italiano
Palmiro Togliatti lançou uma palavra que no momento está muito na moda:
policentrismo. Uma palavra difícil, aparentemente mais apropriada para
resumir a teoria astrônomica de uma rebelião de planêtas. Mas, de certa
maneira é isso mesmo: ela significa que Moscou deixou de ser o centro
da verdade; o comunismo se torna plural e deve ser adaptado às condições,
tradições e aspirações de cada povo. A teoria do policentrismo teve confirmação
prática no fim de fevereiro dêste ano, na reunião dos partidos comunistas
convocada na mesma Budapeste que em 1956 viu afogado em sangue o seu breve
sonho de liberdade. Doze anos depois, ausentes os tanques vencedores,
e os heróis derrotados. Moscou sofreu um abalo mais grave. Desde o início
de 1964 Kruschev ainda estava no poder , a URSS vinha propondo
uma conferência. Ela deveria, nos planos do Sr. K., condenar a China herética
de Mao Tsétung. Tratava-se evidentemente de uma idéia muito pouco sedutora,
mesmo para os partidos que menos simpatia manifestavam por Mao, como o
italiano e o polonês. Condenar o comunismo nacionalista de Mao seria o
mesmo que condenar o policentrismo.
O humor dos romenos Caiu Kruschev, em
setembro de 1964: o Kremlin não desistiu da
conferência, porém mudou de tática. Passou a propô-la
para discutir métodos de luta antiimperialista, usando o
argumento da guerra do Vietnam. As negociações no
caminho da conferência se arrastaram por anos.
Finalmente, as delegações de 65 partidos comunistas
o total dos PCs espalhados pelo mundo é de
noventa apareceram em Budapeste. Na lista dos
ausentes havia seis dos catorze PCs no poder: iugoslavo,
chinês, coreano do norte, albânes, vietnamita do norte
e cubano. Dos PCs da Ásia, presente só o indiano. Entre
os europeus, não apareceram os suecos e os holandeses. E
os romenos foram a Budapeste de rostos amarrados. Numa
das primeiras sessões da Conferência de Budapeste, o
delegado do PC Sírio, Kaled Bagdache, acusou a Romênia
de praticar uma política "bairrista". Foi a
deixa: os romenos levantaram-se com grande ruído e
gestos mediterrâneos êles tem sangue latino e
sua língua é parecida com o italiano e, diante
da platéia atônita, retiraram-se para não mais voltar.
Em casa, abriram as expressões em sorrisos e comentaram:
"Depois de 1957, as conferências dos PCs são cada
vez menos freqüentadas. Continuando assim, aonde
chegaremos?" O sangue eslavo, que também corre nas
suas veias misturado com o latino, lhes permite um certo
humor amargo e impiedoso.
Quem invoca a liberdade Apesar do incidente, o comunicado
final da Conferência de Budapeste fala em "debates cordiais".
Mas não anuncia "decisões unânimes". Nas intenções soviéticas,
haveria de ser a conferência da unidade foi a conferência das diferenças.
Dois meses depois, as manifestações de 1º de Maio nas várias capitais
comunistas mostravam ainda mais claramente essas diferenças. Em Moscou
o tema das manifestações era "a luta pela disciplina e contra a subversão
ideológicas": em Varsóvia, "a luta anti-sionista"; em Praga,
"socialismo com liberdade". Ludvik Vaculik, escritor e jornalista
checoslovaco, de 41 anos, dizia: " A liberdade só existe onde não
é invocada". Do Mar Negro ao Mar Báltico a humanidade vive de privações,
leva uma existência apertada, sem as pequenas satisfações cotidianas e
as comodidades do Ocidente, que, no entanto, os países da Europa oriental
já conheceram. Quem vive assim sonha com facilidade, e nos sonhos mescla
o essencial ao frívolo. O nôvo comunismo que muitos comentaristas de política
internacional viram surgir em Budapeste, cristalizado no malôgro da Conferência,
é apenas a projeção dêsses sonhos num futuro que depende da eficiência
do Estado. Ao mesmo tempo é a afirmação de um nacionalismo reencontrado.
Queda brutal Êsses sonhos têm uma base
real: se Marx estivesse vivo, provàvelmente diria que a
crise provocada por êles no socialismo europeu é
fundada em contradições sociais. Contradições que
são negadas pelos países socialistas, mas que nem por
isso deixam de existir. Provas: a crise econômica nesses
países, os projetos de reforma para superá-la e a luta
que desde então se desenvolve entre beneficiados e
prejudicados por essas reformas. Desde 1948, as
"democracias populares" do leste europeu
aplicavam fielmente, em suas economias, o rígido sistema
de planificação e gestão instaurado na URSS por
Stálin na década de 30. Acontece que êsse sistema
entrou em crise, com a diminuição do ritmo de
produção. Se de 1948 a 1955 tudo foi bem a renda
nacional aumentava de 8 a 14 por cento em média, por
ano, de 1956 em diante a queda foi brutal: os níveis
baixaram até 3 por cento.
Aos olhos dos economistas do regime, êsses resultados
assumiam proporções de catástrofe: com efeito, o
objetivo de todos os países socialistas era alcançar e
superar a produção e o nível de vida dos países
capitalistas do Ocidente. Nada disso tinha acontecido: e
se as coias continuassem no mesmo ritmo, nada aconteceria
nunca. A URSS, por exemplo, progride, mas num ritmo muito
inferior ao do Japão; seu progresso se aproxima ao dos
Estados Unidos o que significa que os americanos,
que partiram na frente, se distanciam cada vez mais.
Preços arbitrários Diante da catástofre, surgiram os gritos
de reforma. O sistema stalinista não se adaptava à economia moderna: planificação
muito rígida, produção determinada por métodos administrativos e não econômicos,
sistema arbitrário de preços 1 tonelada de carvão, por exemplo,
era vendida na URSS a 24 rublos, enquanto seu preço de custo era de 62
rublos. Em compensação, o preço das roupas era altíssimo. Com a reforma
que da URSS saiu para os outros países do bloco abrandava-se
a planificação, descentralizava-se a gestão, dava-se maior autonomia às
emprêsas, substituía-se a arbitrariedade pelas leis do mercado, reformava-se
o sistema de preços.
Essas medidas pareciam puramente técnicas, mas
traziam um grande significado políticos. Isso porque a
reforma veio atingir em cheio os
"apparatchiki", funcionários do PC
engarregados de promover, administrar e fiscalizar a
produção. Com a economia funcionando por si mesma,
êles perdiam suas funções e, imediatamente, começou a
luta entre os homens do aparelho e os dirigentes de
emprêsas. Nessa luta, êsses últimos se aliaram aos
intelectuais e aos estudantes: uma aliança natural, pois
todos queriam mais liberdade de ação diante dos
burocratas. Dessa luta nasceu a crise, e, quando, num dos
países do bloco, os liberais venceram a batalha contra
os "apparatchiki", a crise explodiu em
interversão armada em Moscou, são os burocratas
que mandam, os liberais estão neutralizados, e a
experiência da Checoslováquia poderia inverter essa
situação.
Até onde o tempo parou O visitante
ocidental (no ano passado 2 milhões de ocidentais
estiveram em países de além-cortina, 15 por cento a
mais que em 1964) encontra às vêzes nas capitais
comunistas da Europa o clima dos anos 30. Para os
violinos que acompanham o jantar no Hotel Athenée
Palace, de Bucareste, para os imponentes táxis prêtos
de Budapeste (são Pobedas russos, na linha lembram o
Plymouth de antes da guerra), ou para os casacos de pele
que os homens vestem nas ruas de Varsóvia, o tempo
parou. Um jornalista americano surpreendeu-se e se
comoveu ao ouvir tocar, além-cortina, os velhos
sucessos de Eddy Duchin, um pianista cuja vida foi
filmada há muito tempo, na interpretação de Tyrone
Power (morto em 1958). São as sombras do passado, em
vago, irreal combustível para os sonhos. A realidade é
outra. Em Bucareste há taxis lustrosos e, na
Romênia, 10 mil carros ao todo, para uma população de
19 milhões. (No Brasil circulam cêrca de 2 milhões de
carros.) Nas ruas das cidades húngaras, romenas,
polonesas, checoslovacas, o comércio é pobre, as
vitrinas tristes, os preços de tudo muito altos.
Ainda as idéias do Sr. K. Há as
lembranças do passado e há as experiências do
presente, realizadas por quem teve coragem de livrar-se
na medida do possível, das diretrizes do Comecon
o mercado comum vermelho. Fundado em 1949, como resposta
ao Plano Marshall, que revigorou a Europa ocidental
depois da II Guerra Mundial, o Comecon (Conselho para a
Assistência Econômica Mútua) atualmente é formado
pela URSS, Bulgária, Checoslováquia, Alemanha Oriental,
Hungria, Polônia, Romênia e também a Mongólia
Exterior. Objetivos: coordenar os planos de
desenvolvimento econômico e comércio exterior dos
países membros, promover a ampliação da ajuda
econômica e encorajar os projetos de investimento
conjunto. O Comecon é uma sociedade que atribui à URSS
a parte do leão. Por exemplo, ela fornece aos demais
países cêrca de 70 por cento do material bruto, a
preços muito mais elevados do que os do mercado
internacional. Desculpa usada pelos russos: as nossas
minas mais próximas ficam a mais de 3.000 quilômetros
das fronteiras dos nossos aliados. A URSS vende caro seu
minério de ferro e seu petróleo, mas compra barato
e em rublos os produtos mais sofisticados
das indústrias checoslovacas, alemãs orientais e
polonesas. E enquanto os países do Comecon não possuem
divisas suficientes para comprar os equipamentos
avançados dos países do Ocidente, sua evolução
tecnológica vai sendo freada. As motocicletas
checoslovacas são excelentes, seus caminhões Tatra
aprovaram como nenhum outro nas trilhas
norte-vietnamitas, mas a indústria química e
eletrônica é rudimentar: os medidores de voltagem
húngaros são ótimos, mas os telefones péssimos: a
indústria de conservas polonesas é avançada, mas a
indústria automobilística medíocre.
O mercado, uma descoberta Onde o comunismo nacional deitou
raízes mais profundas, os caminhos da autonomia atravessaram também o
terreno econômico. O Vice-Primeiro-Ministro romeno Georges Gaston Morin
fala num "aperfeiçoamento da economia". E admite: "Vamos
levar em conta, em certa medida, as leis do mercado". No dia 1º de
janeiro de 1968 entrou em vigor na Hungria a Nova Gestão Econômica, isto
é, nova maneira de produzir e vender, muito mais próxima dos padrões ocidentais.
A previsão é fácil: ela acabará provocando uma nova maneira de viver.
A Nova Gestão se baseia nos seguintes pontos: a produção, livre dos moldes
muito apertados dos planos, deve atender às exigências do mercado; a autonomia
do chefe de emprêsa é muito ampliada: a concorrência entre as emprêsas
é livre. Na emprêsa húngara, que não vende satisfatòriamente, os diretores
têm os seus salários descontados em proporção direta à queda nas vendas.
Podem ser até despedidos sumàriamente. Alguém começa a reconhecer que
"o consumidor manda". E um dos economistas húngaros responsáveis
pela Nova Gestão, Lazlo Imre, declara: "Procuramos nos convencer
de que a introdução do mercado não destrói a planificação". Em Praga,
o Professor Ota Sik, responsável pela linha econômica do Govêrno checoslovaco
depois da deposição do stalinista Novotny, aplicou, desde janeiro até
a véspera da invasão russa, novos modelos que condenam tudo o que foi
feito no mundo comunista nos últimos vinte anos. Sik defende a descentralização
da economia e o incentivo da produção, através de estímulos ao operário,
como prêmios em dinheiro e redução das horas de trabalho.
Um símbolo: a Pepsi-Cola Enquanto nas
boates de Praga os jovens começam a dançar ao som dos
Beatles, os governos de alguns países da Europa oriental
pensam em abrir suas fronteiras também aos investimentos
estrangeiros. Já foram abertas pela Romênia. Emprêsas
alemãs, entre as quais a Siemens e a Krupp, chegaram com
50 milhões de dólares; a Pechiney francesa, com uma
fábrica de alumínio. Chegaram também locomotivas
suecas, chocolate italiano e carros (Renault) franceses.
A Pepsi-Cola logo será engarrafada em terra comunista.
Num lance de pura ironia, a Pepsi torna-se o símbolo de
uma revolução. Sem grandes dificuldades, ela pode ser,
para um comunista, o símbolo do capitalismo mas
entre o comunismo e o capitalismo existe há tempo uma
coexistência oficialmente consagrada; o problema é a
coexistência entre comunistas. "No campo
ideológico, tôda coexistência pacífica é
excluída", dizia o "Pravda", órgão do
PC soviético, nas vésperas da invasão da
Checoslováquia. É por isso que a experiência
checoslovaca nem "democracia burguesa",
nem socialismo modêlo soviético, mas uma terceira
fórmula criando o livre debate e a participação
democrática em tôrno do PC horrorizou os russos.
Da mesma forma que "aventureiros" e
"anarquistas" de Paris haviam feito o Kremlin
tremer de indignação em maio. Anos atrás, Kruschev
dizia a Maurice Thorez, então líder do PC francês
(morto em junho de 1964): "Se não há unidade entre
os PCs, não há mais unidade no PC". Kruschev
enxergava longe. Pouco antes da invasão soviética, um
dos dirigentes do PC checoslovaco, Joseph Sabata,
afirmava: "Ao Govêrno cabe mandar. O Partido não
representa todo mundo". Para o Kremlin, frases como
essa e atitudes como a de Dubcek, o líder checoslovaco
que pretende "um socialismo com liberdade",
trazem riscos demais. Por isso, enquanto o teórico do PC
russo Mikhail Suslov disserta em Moscou sôbre o
verdadeiro marxismo, os tanques russos moem as ruas de
Praga.
A fôrça do nacionalismo Em outros tempos, através do Comintern
antes, do Cominform depois, o PC Soviético até o imediato pós-gerra
o único Partido Comunista no poder controlou tranqüilamente os
demais PCs. Foram tempos em que ninguém ousaria duvidar do caráter internacional
do comunismo, movimento global que recebia as senhas e as cadências diretamente
de Moscou. Fundado em 1919 sôbre as cinzas da Primeira Internacional (organizada
em Londres por Karl Marx, em 1864) e da Segunda (moderada, em 1889), o
Comintern, também conhecido como Terceira Internacional, tinha como fim
"promover revoluções contra os regimes capitalistas". Foi dissolvido
no fim da II Guerra Mundial, como prova de boa vontade oferecida aos aliados
ocidentais. Veio a "guerra fria", e êle renasceu com o nome
de Cominform e funções mais amplas. Coordenava as atividades subversivas
do comunismo internacional, mas era também uma arma usada por Stálin para
dominar a Europa oriental. Por intemédio do Cominform, Tito foi excomungado
como "revisionista", em 1948. Depois da morte de Stálin (1953)
e da reaproximação de Tito ao Kremlin, o Cominform foi extinto, em 1956.
O fim dêsse instrumento de poder, a morte do ditador e a liquidação do
seu mito anunciada por Kruschev em 1956, no XX Congresso do PC
Soviético e, ainda, as atitudes cada vez mais independentes de
Mao Tsé-tung, advogado de caminhos diferentes para o socialismo, roeram
as bases do internacionalismo comunista.
Hoje o nacionalismo é a grande fôrça no mundo comunista. Êle é mais forte
que os próprios partidos, e mais forte que a ideologia. Ainda é mais fraco,
entretanto, que o Pacto de Varsóvia oficialmente, um instrumento
de defesa externa contra os países capitalistas, mas, na prática, um meio
de pressão interior nos países socialistas da Europa, uma fôrça de polícia
que faz reinar a ordem moscovita dentro dêles.
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Marx: a hora
dos trabalhadores |
Além do leque, os tanques A ideologia é, no mundo comunista
atual, um leque manuseado com dicutível habilidade por Suslov não
chega a esconder os tanques, por exemplo. Muito mais que no Oriente, é
no Ocidente que as idéias marxistas mobilizam intelectuais, excitam cientistas,
engajam sentimentos. Pensadores como Herbert Marcuse, Ernst Bloch e Erich
Fromm todos de origem alemã desencandearam com suas obras,
inspiradas em Marx, embora modificadas por idéias psicanalíticas ou religiosas,
o único movimento marxista espontâneo desde os tempos da Revolução Russa:
a rebelião dos estudantes.
Em fins de março, o Partido Socialista-Comunista Unificado da Alemanha
Oriental promoveu um congresso de filósofos, com o propósito de salvar
a imagem comunista ortodoxa de Marx diante da investida dos inovadores
marxistas ocidentais. A tentativa acabou em penosos acidentes, nos protestos
checoslovacos e no mau humor húngaro. No entanto, Suslov repete que "o
leninismo e o marxismo do século XX e a experiência soviética são a única
encarnação do marxismo". Enquanto em Varsóvia o Professor Kolakowski,
da faculdade de Filosofia, marxista convicto, aceita que os seus alunos
discutam abertamente quaisquer ideologias, Suslov distribui rótulos de
"revisionista" (para Tito), de "nacionalistas" (para
romenos e checoslovacos) e "revisionistas e nacionalista" (para
Mao). (Nas declarações de Mao, revisionistas são os soviéticos.) É a fórmula
que o Kremlin elabora para justificar excomunhões ou "operações saneadoras",
como na Checoslováquia.
De Marx a De Gaulle Marx partia da idéia de que o mundo
sòmente poderia ser transformado pela violência. Escrevia em 1848: "Os
comunistas declaram que os fins sòmente poderão ser atingidos pela subversão
violenta de tôda a ordem social preexistente". Contudo, Marx imaginava
que o capitalismo criaria um mundo de pouquíssimos ricos e de uma multidão
infinita de pobres. Assim, a maioria seria proletária, e a revolução,
proletária e democrática. A previsão não se confirmou: o proletariado
hoje deseja integrar-se numa classe média cada vez mais numerosa. A França
fornece um exemplo recente. Em junho passado, diante da incerteza de uma
revolta começada nas universidades e que poderia arrastar a nação para
o caos, o proletariado optou pela solução "burguesa" e reelegeu
o General De Gaulle. "O curso da história foi diferente do que Marx
havia imaginado", constatou recentemente Max Horkheimer, diretor
da Escola de Sociologia de Frankfurt, êle próprio, outrora, seguidor de
Marx. O problema da falta de uma maioria disposta a fazer uma revolução
já havia sido de Lênin. Foi êle quem forneceu uma solução sucedânea, mas
também fatal, proclamando a revolução dos "revolucionários profissionais",
organizados num partido chamado a substituir a massa sem consciência revolucionária.
Êsse partido representava a consciência personificada, nêle manifestava-se
a vontade de Lênin de ensinar "consciência de classe" a operários
e camponeses. "A emancipação dos trabalhadores poderá ser sòmente
obra dos próprios trabalhadores", dizia Marx. "Sòmente de fora
a consciência política de classe pode ser introduzida no meio dos operários",
dizia Lênin. Stalin apresentou a sua versão: o regime dos intelectuais,
que pensavam pelos trabalhadores, foi depurado com o sangue e transformado
no regime da burocracia.
As estrêlas vivas As rebeliões de intelectuais, em todo
o mundo comunista, são agora o reflexo tardio da tentativa de Lênin de
obrigar os homens a encontrarem a sua consciência revolucionária. Mas
o terreno das idéias é muito perigoso. Na própria URSS, o ponto
de vista oficial de Kremlin é constestado. O grande físico Andrei Sakharov,
47 anos, membro da Academia de Ciências Soviética, divulgou recentemente
um manifesto dizendo que a "divisão da humanidade provocará sua destruição"
e que o socialismo deveria se aproximar do capitalismo numa tarefa fundamental
para a sobrevivência dos homens. "Todo teórico marxista dizia
Sakharov deveria compreender o significado profundo dos progressos
econômicos realizados pelo capitalismo." Êsse afirma também que "nada
permite sentenciar que os métodos de produção capitalistas conduzam a
um impasse ou uma produção inferior a dos países socialista, nem à pauperização
da classe operária". Dêsses princípios, êle parte para a pregação
de uma coexistência profunda entre os dois sistemas: "Tanto o capitalismo
como o socialismo são capazes de se desenvolver entre êles a longo prazo,
emprestando-se mùtuamente elementos positivos e aproximando-se um do outro
sôbre um certo número de problemas, entre os quais a liberdade intelectual".
Há muitos intelectuais russos que hoje procuram essa liberdade. O homem
não pode ser um parafuso do mecanismo social, êle tem direito à felicidade
privada, à ética individual: é o que se lia num artigo publicado recentemente
na revista "Questões de Filosofia", a mais importante publicação
filosófica da URSS. O leque ideológico de Suslov é evidentemente hipócrita.
A URSS de Brezhnev, Podgorny e Kossiguin, no momento de soltar os tanques,
não é diferente da Rússia santa e dos czares que soltava a cavalaria.
Ela não renega a sua vocação imperialista. A URSS pretende apenas salvar
o que pode do seu império para ser, ainda, o sol da sua galáxia.

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