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CORRIDA AO FUNDO
DO MAR
O homem marca um prazo para a conquista
do mar, o rico e fascinente berço da vida
Nas próximas décadas, o homem voltará às suas origens, ao profundo e
misterioso oceano, de onde as primeiras formas de vida saíram há 300 milhões
de anos. No Rio de Janeiro, esta volta foi proposta oficialmente por 35
países, numa conferência sôbre o fundo do mar patrocinada pela ONU. E
agora, quando começa a I Década Oceanográfica Internacional, já se pode
prever como será a vida no mar dentro de poucos anos. Mergulhadores cultivarão
as extensas plataformas submarinas, suaves prolongamentos das prais que
descem até 300 m no oceano e circundam todos os continentes; transformarão
o solo marinho em hidroculturas, onde peixes nascidos de ovos fertilizados
viverão como em fazendas aquáticas para depois serem transformados em
alimentos concentrados. Poços de petróleo serão operados por trabalhadores
a 400 m de profundidade; geólogos e oceanógrafos visitarão o fundo o mar
em submarinos, para estudar novas riquezas minerais, medir e conhecer
a topografia e a vida marítima. E nem só de trabalho será a vida no mar:
as famílias passarão férias sob as águas, em casas especiais de onde podem
sair para pescar, fotografar ou simplesmente apreciar a fascinante paisagem
submarina.
As razões do sangue Muitas coisas
empurram o homem para o onipresente oceano, que cobre 341
dos 510 milhões de quilômetros quadrados de superfície
da Terra. Algumas razões estão em seu próprio sangue:
o líquido que circula nas veias humanas tem uma
composição quase idêntica à dos oceanos.
Como a corrida ao espaço, a viagem para o mar oferece
aos aventureiros a emoção do desconhecido: a apenas 5
km de profundidade, a paisagem submarina é tão exótica
como a da Lua e muito mais rica em côres, sons e formas.
As razões da fome A vida volta ao mar
também em busca de alimento e de fortuna. No ano 2000, a
população da Terra será duas vêzes a de hoje, 6
bilhões de pessoas. Para alimentá-las será preciso
buscar as proteínas no mar. Em 1950, a ONU calculou a
necessidade mundial de proteínas em 70 bilhões de
quilos; mais trinta anos e serão necessários 170
bilhões. E o mar pode dar mais que isso, só em peixes:
200 bilhões de quilos anuais (hoje, dá 54 bilhões).
Mas, para isso, é preciso cuidar da flora do mar como
dos pastos das fazendas. De acôrdo com biologistas, 99%
dos filhotes de peixes morrem por doenças e má
alimentação. Protegendo o ambiente onde vivem,
enriquecendo-o, vários institutos oceanográficos em
todo o mundo começam a mostrar que é possível
multiplicar os peixes. Mas não é só o que o oceano
oferece ao futuro.
As reservas marítimas de petróleo são calculadas em
700 bilhões de barris, três vêzes a quantidade que há
nos continentes. Companhias americanas, no momento,
investem 10 bilhões de dólares na exploração das
reservas petrolíferas da plataforma continental.
O mar dá aos Estados Unidos, Inglaterra e Noruega todo o magnésio de
que precisam; fornece 75% do bromo dos EUA; todo o estanho da Indonésia,
Malásia e Tailândia; um quinto do carvão que os japonêses não têm na sua
ilha. O mar tem ouro (Alasca) e diamantes, que a África do Sul extrai
a 60 m de profundidade na sua plataforma continental.
Viver no mar O oceano agride quem se aventura desprotegido
à profundidade de poucos metros. Um mergulhador, a 50 m, só pode ficar
alguns minutos, devido ao frio. E, ao retornar à superfície, precisa passar
horas numa câmara de descompressão, para livrar os tecidos e o sangue
do excesso de gases empurrados para a corrente sanguínea pelas altas pressões
da água. Subindo ràpidamente à superfície, êstes gases formam bôlhas dentro
do corpo, muitas vêzes no sangue; então o mar faz sofrer e chega a matar.
A firma americana Westinghouse descobriu como evitar
que o homem pague tão alto preço por seus mergulhos.
Antes de descer, o mergulhador entra numa câmara a bordo
de um navio, onde é mantido por algum tempo sob as
pressões dos locais onde irá trabalhar. Quando seus
tecidos estão saturados com gás, êle toma outra
câmara, para mergulho, com a mesma pressão, e desce.
Para descansar, pega a câmara de transporte e volta à
outra do navio. Assim, não tem de se submeter à
descompressão tôda vez que sobe e desce.
Astronautas, aquanauta A aventura do mar
seduziu um homem que já viveu a aventura do espaço,
Scott Carpenter, pilôto do segundo vôo orbital
americano, agora chefe da equipe de mergulhadores do
"Sea Lab III" (Laboratório do Mar). Êle
descerá e viverá 45 dias a 200 metros da superfície do
mar, nas ilhas de São Clemente, na costa da Califórnia.
No comêço do próximo mês, Carpenter e cinco equipes
de mergulhadores farão experiências com três tipos de
roupas que devem permitir ao homem desafiar o frio
submarino. Um dos modelos é uma espécie de cobertor com
resistências elétricas de aquecimento; o segundo é um
conjunto de encanamentos que fazem circular água quente
em tôrno do corpo do aquanauta. (Os dois são
alimentados por energia fornecida através de um
"cordão umbilical" que liga o mergulhador ao
laboratório.) O terceiro é uma vestimenta aquecida por
energia radiativa.
Os aquanautas também vão estudar as possibilidades
do diálogo homempeixe. Na expedição de "Sea
Lab II", um golfinho foi treinado para localizar
mergulhadores perdidos, segundo um equipamento de
sinalização carregado pelo homem. No "Sea Lab
III", os golfinhos levarão mensagens de um navio
até o laboratório. Algumas focas também farão
serviços para os homens. Elas não são tão
inteligentes quanto os golfinhos, mas podem ficar dentro
da água por períodos quatro vêzes mais longos.
Respirando água Talvez o homem possa
trocar o ar pela água. Um fisiologista americano,
Johannes Kylstra, "preparou" ratos que passeiam
tranqüilos no fundo de tanques cheios de soluções
salinas com muito oxigênio. Os ratos respiram a
solução em vez de ar e Kylstra concluiu que os pulmões
funcionam também com líquidos, desde que êstes tenham
suficientes concentrações de oxigênio. Mostrou ainda
que a experiência funciona também com homens. Um
voluntário submeteu-se à prova, respirando água em um
dos pulmões, através de tubo inserido numa incisão
feita na traquéia. Sob efeito de anestesia local, êle
disse não ter sentido dificuldade de respiração nem
cansaço. Kylstra acha que seus trabalhos podem livrar os
mergulhadores do grande castigo do mar: a pressão.
Acredita que, respirando hélio líquido, um fluido que
resiste a pressões altíssimas, o homem ficaria com os
tecidos e o sangue fechados para a entrada dos gases
impelidos pela alta pressão da água do fundo do mar. Um
mergulhador poderia voltar à superfície livremente,
mesmo depois de uma descida a mais de 500 m. As
experiências feitas com ratos até agora confirmaram
suas previsões.
Mare nostrum Enquanto todos correm para o mar, o Brasil,
com 7.408 quilômetros de litoral (uma das cinco maiores extensões costeiras
do mundo), olha para o oceano com esperanças, mas ainda com timidez. Uma
pesca primitiva e o início da pesquisa de petróleo na plataforma continental:
isso é tudo, por enquanto.
Mas começa a soprar um vento de pôpa na viagem brasileira para o oceano.
A Petróbras atualmente perfura o fundo do mar no litoral de Aracaju. Usa
uma plataforma flutuante marítima a "Petróbras I"
e uma sonda que desce a 4.000 m. Mais seis locais serão pesquisados, em
Sergipe, Espírito Santo e Alagoas. Enquanto isso, chegou a Santos o Navio
do Instituto Oceanográfico de São Paulo, o "W. Besnard", que
termina sua terceira viagem de estudos da corrente da flora marítimas
entre Espírito Santo e Rio Grande do Sul.
Mais peixes A viagem do "W. Besnard" é parte
de um programa para melhorar as condições de pesca brasileira. O Brasil
extrai do mar apenas 1% de sua alimentação, enquanto no resto do mundo
a média é 4%. A sardinha, o mais abundante pescado brasileiro, é tirada
do mar na razão de 100 quilos por hectare. O resultado é medíocre quando
comparado com a pesca da anchoveta, a sardinha do Peru: 2.100 quilos por
hectare. (Os números servem para mostrar como é generoso o mar: 1 hectare
de terra é o que um boi exige para dar ao homem só 20 quilos de carne.)
O Brasil não precisa apenas do milagre da
multiplicação dos peixes: suas reservas minerais
submarinas também continuam intocadas. Segundo o
Capitão-de-Mar-e-Guerra Paulo de Castro Moreira da
Silva, 45 anos, diretor do Instituto de Pesquisas
Marítimas da Marinha, além do petróleo, o fundo do mar
brasileiro tem calcário (litoral baiano: o calcário é
ótimo fertilizante), areias monazíticas (mineral
atômico, na plataforma continental do Espírito Santo) e
fosfatos, descobertos recentemente nas águas de Cabo
Frio, excelentes fertilizantes, talvez a maior riqueza do
mar brasileiro.
Em muitos lugares, o mar oferece espontâneamente os
seus tesouros. Na foz do Amazonas, recentemente, o navio
japonês "Tóquio Maru" não conseguia arrastar
suas rêdes no fundo do mar devido ao pêso de pedras de
manganês, que chegam a formar um duro tapête na
plataforma continental do Norte.
No Sul há magnetita (minério de magnésio, metal usado no bloco do motor
do Volks) e ilmenita, minério de tório, combustível dos reatores nucleares.
Os donos do mar De quem é o oceano?
Esta é uma das perguntas que motivaram a reunião da
ONU, no Rio, durante duas semanas. A conferência
discutiu apenas o mar profundo.
O mar litorâneo já tem seus donos. Para a maioria dos países (o Brasil
entres êles), uma faixa de 6 milhas acompanhando o litoral é parte do
território nacional: nela, o país é soberano e só permite aos demais a
passagem de "barcos inocentes", não dedicados nem à pesca, nem
à guerra. Em outra faixa, de mais 6 milhas, contíguas à primeira, a nação
se reserva os direitos de pesca, embora não reivindique a soberania. Isso
na superfície; quanto à plataforma continental, todos os países a consideram
território nacional. No Brasil, ela corresponde a uma faixa com largura
média de 67 quilômetros e 850.000 quilômetros quadrados, um décimo da
área continental brasileira.
O mar de todos Mas de quem é o alto
mar, o mar profundo que constitui 90% do oceano? Os
países pequenos e fracos acham que êle deve ser de
todos e de ninguém. Os países grandes e fortes acham
que o assunto precisa ser bem discutido. A pequena ilha
de Malta (246 quilômetros quadrados, no Mediterrâneo,
ao sul da Sicília), país que propôs a conferência do
Rio, acha (e nisso tem o apoio dos subdesenvolvidos) que
o mar deve ser internacionalizado e explorado em
benefício de todos. E que devem ser proibidas as
atividades militares em seu leito. Os americanos querem
melhor definição do que Malta entende por
"atividades militares". Perguntaram na
conferência: um submarino estaria violando a lei? Uma
mensagem militar pelos cabos submarinos seria permitida?
Estas perguntas serão em breve respondidas.
De homens e peixes: diário
de 37 trabalhadores do mar
Dia 20 de agôsto. O mar está inquieto. Ondas
de até 7 metros varrem o convés do "W.
Besnard". A tripulação, 37 homens do
Instituto Oceanográfico de São Paulo, espera
tempo melhor para prosseguir o trabalho: a
terceira viagem de levantamento das condições
para a pesca no litoral sul do País.
Há seis dias o "Besnard" deixou o pôrto de Santos. A
viagem termina no comêço de setembro e será repetida, mais sete
vêzes, mês sim, mês não, até 1969.
Dia 22. Gelso Vazzoler, 39 anos, oceanógrafo, chefe da expedição,
já fêz viagens semelhantes dezenas de vêzes, mas ainda sofre com
a maresia. Hoje está animado. O mar calmo vai permitir a continuação
das pesquisas. Matsunaga Iway, japonês de 26 anos, oceanógrafo,
lança ao mar uma rêde especial para recolher ovos de peixe. Procura
determinar a época da desova da corvina, da maria-mole, da pescada
e descobrir quando e onde estas espécies de primeira qualidade podem
ser apanhadas.
Dia 24. Mar ainda calmo. A cada 50 km, o "Besnard" recolhe
amostras da água, mede sua temperatura e determina o tipo de plancto
que elas contêm (plancto são organismos vegetais ou animais, alguns
microscópicos, alimento da maioria dos peixes). As informações obtidas
permitem a Naércio Aquino Menezes, 31 anos, biologista doutorado
em Harvard, EUA, e ao resto da equipe calcular onde ficam os cardumes:
cada um tem preferência por certa espécie de plancto, por determinada
temperatura e quantidade de sal.
Dia 26. Matsunaga e Gelso estão interessados
em atuns. Numa viagem anterior, Matsunaga julgou
ter localizado pelo sonar alguns cardumes (o
navio emite um som, êle se reflete no cardume, e
o eco é ouvido de volta no navio; o tempo entre
a emissão e a recepção do som dá a distância
dos peixes ao barco). Até pouco tempo, ninguém
sabia da existência do atum no litoral
brasileiro. Êste peixe bicudo, de carne
avermelhada, que chega a mais de 1 metro de
comprimento, talvez seja a isca que atrai os
barcos estrangeiros para as costas do Rio Grande
do Sul. Gelso pensa assim e por isso, no fim da
viagem, o "Besnard" deve procurá-los,
saindo da plataforma continental, para as
correntes de água morna de 19 a 26º e os bancos
de areia a 500 km do litoral, suas regiões
preferidas.
Dia 28. O "Besnard" continua em trabalho de recenseamento
das sessenta espécies de peixes que existem nas águas sulinas. Pega
amostras de cardumes e calcula a idade média, comprimento, pêso
e elementos de cada sexo. As informações permitem determinar quando
e como os cardumes devem ser pescados, sem acabar com sua espécie.
Além dos peixes da superfície, de vez em
quando a rêde traz surpêsas. Agora, são duas
espécies de estranha família que habita o fundo
do mar: uma é o peixe-morcêgo, de aspecto
sinistro, que não nada, apenas anda no fundo; a
outra é o pescador, um pequeno monstro marinho,
de bôca larga, quase do tamanho do corpo negro
cheio de protuberâncias. O pescador sabe pescar:
possui uma espécie de língua, semelhante a uma
apetitosa folhinha, que agita entre os peixes
menores.
Dia 30. O "Besnard" vai atrás dos atuns, deixa o litoral
à altura do arroio Chuí. O comandante Aimorê Fleury Godoy
manda apontar a proa para o mar alto, em busca de bancos de areia,
alguns descobertos no século passado. Os três primeiros não são
localizados. Os registros cartográficos são antigos e imprecisos.
Ainda há quatro bancos, onde os atuns podem estar escondidos. Um
forte vento nordeste, contudo, começa a soprar contra a proa do
"Besnard". Alguns ainda querem continuar. A experiência
do Capitão Aimorê aconselha o contrário: a tripulação está cansada,
o prazo da viagem esgotado, o mar agitado demais. O "Besnard"
ruma para Cananéia; já tem muitas informações, agora vai analisá-las.
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