O TRÁGICO E HUMANO
SENTIDO DA MORTE

"Nunca supus que isso a que chamam morte tivesse qualquer espécie de sentido." Para o poeta português Fernando Pessoa, não havia significado algum no fim da vida do amigo que êle chorava com êsses versos.

No último dia 2, pouco antes da meia-noite, a morte do suicida Aggeu Alves, promotor em São Vicente, São Paulo, significava esperança de vida para quatro doente — um do coração, dois do rim e um do pâncreas. E para a equipe de 57 médicos, 26 enfermeiras e dezenas de atendentes, a morte de Aggeu significava também o início de uma das maiores operações de transplante já realizadas em todo o mundo.

Um paciente comum — Quando chegou ao Centro Cirúrgico do Hospital das Clínicas de São Paulo, com a cabeça perfurada por uma bala calibre 45, Aggeu Alves era um paciente qualquer. Respirava mal, embora tivesse o pulso e a pressão normais. O médico de plantão que o atende, percebe logo que êle tem poucas possibilidades de vida. O tiro, por êle mesmo disparado, entrou pelo lado direito da cabeça, abrindo um grande orifício junto à têmpora. A bala saiu do outro lado, mais no alto. Para facilitar sua respiração, uma sonda é introduzida em sua bôca até a traquéia. Para compensar a perda de sangue, parte dêle é reposto através de uma veia. É levantada a hipótese de uma cirurgia cerebral. Um neurocirurgião consultado afasta a possibilidade: "Inútil, é um caso perdido".

A autorização — Pouco depois do meio-dia, o chefe do Pronto Socorro telefona para o Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, chefe da equipe de transplante: avisa que há um possível doador. Zerbini chega ao hospital e examina o paciente. O tipo de sangue é favorável. Mas é preciso obter a autorização da espôsa de Aggeu Alves para o transplante. O chefe do Pronto Socorro, dirigindo-se ao Dr. Zerbini: "Você fala com a mulher?" O Dr. Zerbini, meio encabulado: "Sabe, eu não tenho muito jeito para êsse negócio, não. Acho melhor a gente chamar Dona Clarice."

Dona Clarice é a enfermeira-chefe do Hospital das Clínicas. Ela conversa com a mulher do promotor. Na sala do diretor administrativo do Hospital, a autorização é dada por escrito.

Luta pela vida — Os médicos continuam lutando pela vida de Aggeu Alves, o homem cuja morte pode salvar quatro pessoas, já preparadas para a cirurgia em salas vizinhas. Aggeu não tem mais reflexos, sinal de que algumas partes do cérebro já deixaram de funcionar. Mas continua recebendo sôro e sangue e seus pulmões funcionam artificialmente, forçados por um pequeno aparelho. O coração bate.

O tempo passa. O corpo de Aggeu Alves é submetido a radiografias do tórax, para verificar o tamanho do coração e a presença de eventuais doenças cardíacas. Confirma-se: é um bom doador. Mas é preciso mantê-lo vivo. Êle recebeu 2 litros de sangue e continua sangrando muito pela cabeça. Não há como estancar a hemorragia. Dois neurocirurgiões tentam por todos os meios, não conseguem. Já há algum tempo as equipes de transplante estão sendo chamadas: todos os seus integrantes levam no bôlso do avental pequenos aparelhos receptores que recebem sinais da central de comunicações. Um bip-bip é o sinal para convocá-los.

Morto e o coração bate — Os médicos não acreditam mais que Aggeu Alves possa viver. Êle é levado para a sala B do Centro Cirúrgico, a sala do doador. O eletrocardiógrafo é ligado aos pulsos, aos pés e ao tórax: as pulsações cardíacas aparecem numa tela. O barbeiro raspa a cabeça do promotor. Nela são aplicados de dez a doze terminais do eletroencefalógrafo, aparelho que mede a atividade cerebral. O resultado são oito linhas numa tela, cada uma delas mostrando a vida de determinada região do cérebro. Quando alguma linha não apresenta nenhuma sinuosidade, indica que a parte do cérebro a que ela corresponde deixou de funcionar.

As oito linhas do cérebro do doador estão retas. O cérebro do promotor está morto.

Que dúvidas ainda poderiam existir sôbre a morte total? Uma espécie de flash é aceso várias vêzes à frente de seus olhos: nenhuma reação. Um aparelho que emite sons muito graves e muito agudos é ligado junto a seus ouvidos: nenhuma reação. O corpo de Aggeu Alves é espetado com estiletes, beliscado: nenhuma reação. Aggeu Alves está morto. Mas seu coração ainda bate.

O teste final: o corpo do doador é desligado da respiração artificial durante cinco minutos e não volta a respirar naturalmente.

São quase dezoito horas: pode-se começar o transplante.

Parem o transplante — De repente o diretor administrativo do Hospital ordena que o transplante seja interrompido: um irmão e uma cunhada de Aggeu Alves se opõem à doação. No Centro Cirúrgico, o corpo do promotor está outra vez recebendo respiração artificial. Mais um pouco de demora e todo o trabalho feito para o transplante estará perdido. O impasse se prolonga. Os próprios médicos decidem descer para conversar com o irmão do doador. O Professor Zerbini usa um argumento dramático: "Aggeu Alves já morreu, meu senhor. Mas mesmo assim ainda pode contribuir para salvar as vidas de quatro pessoas".

As linhas mortas — Nove e meia da noite. O eletroencefalograma continua registrando as linhas mortas do cérebro de Aggeu Alves. O problema não foi resolvido, mas o coração ainda bate. O irmão argumenta: "O que vão pensar os outros parentes?" Um médico explica que entre êste tipo de operação e a autópsia pela qual o corpo tem de passar normalmente, a diferença é quase nenhuma.

O Doutor Zerbini usa seu último argumento: "Não pense o senhor que somos nós que estamos forçando a operação. São quatro pessoas que esperam, e que precisam viver. O senhor quer falar com elas?" Os argumentos dos médicos convencem os parentes. Nova autorização é assinada na diretoria do hospital. Cada médico volta ao seu lugar. Começam os preparativos finais. Faltam dez minutos para a meia-noite.




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