AS MÃOS DE OURO

Os hospitais não tem verbas, tem excesso de doentes.
Por que o brasileiro confia em seus cirurgiões?

Foto: Jorge Butsuem

Quem tem mêdo do transplante?

José Rosa de Souza, internado no Hospital das Clínicas, à espera de um coração nôvo, não tem. Os filhos de Ugo Orlandi, o segundo brasileiro a viver com o coração de um morto, também não. Os meninos Huguinho e Júlio César ficaram felizes com o transplante: depois da operação começaram a contar para os colegas de escola que seu pai tinha ganhado um coração nôvo e receberam parabéns dos amigos. José Rosa reclama por não ter sido êle o operado, diz que estava esperando o coração há mais tempo.

A confiança — O Brasil tem aproximadamente 12 mil cirurgiões, mal distribuídos pelo País. São Paulo e Rio têm mais de 3 mil dêstes profissionais; a maioria dos outros Estados tem menos de duzentos. Todos êles sabem que podem contar com a confiança de seus pacientes. Mas no jôgo contra a morte enfrentam simultâneamente vários outros adversários; entre êles, más condições para seu trabalho. Mesmo assim estão acostumados a vencer.

No dia em que a equipe do Dr. Zerbini fazia o primeiro transplante de coração em São Paulo, o cirurgião Gilson Braga reimplantava a mão da menina Cristiane Porreca, de dois anos, no Hospital São Francisco Xavier, no Estado do Rio. Mas o hospital onde o Dr. Braga fêz o reimplante não é um Hospital das Clínicas de São Paulo. O São Francisco Xavier é uma casa velha construída em 1810. Seus dois andares têm 65 leitos, mas não podem ser chamados de ambulatórios. Os quartos são forrados de tapumes de madeira compensada e jornais velhos substituem os vidros quebrados das janelas. A habilidade do cirurgião, numa enfermaria onde costuma faltar gêsso para tratamento de fraturas e sôro antitetânico, permitiu reconstituir todos os vasos sanguíneos da mão, decepada quando a menina Cristiane caiu de um carro em movimento.

Gol extra — Os cirurgiões vencem, antes de tudo, pelas suas próprias mãos: um caso como o Dr. Zerbini só se explica desta forma. Quem pensa assim é o Dr. Domingos Edgardo Junqueira de Morais, cirurgião cardíaco da Guanabara que estudou com Zerbini e Barnard nos Estados Unidos.

O Dr. Junqueira diz que os cirurgiões brasileiros, mesmo os que trabalham em hospitais como as Clínicas de São Paulo, não têm condições ideais para fazer as operações. E acabam realizando-as pelo seu própio esfôrço. "Quando se entra num hospital americano, todo o médico brasileiro tem a impressão de estar num hotel de luxo. Os transplantes são feitos dentro da rotina de trabalhos normais dos hospitais. Ninguém precisa se desdobrar como Zerbini, que teve de criar tôda a infra-estrutura para a operação. O que êle fêz em São Paulo pode ser considerado como um gol extra."

O caso do cérebro — Em tôdas as áreas os cirurgiões brasileiros marcam gols como os do Dr. Zerbini. No Rio Grande do Sul, o Dr. Manuel Krimberg, de 38 anos, está fazendo uma experiência que pode ser inédita no mundo: o transplante de partes do sistema nervoso. O Dr. Krimberg transplantou para dois pacientes segmentos da medula espinal (parte do sistema nervoso que fica dentro da coluna vertebral) de dois mortos. Segundo Krimberg, os enfermos passam bem, um dêles até recuperou os movimentos da perna e o tato, perdidos depois de uma lesão na coluna vertebral. Há dúvidas por parte de outros médicos quanto à experiência do Dr. Krimberg, considerando a complexidade do sistema nervoso. Mas, no recente Congresso Brasileiro de Neurologia e Neurocirurgia, o Dr.Krimberg apresentou filmes dos dois casos de transplante de medula e falou da recuperação de ambos os pacientes.

Outras experiências — Outros cirurgiões preferem experiências mais simples que as do seu colega gaúcho. O Dr. Fernando Freire de Carvalho Luz, 51 anos, médico da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, realiza um tipo inédito de cirurgia: injeta tártaro no sistema sanguíneo do paciente atacado por esquistossomose e depois seciona a veia hepato-esplênica, que leva o sangue do intestino ao fígado. O sangue é filtrado durante uma hora e depois é devolvido ao corpo do doente. O tártaro desaloja os parasitas das veias e êles são retirados nas filtragens. Num paciente muito atacado pela doença, o filtro reteve 2809 vermes.

Foto: Folha da Tarde
Krimberg faz
transplante de nervos

Êste tipo de operação o Dr. Fernando Freire de Carvalho Luz já fêz mais de cem vêzes. Médicos americanos vieram filmá-la. A Royal British Society, a mais antiga sociedade científica inglêsa, também está interessada em acompanhar a experiência de perto.

Os méritos do trabalho são todos do cirurgião. A Faculdade de Medicina da Bahia tem pouco apoio material para dar a seus professôres. A administração do hospital ligado à Faculdade vive sem verba e agora está sendo obrigada a empregar as que são guardadas para "situações heróicas". E tem avisado que o hospital pode fechar no próximo ano se o dinheiro não chegar.

O drama se repete em Minas Gerais. O Dr. Ricardo Pereira de Sousa, especialista em cirurgia cardiovascular, aluno de Michael de Bakey e Denton Cooley, diz que não pode fazer qualquer tipo de transplante em Belo Horizonte porque não existe um eletroencefalógrafo em qualquer dos três grandes hospitais da cidade. Em Curitiba não se faz cirurgia das coronárias (artérias do coração) por falta de um aparelho que permita filmar os movimentos do sangue no coração. E na Faculdade de Medicina do Recife o Dr. Salomão Kelner, 52 anos, tem argumentos muitos simples quando lhe perguntam por que não pode fazer experiências de transplante de fígado em porcos: "Não temos dinheiro para comprar porcos".

No interior — Mesmo assim, a cirurgia brasileira vai ganhando o jôgo contra a morte. Em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, uma equipe de jovens cirurgiões mostra como isso pode acontecer mesmo com falta de recursos. A cidade tem 150 mil habitantes mas é importante — chega a ser um centro econômico para 2 milhões de pessoas espalhadas no Triângulo Mineiro, Leste de Mato Grosso, Sul de Góias e Norte de São Paulo. Em Rio Prêto, atualmente, são feitas operações de enxertos, desobstrução de veias e artérias, implante de válvulas e circulação extracorpórea.

Em junho dêste ano, uma equipe de médicos da Santa Casa de Misericórdia da cidade purificou o sangue de um homem através de um fígado de porco. O cirurgião Domingo Braille, de trinta anos, é o chefe do grupo de cardiologistas de São José do Rio Prêto. Trabalhou com o Dr. Zerbini em São Paulo. Suas preocupações refletem de certa forma o estado de espírito dos 130 médicos da cidade: êle quer que o Govêrno libere as verbas para instalação do Hospital das Clínicas da cidade e ao mesmo tempo prepara-se para fazer operações de transplante de rim e pâncreas. "Enquanto o dinheiro não vem", diz o Dr. Braille, "Continuamos salvando vidas."

Médicos brasileiros já fazem primeiras peças do homem-máquina

Marca-passo: para
o coração voltar a
bater 64 vêzes por minuto. Tem 5 centímetros de
diâmetro. É
implantado no peito
do paciente. Usa
pilhas de mercúrio
que devem ser
trocadas de três
em três anos. 640 mil brasileiros precisam dêle
Foto: Bettina Scheier  

O homem mecânico brasileiro está nascendo nas oficinas do Hospital das Clínicas e do Instituito de Cardiologia de São Paulo. Os médicos já fabricam peças que fazem 80 por cento das funções do coração e do pulmão e todo o trabalho do rim. Muitos brasileiros têm partes artificiais em seus corações: 1.500 possuem válvulas de plástico feitas em São Paulo; para outros 120 o coração bate eletrônicamente com os marca-passos do Instituto de Cardiologia, o único que os fabrica em tôda a América Latina.

Eis quatro peças vitais da máquina humana no Brasil.

Marca-passo — O coração do homem bate em média 2 bilhões e 400 milhões de vêzes desde o dia do seu nascimentos até a sua morte. Muitas vêzes falha o nervo que, repuxando o músculo cardíaco, comanda essas batidas. E o coração passa a bater lentamente: de 64 vêzes por minuto, muda para 36. O marca-passo substitui o movimento dos nervos. Usa diminutas pilhas de mercúrio que ficam sob a pele do ombro do doente. O marca-passo feito no Instituto de Cardiologia custa 700 cruzeiros novos; o americano importado é bem mais caro: 4.000 cruzeiros novos.

Válvulas — Elas regulam a entrada e saída de sangue do coração. Quando falham, o sangue sujo das veias mistura-se com o limpo purificado pelo pulmão e distribuído pelas artérias. O doente não pode mais fazer movimentos rápidos, subir escadas e vive ameaçado pelo enfarte. As válvulas mecânicas são tubos plásticos com dois diâmetros diferentes. Uma bolinha veda a parte mais estreita. Quando a pressão sanguínea é alta, a bolinha é empurrada e deixa o sangue passar para o diâmetro maior. Se a pressão diminui, a bolinha volta, a parte mais fina do tubo torna a fechar-se.

Custos: fabricadas no Brasil, 150 cruzeiros novos; importadas dos EUA, 600.

Coração-pulmão — É um sistema tipo bomba de ar mais filtro: recebe o sangue venoso que iria para o coração doente, leva-o para uma câmara onde é purificado com oxigênio (como no pulmão) e o joga de volta nas artérias. O Instituto de Cardiologia já fabricou trinta corações-pulmões artificiais. Doou um à URSS, vendeu dois à Venezuela, dois à Argentina, um ao Peru, outro à Colômbia. Custo: 9.910 cruzeiros novos.

Rim — O rim mecânico é uma máquina do mesmo tamanho do coração-pulmão: 1 m de altura, 1 metro quadrado de área. Recebe sangue contaminado por um rim doente e o purifica. Possui dois compartimentos separados por uma membrana porosa especial. De um dos lados fica o sangue contaminado; do outro, uma solução que atrai as impurezas do sangue através da membrana. O sangue limpo volta ao doente.

Coração atômico — O doente cardíaco não pode viver com os corações mecânicos que existem hoje nas salas de cirurgia: a infecção o mataria. Os médicos brasileiros estão procurando uma máquina pequena que possa viver com o homem, dentro de seu peito. O Dr. Zerbini anunciou recentemente o início no Brasil das pesquisas para a construção de um minúsculo coração movido a energia nuclear.


Transplantes: 41 receberam
coração nôvo, 21 continuam vivos

Arari: em casa,
com pâncreas nôvo
  Foto: Antonio Andrade

Os transplantes ficaram famosos no dia 3 de dezembro do ano passado, quando o Dr. Barnard colocou o coração de Denise Duval no peito de Louis Washkansky, no Hospital Grotte Schur, na África do Sul. Mas já tinham uma longa história, que começou em Boston, no dia 23 de dezembro de 1954, com Richard Heryick recebendo um rim de seu irmão gêmeo Ronald. Foi o primeiro transplante de órgãos, uma experiência que depois seria repetida com corações, rins, pulmões, fígados, pancrêas, baços e timos.

Mais de 1.200 rins já foram transplantados em todo o mundo. No Brasil, a equipe do Dr. Campos Freire, do Hospital das Clínicas de São Paulo, já fêz 28. Mas é a partir de 1966 que a rejeição do órgão começou a ser controlada e os pacientes salvos em mais de 50% dos casos. Atualmente, em Denver, Colorado, há 95% de segurança de recuperação com a troca de rins.

A experiência das primeiras equipes americanas de transplante de rins permitiram a troca de outros orgãos. Zerbini e Bernard estudaram com estas equipes nos Estados Unidos.

Hoje, os médicos não encaram o transplante apenas como uma experiência. Denton Cooley, dez substituições de coração em Houston, Texas, diz que são "uma medida terapêutica efetiva para prolongar e melhorar a vida humana". Em 41 transplantes de coração registrados pela American Medical Association (AMA) até o fim da semana passada, 21 pacientes sobreviviam. O mais antigo é Philip Blaiberg, operado por Bernard no dia 2 de janeiro dêste ano. Trinta transplantes de fígado foram feitos, no mundo, ainda segundo a AMA: quinze pacientes estão vivos. Seis trocas de pâncreas: quatro sobreviventes. Um dêles é o brasileiro Arari Rios, operado no Rio pelo Dr. Edson Teixeira.




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