RISONHA E ÚTIL

Em vez de História e tabuada,
ensina sexo e a dirigir automóvel

Um rio não é um traço azul no mapa desembocando no mar, mas uma coisa viva, que liga cidades, provoca inundações e, algumas vêzes, oferece boas praias e ótimos banhos — é o que vão aprender os alunos das escolas primárias do Estado de São Paulo, dentro de pouco tempo. A reforma do ensino primário, elaborada, por onze técnicos da Secretaria da Educação e aprovada por quatrocentos especialistas em ensino primário do Estado, atingirá êste semestre 2 milhões de crianças. Suas metas: ensinar o aluno a pensar e a conhecer o mundo à sua volta. "Estamos fartos de alunos 'brilhantes', que decoram tudo, e de programas que enchem a cabeça de datas e acontecimentos sem utilidade nenhuma", afirma o Professor Cândido de Oliveira, 50 anos, chefe do Ensino Primário da Secretaria da Educação, um dos responsáveis pela mudança e coordenador da reforma.

O princípio que se pretende aplicar é o de utilidade. As crianças devem ser logo preparadas para a realidade cotidiana. Assim, por exemplo, vão aprender "noções de trânsito, ou para que servem a prefeitura, o cartório e o correio de sua cidade".

"Damos inteira liberdade ao professor. O nôvo programa nada diz sôbre como e quando ensinar o 'ponto' da matéria" — diz o Professor Cândido de Oliveira. Só há indicações do que deve ser ensinado: a professôra e o aluno é que constroem o resto. Isto é para estimular a iniciativa e permitir que escolham os problemas que mais lhes interessam. Foram extintos os exames finais em cada uma das quatro séries (só ficou um, da segunda para a terceira).

Sexo vai à escola — As matérias do nôvo curso são Língua Pátria, Matemática, Saúde, Ciência e Estudos Sociais (englobando a antiga divisão Geografia e História e introduzindo noções de Sociologia). Educação Física e Educação Artística entram como matérias complementares.

O programa antigo, adotado desde 1949 e derrubado por decreto do Governador Abreu Sodré no ano passado, partia do suposto de que as crianças são iguais aos sete anos. O resultado era 40 por cento de reprovações na primeira série. Antes de iniciar o curso, o aluno agora é submetido a um teste. Se não está em condições, passa por período de preparação. Aí treinará a memória, aprenderá a ter contrôle muscular e autodomínio.

Na parte de Saúde, aprenderá hábitos de higiene, a prestar primeiros socorros em situações de emergência, a reconhecer as doenças mais comuns e a se alimentar adequadamente. Desta forma, o sexo deixa a lista de assuntos proibidos e é explicado como uma coisa natural do homem.

Aprender brincando — Em Língua Pátria, embora se tenha conservado o nome tradicional da matéria, o importante não é conjugar verbos ou distinguir o substantivo do adjetivo, mas saber escrever bem cartas, bilhetes e recados. Assim também na Matemática, que, por isso, ficou mais fácil. O aluno aprende as operações brincando de faz-de-conta na classe: compra doces, paga passagem de ônibus e faz compras na loja. A reforma, implantada sem a preparação prévia das 70 mil professôras, provocou reclamações. Mas isto foi feito de propósito. "Queremos causar impacto e que as professôras resolvam sòzinhas os problemas. É do espírito da reforma desenvolver a iniciativa de alunos e professôres" — afirma o Professor Cândido de Oliveira. Sòmente em 1969 a reforma atingirá a terceira e quarta séries. A Secretaria de Educação quer, primeiro, conhecer os resultados na primeira e segunda séries.

O balanço está sendo feito por vinte centros pilotos, instalados em diversas regiões.




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