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DESAMPARADOS
Juizados só conseguem vigiar orfanatos
pelos olhos dos vizinhos
Qualquer pessoa no Brasil pode instalar um abrigo para crianças abandonadas:
basta obter a autorização do Juizado de Menores e apresentar os estatutos
de sua instituição. Abel Marques conseguiu mais do que isso para fundar
a Vivenda da Luz na cidade fluminense de Nova Iguaçu, onde a polícia descobriu
que êle e sua mulher, Edilsa Marques, maltratavam 47 crianças até a tortura:
Abel tinha uma carteira de comissário de menores. Durante dez anos utilizou
o documento e o abrigo para obter donativos, inclusive em programas de
televisão, e ninguém foi saber como êle gastava êsse dinheiro: os juízes
de menores que autorizam a istalação de orfanatos nem sempre têm condições
de fiscalizar seu funcionamento. Só mesmo uma denúncia, como aconteceu
em Nova Iguaçu, pode levar a polícia a descobrir irregularidades e crimes.
Uma história de horror O Juiz da 1ª
Vara Cívil, de Nova Iguaçu, desde 1964 recebia queixas
contra Abel Marques e sua mulher. Mas a Justiça não
conseguiu provar nada contra êles. A fuga de duas
meninas, denunciada pelos vizinhos e não comunicada ao
Juízado por Abel, abriu as portas da Vivenda da Luz a
nova investigação: desta vez ficou provado que Abel e
sua mulher eram responsáveis por espancamentos,
desnutrição e enterros clandestinos de crianças. Abel
Marques fugiu e sua mulher foi prêsa. Agentes de
emprêsas funerárias confessaram que realmente
trabalhavam para a Vivenda, encarregando-se de sepultar
meninos em cemitérios de cidades vizinhas. Um pedreiro
contou que foi contratado para construir um muro alto
destinado a impedir fugas do abrigo. E as próprias
crianças prestaram depoimentos contra o casal. Três
delas são tuberculosas e outras duas ainda têm nas
costas marcas de espancamentos. Edilsa Marques que
apresenta sintomas de desiquilíbrio mental
defendeu-se com uma história fantástica: três
mascarados, provàvelmente policiais, obrigaram-na a
torturar as crianças sob ameaças de morte ao marido.
O desamparo total Ao saber do que
acontecia em Nova Iguaçu, o Juiz de Menores da
Guanabara, Alberto Augusto Cavalcanti de Gusmão, admitiu
que a mesma coisa pode estar acontecendo em outros
orfanatos. Só no Rio de Janeiro existem perto de 2 mil
abrigos, com cêrca de 100 mil crianças. Vinte dêles
são ofociais, os outros são administrados por
particulares. As instituições reconhecidas pelo
Govêrno recebem subvenções anuais. Mas a grande
maioria dos abrigos são clandestinos: vivem às custas
de donativos obtidos na rua,como a Vivenda de Abel
Marques.O Juizado de Menores não dispõe de fiscais para
controlá-los. Na Fundação Nacional de Bem-Estar do
Menor a existência de orfanatos sem contrôle do
Govêrno é considerada altamente prejudicial.
Recentemente a Fundação fêz campanha nacional sob o
slogan: "Tôda criança merece ter um lar".
Mesmo assim, uma média de dez crianças por dia tem sido
internadas pela Fundação, apenas na Guanabara e no
Estado do Rio.

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