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Metalúrgico Cirilo: greve em Cocais. |
| Foto: Guinaldo Nikolayewsky |
"Agôsto virou setembro", diz, no Congresso, Hermano Alves, gordo repórter carioca de 40 anos, deputado do MDB, a explicar sorrindo: "Greves trarão a crise adiada um mês". O arenista gaúcho Clóvis Stenzel, sociológo da Universidade de Brasília, afirma no salão de café da Câmara: "A crise virá, mas o homem a tudo se adapta". Num oitavo andar da Esplanada dos Ministérios, uma garantia: "Greve ilegal não é crise e a renovação de acôrdos salariais não terá crises". É o que diz um coronel de terno cinzento, Jarbas Passarinho, senador da ARENA e ex-Governador do Pará, em seu gabinete de Ministro do Trabalho. E pergunta: "Por que crise, se pela primeira vez em quatro anos os salários aumentam mais do que o custo de vida, com o abono de 10 por cento no início do ano e com a correção do cálculo do aumento quando a inflação supera o previsto? "Para o Ministro, a questão é simples: vai permitir greves legais e impedir as ilegais."
Sino, cigarro A empresários e trabalhadores reunidos em Belo Horizonte o Ministro havia dito que dá razão a quem tem: "Ouço os dois campanários". Sinos da matriz de Barão de Cocais, 8 mil habitantes, a 95 quilômetros dali, convocam assembléias diárias de oitocentos operários da Companhia Brasileira de Usinas Metalúrgicas 14.000 toneladas de aço em 1967 em crise desde 1965. Passarinho apoiará, se houver, a greve para cumprir o acôrdo de julho, 17% de aumento; mas o gerente da Companhia diz que não há meios. "Só fumamos cigarro de palha, mais barato; não podemos pagar feijão com salário atrasado", afirma o presidente do Sindicato, Henrique Cirilo. Tem idade e família 44 anos, oito filhos iguais à média dos operários, cem dêles com trinta anos de firma, como Cirilo. "Subversivo aqui é o patrão", diz o vigário Geraldo Magela, sessenta anos, dezoito presidindo o Metalusina, time da primeia divisão que, como a cidade, vivia em função da fábrica e morreu na crise.
Fantasma, não "A lei prevê federações estaduais de sindicatos; federação nacional é fantasma", disse no fim da semana Jarbas Passarinho, em Brasília, ao decretar intervensão no Sindicato dos Petroleiros-Refinadores de Mataripe, logo cumprida pela Polícia Militar baiana. O Ministro acusou Marivaldo Caldas,28 anos, de ter tirado NCr$ 3.000 do Sindicato para tomar posse em Salvador como presidente da Federação Nacional dos Petroleiros, não reconhecida, que pede 36% de aumento para os 40 mil refinadores e operários em extração da Petrobrás em todo o País. Em Candeias, na Bahia, e Duque de Caxias, no Estado do Rio, a Federação promoveu boicote aos refeitórios da Petrobrás e anunciava "greve legal ou ilegal" pelo aumento. O presidente do Sindicato dos Petroleiros-Refinadores da Guanabara, Lourival Coutinho, que faz campanha por 49% de aumento e espera índice oficial de 30%, afirma,sem confirmação do Govêrno, que êle foi quem denunciou o desvio de Caldas. Passarinho diz: "Não sou Ministro de pelego ou de patrão. Sou Ministro de Estado, cumpro a lei que não pode ser contestada e proíbe federação nacional".
| Fotos: Clodomir Bezerra | ||
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| Arrendatário Lins: ameaçou mesmo? | Padre Melo: "Só morro no meu dia." | Lavrador João Luís: greve no cabo. |
Zabumba, revólver "O Govêrno é moderador entre patrão e empregado e faz pressão para cumprir a lei. A pressão é contra o forte, no Brasil o patrão, e não contra o fraco, no Brasil o empregado", afirma o Ministro em Brasília. Por isso apoiará a greve dos lavradores do Cabo, perto do Recife, a começar antes da moagem da cana, dia 15 próximo, por descanso semanal, férias e 13º salário. O delegado do Trabalho em Pernambuco diz que intervirá no Sindicato, "se romper as negociações antes do prazo legal", embora aprove as reivindicações, "que são de lei, burlada por patrões que exigem tarefas de 18 braças (perto de 40 metros de terreno) por dia, quando ninguém agüenta mais de 10 braças (pouco mais de 20 metros)". Não cumprindo a tarefa o trabalhador perde domingo, férias e 13º salário. O presidente do Sindicato, João Luís Silva, 24 anos, conta que o arrendatário do Engenho do Monte, Rinaldo Lins, ao mostrar-lhe um revólver numa discussão na Delegacia do Trabalho, ameaçou "apagá-lo do pasto". Também se diz ameaçado de morte por Lins, a quem mandou lista "com horas e lugares em que estarei êste mês", o Padre Melo, nomeado vigário do Cabo por Dom Helder em agôsto. Êle foi empossado na semana passada, com centenas de camponeses dançando côco e zabumba e levando-lhe de presente fôlhas de canela, perus e "o maior pé de couve que já se viu no Nordeste".O Padre Melo apóia a greve, mas o Padre Crespo, da Federação dos Trabalhadores Cristãos, também ligado a Dom Helder, é contra: "Essa greve é um conchavo, só pede o que a lei já dá." Dos 4 mil lavradores do Cabo, 3 mil são sindicalizados; os outros, na maioria, são pequenos proprietários, como o presidente do Sindicato, dono de 10 hectares em que trabalham seus cinco irmãos. Êle garante: "A greve virá, legal ou ilegal".
Defesa de Passarinho À espera de "ser acusado por certos jornais de fomentar inflação com a correção salarial", Passarinho critica "a minoria sindical que se aproveita das dificuldades de alguns trabalhadores com a inflação". Exemplo do Ministro: o presidente do Sindicato dos Bancários da Guanabara, Nei Pimenta, que pede 35% sôbre o salário atual para seus 50 mil liderados; os banqueiros propõem, sôbre o salário de um ano atrás, 2% além do índice oficial e já adiantaram 27%, na suposição de que o Departamento Nacional de Salário recomende 25%. Em Minas, o presidente dos 16 mil bancários sugere 32%: os banqueiros, 27%. O Coronel Passarinho não se opõe à idéia dos banqueiros de pagarem acima do índice oficial, o que seria impossível no Govêrno Castelo Branco. "Podem dar qualquer aumento", afirma, "tirando dos lucros sem aumentar os preços, aos quais as emprêsas só podem acrescentar os custos previstos pelo índice oficial do custo de vida, cientìficamente estabelecido pela Fundação Getúlio Vargas".
Solução final O Ministro do Trabalho espera que ainda êste ano o Presidente Costa e Silva transforme em projeto de lei o sálario móvel proposto pelo Ministério do Trabalho. Explica Passarinho: "Se num mês a inflação fôr de 8%, nesse mês o salário aumenta 8%. Se a inflação fôr 2% ao mês, o salário aumenta 8% no quarto mês. As emprêsas serão isentas de até 25% do impôsto de renda, se pagarem a mesma quantia como aumento salarial sem aumento de preços". Passarinho, ainda depois da posse no Ministério, criticava a política salarial do Govêrno passado, embora sempre tenha apoiado "o combate à inflação, sem o qual não há progressos". Certo de que as correções que propôs à política anterior abono de 10% em 1968 e o salário móvel em 1969 defendem o trabalhador, o Ministro também tem certeza de que, com a proteção à greve legal, a previsão de Hermano Alves crise na revisão dos acôrdos de bancários de Minas e Rio e de petroleiros, em setembro, e nas ruas grandes categorias paulistas, em outubro e novembro seria apenas um sonho de oposicionista.
Copyright © 1998, Abril
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