O CONTINENTE DE FREI

Para o Presidente do Chile, a América não deve
ter fronteiras: mas ela tem

Os assuntos discutidos:
comércio, integração e
talvez Arturo Ongania
Foto: Luiz Humberto  

Da cidade de Santiago do Chile, apertada entre o Pacífico e os Andes, a Brasília, no planalto central brasileiro, o Boeing que trouxe o Presidente Eduardo Frei Montalva ao Brasil, na semana passada, sobrevoou o Norte da Argentina a 1.000 quilômetros por hora. Com a mesma velocidade, segundo os comunicados oficiais chilenos, os presidentes do Chile e do Brasil passaram sôbre os problemas de fronteira que opõem Santiago a Buenos Aires, e que tinham sido apontados como o motivo principal — e secreto — da visita de Frei. No continente sul-americano, onde a história das guerras segue de perto a linha das fronteiras, a distância geográfica antes aproxima os presidentes do que os afasta; e o apêrto de mão trocado entre Eduardo Frei e Arthur da Costa e Silva, ao cair da tarde chuvosa da última quarta-feira, em Brasília, marcou o início de uma visita dedicada sobretudo à discussão de assuntos pacíficos e de intêresse comum: o comércio entre os dois países, a questão do cobre chileno e a integração política e econômica do continente.

É possível, no entanto, que os dois presidentes também tenham falado de fronteiras. Mais precisamente, das que dividem Chile e Argentina, onde já ocorreram 65 acidentes e onde 66º pode acontecer a qualquer momento. Em Buenos Aires, parte da imprensa, desprezando os desmentidos oficiais chilenos, afirmou claramente que a questão das fronteiras era o verdadeiro motivo da visita do Presidente Frei, em busca de apoio militar no Brasil.

Solidão do pôlo — O ponto crítico da fronteira entre Argentina e Chile está no canal de Beagle, que une o Atlântico ao Pacífico, logo abaixo do estreito de Magalhães, no extremo sul do continente. Há 68 anos, os presidentes dos dois países assinaram um tratado de fronteiras — "Paz de Los Estrechos" — , mas ainda hoje se discutem seus limites nesse emaranhado de ilhas que avançam para a solidão do pólo. Centro de referência para a divisão da Terra do Fogo, ao norte — com seus poços de petróleo — , e as terras da Antártida, ao sul —, com suas possíveis minas de urânio —, o canal de Beagle tem sobretudo um valor estratégico.

O Brasil, por seu lado, tem no aproveitamento hidrelétrico do rio Paraná uma nova dificuldade de entendimentos com a Argentina. Não se sabe se êsses assuntos foram oficialmente tratados em nível presidencial. Mas, entre o consomê de tartaruga e o bobó de camarão servidos para Frei nos salões do Itamarati, no Rio de Janeiro, a conversa entre os presidentes voltou-se naturalmente para o General Arturo Ongania. Presidente da Argentina, que ainda há poucos dias alterou os principais comandos militares de seu país, numa manobra considerada por muitos entendidos como um verdadeiro golpe de estado silencioso em favor da linha dura nas relações internacionais.

Nova proposta — Mas, dentro do campo comercial, há muito que discutir entre Chile e Brasil, durante os sete dias da visita de Frei. Depois que os dois países ajustaram seus pontos de vista no setor diplomático, rejeitando a criação de uma "Fôrça de Paz" permanentemente para a América Latina e firmando posição idêntica na defesa da pesquisa nuclear independente, devem agora rever suas relações comerciais, que andam num nível baixo, e conciliar inteiramente suas opiniões sôbre o mercado comum latino-americano — a ALALC. Em 1967, o Brasil exportou para o Chile 23 milhões de dólares e importou mercadorias (sobretudo cobre) no valor de 14 milhões. O Presidente Frei, que pretende duplicar o valor dêsse comércio, trouxe uma nova proposta de venda de cobre a longo prazo com preços fixos e quantidades crescentes. Apesar de tôda a boa vontade, no entanto, a realização dêsse negócio é problemática: acredita-se que o preço do cobre apresenta nova tendência para a queda a curto prazo, agora que cessaram os efeitos da greve dos mineiros americanos e aumentaram as esperanças de paz no Vietnam, onde o produto é consumido em grande escala. Mas a tendência geral é de que o Brasil eleve suas compras no mercado chileno, voltando pelo menos ao nível de 1963 (quando chegou a importar 21 milhões de dólares).

Grupo andino — O Chile traz, igualmente uma proposta de venda de cinqüenta barcos pesqueiros, do tipo que levou o país, em poucos anos, do 50º ao 7º lugar na produção pesqueira mundial, e um pedido para que se diminua a taxa alfandegária (100%) que pesa sôbre as importações de vinho chileno. O Brasil pretende aumentar suas vendas de chá e máquinas de escrever. Dentro da ALALC, Brasil e Chile vão tentar um entendimento definitivo em tôrno da questão do grupo andino. A criação dêsse grupo econômico sub-regional dentro da América Latina (liderado pelo Chile e englobando Peru, Venezuela, Colômbia, Equador e Bolívia) provocou reservas do lado brasileiro e hostilidade aberta do lado argentino. A fôrça representada por um bloco de seis países preocupa Brasil e Argentina, acostumados às vantagens e à comodidade de comerciar isoladamente com cada um dêles.

Mas o Presidente Frei, que conseguiu criar o grupo andino, conseguirá provàvelmente vê-lo aceito. Aos 57 anos, não será essa a primeira nem a maior dificuldade que já venceu.

Dimensões do nariz — Eduardo Frei Montalva, vencedor da coligação de socialistas e comunistas de Salvador Allende nas eleições presidenciais de 4 de setembro de 1964, é o primeiro Chefe de Estado democrata-cristão das Américas. Teve uma formação de jurista e sociólogo, é autor de vários livros sôbre política e excelente conhecedor de artes. Como homem, conheceu a infância tranqüila de filho de um imigrante alemão de classe média, cedo transformada, pela morte do pai, na juventude severa de quem trabalha para sustentar os estudos. Hoje, casado e pai de sete filhos, conserva no rosto magro uma velha expressão de energia, temperada muitas vêzes pelo mesmo riso largo e aberto com que declarou certa vez a um repórter boliviano: "A maior semelhança política entre mim e o General De Gaulle está nas dimensões do nariz". Frei apareceu na política ainda nos tempos da faculdade, dentro dos meios católicos do velho Partido Conservador — mas, embora continuasse católico pela vida tôda, nunca se portou como conservador. Logo êle passou a militar na democracia-cristã — que sòmente em 1957 iria transformar-se em partido político oficial no Chile — e foi como democrata-cristão que Frei chegou, aos trinta anos, ao cargo de Ministro de Obras Públicas. Enquanto a democracia-cristã presidia na Europa a reconstrução da Itália e da Alemanha, no Chile as idéias de Frei — duas vêzes senador e líder do PDC no país — cresceram, chegando a conquistar, no Parlamento, 82 dos 147 deputados e um terço dos 145 senadores. Dentro da normalidade democrática do Chile, quebrada apenas duas vêzes em 125 anos, e onde o próprio Partido Comunista é contrário à violência, Frei chegou às eleições de 1964 como o principal líder popular do país.

Organizar o futuro — Quase quatro anos depois de iniciado seu mandato, Eduardo Frei fêz um balanço de seu Govêrno, que um observador de Santiago resumiu como sendo uma atitude de otimismo em relação ao passado, de restrições em relação ao presente e de desejo de reformas em relação ao futuro. As principais metas do Govêrno eram a nacionalização parcial do cobre, a reforma agrária e a melhoria da educação. Das três, o êxito mais espetacular foi o da nacionalização do cobre, verdadeiro milagre político feito pelo Govêrno através da compra de ações em troca da redução de impostos pagos pelas companhias, dentro de um esquema que satisfez ambas as partes. A melhoria do sistema de educação fêz com que a freqüência à escola primária atingisse 98%, o que, mesmo no Chile, onde a tradição educacional é antiga, é um índice excelente. Já a reforma agrária pelo menos a curto prazo, teve sucesso apenas parcial, pois a produtividade dos campos não aumentou; e o programa de industrialização, apesar do enorme progresso do setor petroquímico, apresentou um crescimento, nos primeiros seis meses dêste ano, de apenas 1,9%. Os piores problemas de Frei e do Chile, atualmente, são a sêca e a inflação. Uma sêca como não havia há cem anos e que quase deixou Santiago às escuras, e uma inflação que subiu a 20% em 1967 e a mais de 22% até julho dêste ano. Eduardo Frei, entretanto, procura manter os olhos voltados para o futuro: êle pede novas reformas dentro do país e da América Latina. "Salvar o passado", disse Frei, "é inútil e impossível: os homens devem pensar, apenas, na maneira de organizar o futuro".




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