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A CULPA DA VIOLÊNCIA
Quem jogou a primeira pedra, os moços
ou
a polícia? Os dois lados admitem a violência
Estudantes e polícia são como duas moléculas
diferentes colocadas uma diante da outra. Elas se atraem,
provocam o encontro de energias contrárias e geram o
atrito. Se elas fôssem iguais, o resultado seria
estabilidade. A explicação é de uma aluna de Química
Orgânica da Universidade de Brasília. Com ela, outros
universitários se juntam em tôrno de uma mesa do Campus
Bar, num dos prédios da Universidade, para ouvir Paulo
Speller, sobrinho do ex-Presidente Castelo Branco,
estudante de Psicologia, aclamado poucos momentos antes
líder do movimento estudantil de Brasília. Paulo
substitui Honestino Guimarães, prêso a pedido da
Justiça Militar. Paulo também com prisão preventiva
decretada pela Auditoria Militar de Juiz de Fora, olha
tranqüilamente para um colega que esfrega o ôlho
irritado pela fumaça e continua dentro do assunto:
"Sem pensar, você levou a mão aos olhos, assim que
a fumaça o irritou. Isso foi instintivo. Agora, se você
passa o tempo todo ouvindo ameaças, boatos e de repente
se defronta com o "inimigo", você não pode
esperar que êle o irrite antes". Um terceiro
estudante, de Sociologia, opina: "A Sociologia vem
acompanhando as crises estudantis em todo o mundo e
descobriu que a única constante, em tôdas elas, é o
não atendimento de pequenas reivindicações dos jovens
por parte dos adultos fixados na defesa de conceitos
superados".
Foi assim Um tiro no peito e Edson Luís
de Lima Souto, estudante de dezoito anos, cai morto
durante os incidentes no restaurante do Calabouço,
envolvendo seus colegas e soldados da Polícia Militar.
Quase ao mesmo tempo, no escritório bem perto do
restaurante, uma bala perdida atinge a bôca de Telmo
Matos Henriques, de 39 anos, casado. Gravemente ferido,
êle tomba sôbre sua mesa de trabalho diante do olhar
espantado de seus colegas. A noite do dia 28 de março
começa a chegar na Guanabara, quando o corpo sem vida de
Edson Luís é carregado pelas ruas, enquanto Telmo é
levado para o hospital. Era o comêço de uma nova fase
de manifestações estudantis atingindo várias cidades
do País. Uma fase nervosa quebrando o silêncio de quase
cinco anos. Nêles, foram esquecidos os gritos de "o
petróleo é nosso" dos estudantes de outros tempos,
em que as passeatas eram chamadas, pelos jornais, de
"desfiles". Para as de agora, as autoridades
às vêzes usam outro nome: "guerrilha urbana".
De um tempo de protesto romântico, o movimento
estudantil passou para uma época de violência, contida
no clima de tensão que antecede as passeatas
ou desencadeadas nas lutas a pau e pedra contra o
gás lacrimogênio, o cassetete e o tiro.
Certeza da mudança Para o General Luís
França de Oliveira, secretário da Segurança Pública
da Guanabara, não há qualquer dúvida quanto à origem
e responsabilidade dessa transformação: "Hoje em
dia", explica o General, "grande parte dos
estudantes é dirigida por elementos estranhos à classe.
O próprio movimento mundial de subversão, que agora se
observa, é prova eloqüente dessa afirmação. Aqui no
Brasil ou mais particularmente na Guanabara
considero tudo isso como parte de um movimento
insurrecional, controlado pelos elementos do extinto
Partido Comunista". E nessa convicção, portanto
estaria a seu ver a melhor justificativa
para o rigor das autoridades diante das manifestações.
Dentro dessa perspectiva, o Secretário da Segurança
Pública da Guanabara entende que a violência da
repressão policial poderá ser chamada apenas de
severidade para com uma situação inaceitável. E seus
métodos são a única maneira de enfrentar à altura uma
provocação ilegal e atrevida.
Bala não resolve Para entender o
comportamento dos policiais, Jorge Sampaio, assessor de
Relações Públicas da Secretaria de Segurança Pública
da Guanabara, acrescenta outro lado: "A DOPS sabe
muito bem que passeata não se dissolve a bala. Mas êste
tipo de movimento de rua é um fato relativamente nôvo
que exige uma série de adaptações técnicas, materiais
e psicológicas". Entende, por isso, que não se
pode deixar de levar em conta as condições emocionais
do policial sem equipamento de proteção e instrumentos
de contrôle adequados contra uma hostilidade que,
freqüentemente parece ser de tôda a população da
cidade. "Em circunstâncias como esta", observa
Jorge Sampaio, "o policial poderia temer pela
própria vida, apesar de ser especializado em lidar, de
cabeça fria, com agitações de massa". O modo
enérgico com que os soldados agem em passeatas
estudantis é explicado pelo Coronel Aldo Campanhã,
sub-chefe do Estado Maior da Fôrça Pública de São
Paulo, através de um princípio da Física: "A
tôda ação corresponde uma reação igual e
contrária". O comandante da Fôrça Pública,
Coronel do Exército Antonio Ferreira Marques, conta
também que os soldados são treinados para não reagirem
a provocações e são submetidos a testes psicotécnicos
para efeito de promoção. E o Coronel Aldo acrescenta:
"Em São Paulo, não sei se por uma questão de
sorte ou de formação que damos aos soldados, até agora
não ferimos nenhum estudante".
O ôvo como exemplo Tôdas as pessoas
estão sujeitas desde o nascimento a reações de
natureza violenta. Se segurarmos os braços e as pernas
de uma criança recém-nascida, ela se debaterá,
manifestando através do chôro e do desespêro suas
reações, que podem chegar até a coléra. Washington
Loyelo, neuropsiquiatra, ex-presidente do Centro
Psiquíatrico Nacional, vai buscar exemplos para essa
tese na própria Biologia: "É o caso do pinto que,
quando o ôvo amadurece, rompe a casca e se liberta para
a vida, numa reação típica de violência". Para o
Professor Loyelo, a polícia usa a violência contra os
estudantes porque não conta com outros recursos hábeis
para contê-los. Essa violência aparece nos momentos de
transição, "em que uma estrutura social se mostra
incapaz de atender aos anseios de um dos seus
grupos". A juventude também se manifesta
violentamente. Ela pode responder de forma violenta a uma
violência inicial, o que para o Professor Loyelo é
normal. Mas pode também ser a primeira a usar
violência. Nesse caso, também é normal uma reação
violenta da polícia. E os estudantes preferem a
violência quando sentem que, "por meios pacíficos,
não conseguirão o atendimento de seus desejos e
reivindicações", certos ou errados.
O dilema do Governador "Sempre que os estudantes brigam
com a polícia, quem sai perdendo é o Govêrno", diz Luís Viana Filho,
Governador da Bahia. "Se um estudante machuca um soldado, a posição
do Govêrno torna-se frágil aos olhos da opinião pública. E, se um soldado
bate ou fere um estudante, o Govêrno é chamado de opressor. Nessa guerra,
um lado procura enfraquecer o outro". Quem parece compreender bem
o dilema do Governador baiano é o escritor Jorge Amado, seu confrade na
Academia Brasileira de Letras. "O Luís Viana", diz Jorge Amado,
"é boa pessoa, mas, no estado atual das coisas, o pior emprêgo que
existe no Brasil é o de Governador de Estado". Mas a guerra existe,
com a preocupação de se aperfeiçoarem os métodos de combate. Nas ruas
da Guanabara, os estudantes descobrem a vantagem de caminhar na contramão
e na hora do "rush": atrapalha a polícia e o trânsito. Um modêlo
tático que passou a ser imitado por todo o País. Mas aí a polícia simplesmente
começou a interditar o trânsito para facilitar o trabalho da cavalaria
que atacava em carga. Os estudantes, então, redescobrem o uso das rôlhas,
tão velho quanto a polícia montada. Contudo, as rôlhas que fazem os cavalos
escorregarem têm de ser lançadas de perto. E as bolinhas de gude começam
a rolar pelo asfalto como substituto ideal. "As bolinhas de gude",
dizia um líder estudantil, "servem também como pedras visando o cavaleiro."
Um meio de evitar a luta corpo a corpo, vantajosa para a polícia com cassetetes
e bombas de gás. "Evitando êsse tipo de combate", dizia o mesmo
líder "resta à polícia as armas de fogo". Foi o que aconteceu
nas ruas do Rio, no campus da Universidade de Brasília e outra vez no
Rio, na Praia Vermelha.
Tempo de guerra Os incidentes na
Universidade de Brasília tiveram amplas repercussões:
um estudante foi ferido gravemente e alguns deputados
sofreram agressões e violências quando foram em socorro
dos estudantes. Logo depois, professôres, alunos e
funcionários da Universidade divulgavam um manifesto
falando "em operação militar lembrando um país em
guerra". Na Escola Superior de Guerra, o Ministro
Tarso Dutra, da Educação, declarava que "houve
imprudência das autoridades policiais de
Brasília". E o próprio Presidente Costa e Silva
expressava o desejo de que essa "guerra"
iniciada com a morte de Edson Luís tivesse um fim.
Difícil de explicar Numa sala acanhada
com uma porta onde se lê "Coordenação", um
americano olha para a poltrona de onde acaba de
levantar-se Paulo Speller. É o Professor Robert B.
Erryman, coordenador do Curso de Psicologia. Em têrmos
de crise estudantil não se assustou com o que viu.
"Quando começar o período de aulas agora em
Colúmbia será muito pior", diz êle. A voz
pausada, o sotaque bastante acentuado, ainda comenta:
"Essa questão de comportamento humano ainda não é
uma ciência exata. Nem mesmo Freud é capaz de explicar
por que os estudantes aumentam sua agressividade em
relação à polícia. Em Colúmbia há quem atribua à
comunicação de massa a responsabilidade por tudo isso
que está acontecendo".

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