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Classe C e cinema: afastados pelo ingresso
18/03/2009 07:04
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Por Maria Carolina Maia
Recentemente, o cineasta Fernando Meirelles contou que, quando pensa em fazer um trabalho para o público brasileiro, prefere a TV. "Nem todo mundo pode ir ao cinema, mas quase todo mundo tem televisão em casa", explicou. A declaração reflete um dos maiores obstáculos do cinema nacional, na visão dos profissionais de mercado: o valor do ingresso dificulta o acesso do público às salas - especialmente da classe C. "E esse é um público potencial do cinema nacional", afirma Manoel Rangel, diretor-presidente da Agência Nacional do Cinema (Ancine).
Em São Paulo, por exemplo, paga-se em torno de 20 reais para ver um filme na tela grande. Quando se considera o custo do pacote transporte-entrada-pipoca, a barreira cresce.
Cinema em casa - Para Rangel, duas medidas permitiriam que o preço do ingresso caísse. Primeiro, a moralização do uso da meia-entrada, com a redução do volume de carteiras de estudantes falsificadas. Segundo, a expansão do número de salas. Além de pequeno, o parque exibidor brasileiro tem baixa capilaridade. São cerca 2.200 salas em todo o país, concentradas em três pólos, todos próximos: a cidade de São Paulo (com 10% dos cinemas), a cidade do Rio e o interior paulista. E, mesmo nesses mercados, há concentração de salas em shoppings centers.
"Quem ganha um salário mínimo nem passa perto dos shoppings, quanto mais das salas da rede Cinemark", reclama o roteirista e diretor Paolo Gregori. "Assistir a um DVD em casa com a família é muito mais barato", diz Maurício Ramos, produtor da VideoFilmes.
'Ciclo virtuoso' - Outra consequência do diminuto parque exibidor é que ele acaba por limitar a produção doméstica. Para o professor João Guilherme Barone, coordenador do Departamento de Produção Audiovisual da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), esse é mais um entrave para o cinema nacional. "O mercado exibidor está encolhido, só atende a 5% da população, e há um embate enorme para fazer circular os filmes brasileiros, o que é um absurdo, mas é real."
A questão, em tese, é simples: se as salas de exibição fossem mais numerosas e mais bem distribuídas, poderiam receber uma plateia maior, em todo o país. O aumento na venda de ingressos, por sua vez, permitiria uma queda no preço das entradas - viabilizando um incremento na demanda e na produção. De acordo com Ramos, da VideoFilmes, longas de ficção precisam de 150.000 espectadores para dar retorno ao produtor. Para dar lucro, é preciso passar, pelo menos, de 300.000 pagantes. Ou, com segurança, de 500.000.
Produção x crise - Rangel, da Ancine, aponta ainda outros obstáculos a serem superados pela produção cinematográfica nacional. "É preciso que os nossos produtores saibam com que parcela do público querem dialogar e os distribuidores, como atingi-la." Segundo ele, a agência não estipula metas para a participação brasileira na bilheteria, mas procura estimular a produção. No final de 2008, a Ancine lançou o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que neste ano deve injetar 74 milhões de reais no mercado. Além disso, o mecanismo de incentivo - principal fonte de recursos dos produtores locais - pode irrigar o setor com cerca de 150 milhões de reais.
Esta, aliás, é uma questão que preocupa alguns representantes do mercado. Para Bruno Wainer, da distribuidora Downtown Filmes, neste ano a produção nacional pode padecer de uma redução de recursos, por conta da crise. "Se as empresas lucrarem menos, pagarão menos impostos e haverá menos dinheiro para captar", resume. A questão é um efeito do principal mecanismo de fomento do cinema doméstico: a renúncia fiscal, pela qual as empresas abatem do imposto de renda devido aos cofres públicos o montante que investem nas produções nacionais.
Lula - Rangel admite que o perigo de redução de recursos existe. Mas sustenta o discurso do governo federal, segundo o qual o Brasil, no meio da pneumonia global, vai pegar no máximo um resfriado - uma espécie de versão cinematográfica das metáforas do presidente Lula. "Há de fato a hipótese de que este ano, por causa da crise, a captação diminua. Mas, embora cresça menos, o Brasil vai continuar se expandindo. Então, as empresas vão ter dinheiro de renúncia fiscal para investir em cinema."
Ele garante ainda que há projetos que já concluíram sua captação de recursos no final de 2008, em meio à instabilidade financeira internacional. É o caso de Luz nas Trevas, a continuação de O Bandido da Luz Vermelha, produzido pela atriz e diretora Helena Ignez, viúva de Rogério Sganzerla - que rodou o longa original e escreveu o roteiro do segundo. Agora, o personagem-título é encarnado pelo cantor Ney Matogrosso. A direção é dividida entre Helena e Ícaro Martins.
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