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30 de outubro de 2002
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Trechos do livro São Paulo, uma Aventura Radical, de Eduardo Emílio Fenianos
Editora UniverCidade, São Paulo, 2002

PARAR ONDE NINGUÉM PÁRA

Já chegamos à lua, já alcançamos os pontos
Mais escondidos do planeta,
Mais escondidos do planeta,
Mas ainda tememos alcançar
Aquele que está ao nosso lado

Em meio dia parado na esquina da Paulista com a Brigadeiro captei alguns flagrantes. Vi um homem ser atropelado, um assalto, personagens engraçados, pessoas correndo e motoristas buzinando sem motivos como se o ato de buzinar fosse um condicionamento urbano tão importante para a sobrevivência quanto respirar. Mas mais importante do que os flagrantes jornalísticos ou as curiosidades foi parar onde ninguém pára. E isto é a Avenida Paulista ou mesmo São Paulo. Um lugar onde ninguém pára. O lugar onde quase todos têm relógio, mas ninguém tem tempo.

Levei a sério as metáforas que falam que a Paulista é o coração de São Paulo e deixei sangue em forma de gente escorrer ao meu lado. Com calma pude observar que há um significado histórico entre a Sé e a Paulista. A região da Sé e do Páteo do Colégio formam o berço onde São Paulo nasceu, em 25 de janeiro de 1554. A Avenida Paulista é onde São Paulo disse para si mesma que queria ser gigante. Foi isso o que senti.

Enquanto os fatos aconteciam e os ternos e as gravatas passavam correndo por mim, um comentário que formulamos no trabalho, na universidade ou na escola foi ganhando um outro significado.

Quando estamos em um escritório ou na linha de produção e vivemos correndo atrás do tempo, sem conseguir alcançá-lo, com atitudes mecânicas, atos repetitivos e quase nada de novo o dia pode passar rápido. Da mesma forma, quando estamos fugindo da vida ou fazendo algo que nos desagrada o dia pode passar muito lento. Por isso, é comum falarmos "Puxa, hoje o dia passou rápido" ou "Hoje o dia está passando devagar", relacionando isto ao fato dele ser bom ou ruim. O que devemos observar em cada dia não é se ele passa rápido ou devagar, mas se ele foi útil para nós e se nós fomos útil para ele. E isto, talvez, só o dia seguinte responda.

Subi no urbanoscópio da urbenave, uma cadeira colocada no alto para servir como observatório de cidade, algo similiar ao que os telescópios são para os submarinos, e fiquei lendo a Avenida Paulista por um longo tempo.

Nos carros, as janelas fechadas, os olhares atentos. Pessoas engaioladas nos próprios corpos para se proteger do medo que sentem de quem está ao lado.

Não há mais grades somente ao redor das casas. Há grades também ao redor de nós e com isso, a nossa rotina, a convivência com os outro e nossa dura vida urbana tenha se tornado a maior aventura e o maior desafio humano. Já chegamos à lua, já alcançamos os pontos mais escondidos do planeta, mas tememos alcançar aquele que está ao nosso lado. O mundo precisa de menos astronautas e mais urbenautas.

 

QUARENTA DIAS MAIOR DO QUE O MUNDO

Precisamos viajar pra bem perto,
pra aprender a enxergar bem mais longe.

Ainda estacionado na praça, olhei para o mapa de São Paulo, admirando sua imensidão. O que já andei me deu forças pra continuar. Fiz a regra de três no papel, do quanto conheci e do restante. Conheci 76,56% do território. Faltam 23,44%.

No próprio mapa repeti o ritual que iniciei ao terminar a Zona Sul, o de riscar o último distrito desbravado, como se fosse um jogo de batalha naval, e dei início a outro. Fiz do mapa da cidade o meu calendário. Risquei as datas da agenda e transformei os dias da semana em dias da expedição. Meu dia seguinte passou a ser o octagésimo nono e o próximo, o dia 10 de maio, passou a ser somente o nonagésimo dia de viagem.

Noventa dias. Dez dias a mais do que o tempo que Philleas Fogg, o personagem de Júlio Verne, levou para conhecer o mundo no livro A Volta ao Mundo em 80 dias. Fiquei pensando no que conseguiu ver e lembrei de como se comportava quando li a história. Philleas era um estressado. Um homem que passava pelos lugares, mas não os sentia.

É possível "conhecer" o mundo em um dia por um Atlas ou uma tevê.

É possível conhecer uma cidade em meia hora. Mas também é possível viajar onde se mora e descobrir tanto quanto se tivesse partido para muito longe.

Pensei bem em Philleas Fogg e seus oitenta dias. Como conhecer o mundo em oitenta dias, se estou ralando pra conhecer São Paulo em quatro meses? Montei uma equação explicativa. Somadas as naturezas humanas, os muros sociais, as escarpas religiosas, as estepes ideológicas, os desertos lingüísticos, os becos, os fusos ideológicos, as florestas gastronômicas, as profundezas urbanas, os oceanos de percepção, a relatividade do tempo e outros fatores, o resultado é simples: São Paulo é no mínimo 40 dias maior do que o mundo.

 

O Reverso do Reverso

Tenho conseguido resolver com sucesso questões relacionadas a assaltos e possíveis crimes em geral. Com o tempo nas ruas aprendi a detectar a quem devo me anunciar ao chegar em determinados lugares. Sempre que vejo alguém parado em uma esquina ou beco, sozinho ou em grupo, que seja um cidadão comum, um olheiro, ladrão ou avião (repassador de drogas), ao invés de me afastar ou fugir, me aproximo.

Chego no seu território, como se estivesse entrando em um condomínio fechado onde tenho que me anunciar para os porteiros. Faço as coisas funcionarem do mesmo jeito. Me anuncio e conto o que estou fazendo.

Como as filmagens da expedição estão sendo feitas em sua maioria pelos próprios moradores, depois de uma certa amizade apresento meus equipamentos e passo a ensinar a galera a manusear câmera de vídeo e câmera fotográfica. O que faço é entregar a câmera a um daqueles que poderia querer tirá-la de mim. Ensino como manuseá-la e coloco em suas mãos a responsabilidade de me mostrar o mundo em que vive. No lugar da desconfiança, a confiança total. É um pacto.

Quando por informações, às vezes conseguidas na própria comunidade, sei quem são aqueles que podem querer me roubar ou cometer qualquer outro tipo de crime, dirijo-me a eles, tentando ganhar sua confiança. Chego, como já falei, dentro do maior respeito, sem impor meu modo de vida ou jeito de pensar.

 

ALPHAVILLES E ALPHAVELAS

O Estado durante tanto tempo
se esqueceu da comunidade
que hoje vemos tanto ricos quanto pobres esquecendo o governo
e tentando se autogovernar.

Desde que comecei com o desafio de viver com um salário-mínimo, no início do segundo mês de expedição, gastei R$ 10,00 pagando umas cervejas para os amigos motoboys, R$ 5,00 em almoço no Jardim São Luís, R$ 1,00 em uma cerveja no Jardim Ângela (ficava chato todo mundo pagar e eu não desembolsar nada), R$ 1,20 em um sanduíche. Não estou mais comprando água; estou enchendo meu cantil em uma rede de postos de gasolina. R$ 3,00 num corte de cabelo, R$ 32,50 na troca do amortecedor da direção, R$ 49,00 abastecendo a urbenave de diesel, R$ 5,95com pilhas para o gravador, R$ 1,01, comprando 88 gramas de queijo e dois pães e R$ 30,00 em motel, o que me leva a concluir deste balanço que gastei 4,7% com alimentação, 53,9% em despesas com a urbenave, 7,2% em interação com as pessoas(cerveja), 1,9% com despesas pessoais estéticas (corte de cabelo), 3,9% em artigos para o desenvolvimento do trabalho (pilhas) e 19,8% em despesas profanas (motel). Outra conclusão importante neste último parágrafo é que merecidamente encontrei uma mulher que não tinha um tio que me chamasse de tarado ou a avó de uma amiga que me empatasse e, assim, finalmente troquei carinhos sexuais mais profundos. Talvez a experiência mais perigosa que vivi até o momento - e já conto por quê.

 

ENTRE A VIDA E A VIDA

Só pode ser o cinema, a arte das artes,
A melhor explicação para a morte

Um homem ao lado, vendo meu copo vazio, me ofereceu um pouco da sua cerveja, fazendo um sinal com a garrafa. Respeitando a lei dos bares, aceitei. Fizemos uma boa amizade. Cara simpático. Me fez algumas perguntas relacionadas à expedição e num determinado momento me perguntou se eu conhecia o PCC. Comentei algo sobre o Partido Comunista e ele repetiu "O PCC, cara. Primeiro Comando da Capital." "Esse de que todo mundo fala mal?" "É. Podem falar mal, mas o PCC já me ajudou muito." O homem começou a falar. O Mané saiu de perto. Eu arregalei os olhos e os ouvidos.

Ao meu lado um assassino profissional. No seu curriculum, segundo ele mesmo, 36 homicídios, sendo 24 deles fora de São Paulo, muitos assaltos, tráfico de drogas, alguns anos de cadeia e uma posição firme sobre os direitos de quem vive às margens da lei. "Ninguém pensa no que acontece com a família de um bandido, quando ele vai pra cadeia. Eu contribuía com o PCC e a organização ajudou a manter minha família, quando eu não pude dar sustento. O PCC é o plano de saúde dos criminosos. Isso é pacto, meu!!"

Entre uma e outra cerveja, dividimos histórias, como dois amigos que se encontram e dividem experiências no balcão do bar. Ele sem querer mudar a minha vida. Eu sem me intrometer na dele. Esta expedição é para ouvir a Selva de Pedra e depois tentar entendê-la.

 

PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO

A minha São Paulo não é a de Oswald ou Mário de Andrade. A minha São Paulo é a de Cristóvão Colombo e Charles Darwin.

Ela não entra nos guias gastronômicos. Entra nos manuais de ciência. Não cabe nas páginas policiais. Extrapola os livros de aventura.

A minha São Paulo, a que comprei na barraca de um camelô, não é a de Oswald ou Mário de Andrade. Mas também é desvairada e de vez em quando tem alguns toques de sanidade.

Ah, como queria perguntar a eles: Senhores, se era ela Paulicéia Desvairada nos anos 20, o que é hoje?

A minha São Paulo, a que comprei em uma loja requintada nos Jardins, não é a de Oswald ou Mário de Andrade. Mesmo assim é chique, requintada, gostosa.

A minha São Paulo Deus não conseguiu criar. Deixou a cargo de nós mesmos, mundanos. E ele mesmo, o próprio Deus, concorda comigo. Nem ele poderia fazer melhor, nem pior.

A minha São Paulo quem me serviu foi um garçom chamado rua. No menu, feijão de favela com tempero de cozinha internacional.

A minha São Paulo não tem endereços fixos, pontos de táxi, hora marcada. Tem coordenadas geográficas, escarpas, ruelas e becos.

A minha São Paulo vive às margens das marginais.

A minha São Paulo, cada um tem a sua.

A minha São Paulo é radical, em todos os sentidos que esta palavra pode ter. Profunda, eletrizante, perigosa, filosófica.

Pra quem não ouviu, eu repito. A minha São Paulo - e eu me pergunto, quem sou eu para afirmar isto? - não é a de Oswald ou Mário de Andrade. Ela é a de Cristóvão Colombo e Charles Darwin!

A todos que quiserem conhecê-la, boa viagem!

*Mário de Andrade e Oswald de Andrade foram os precursores do Movimento Modernista que eclodiu em São Paulo, em 1922. Ambos são símbolos de uma cidade que crescia pujante nos anos 20. Em 1920, Mário de Andrade escreveu Paulicéia Desvairada, considerado o primeiro livro modernista. Nele estava o Prefácio Interessantíssimo. Cristóvão Colombo descobriu a América e Charles Darwin desenvolveu a teoria da evolução das espécies. Se você nunca ouviu falar desses caras, não se preocupe. Vai entender o livro do mesmo jeito.

         
     
 
 
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