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Trechos
do livro São Paulo, uma Aventura Radical, de Eduardo Emílio
Fenianos
Editora UniverCidade, São Paulo, 2002
PARAR
ONDE NINGUÉM PÁRA
Já
chegamos à lua, já alcançamos os pontos
Mais
escondidos do planeta,
Mais
escondidos do planeta,
Mas
ainda tememos alcançar
Aquele
que está ao nosso lado
Em
meio dia parado na esquina da Paulista com a Brigadeiro captei alguns
flagrantes. Vi um homem ser atropelado, um assalto, personagens
engraçados, pessoas correndo e motoristas buzinando sem motivos
como se o ato de buzinar fosse um condicionamento urbano tão
importante para a sobrevivência quanto respirar. Mas mais
importante do que os flagrantes jornalísticos ou as curiosidades
foi parar onde ninguém pára. E isto é a Avenida
Paulista ou mesmo São Paulo. Um lugar onde ninguém
pára. O lugar onde quase todos têm relógio,
mas ninguém tem tempo.
Levei
a sério as metáforas que falam que a Paulista é
o coração de São Paulo e deixei sangue em forma
de gente escorrer ao meu lado. Com calma pude observar que há
um significado histórico entre a Sé e a Paulista.
A região da Sé e do Páteo do Colégio
formam o berço onde São Paulo nasceu, em 25 de janeiro
de 1554. A Avenida Paulista é onde São Paulo disse
para si mesma que queria ser gigante. Foi isso o que senti.
Enquanto
os fatos aconteciam e os ternos e as gravatas passavam correndo
por mim, um comentário que formulamos no trabalho, na universidade
ou na escola foi ganhando um outro significado.
Quando
estamos em um escritório ou na linha de produção
e vivemos correndo atrás do tempo, sem conseguir alcançá-lo,
com atitudes mecânicas, atos repetitivos e quase nada de novo
o dia pode passar rápido. Da mesma forma, quando estamos
fugindo da vida ou fazendo algo que nos desagrada o dia pode passar
muito lento. Por isso, é comum falarmos "Puxa, hoje
o dia passou rápido" ou "Hoje o dia está
passando devagar", relacionando isto ao fato dele ser bom ou
ruim. O que devemos observar em cada dia não é se
ele passa rápido ou devagar, mas se ele foi útil para
nós e se nós fomos útil para ele. E isto, talvez,
só o dia seguinte responda.
Subi
no urbanoscópio da urbenave, uma cadeira colocada no alto
para servir como observatório de cidade, algo similiar ao
que os telescópios são para os submarinos, e fiquei
lendo a Avenida Paulista por um longo tempo.
Nos
carros, as janelas fechadas, os olhares atentos. Pessoas engaioladas
nos próprios corpos para se proteger do medo que sentem de
quem está ao lado.
Não
há mais grades somente ao redor das casas. Há grades
também ao redor de nós e com isso, a nossa rotina,
a convivência com os outro e nossa dura vida urbana tenha
se tornado a maior aventura e o maior desafio humano. Já
chegamos à lua, já alcançamos os pontos mais
escondidos do planeta, mas tememos alcançar aquele que está
ao nosso lado. O mundo precisa de menos astronautas e mais urbenautas.
QUARENTA
DIAS MAIOR DO QUE O MUNDO
Precisamos
viajar pra bem perto,
pra
aprender a enxergar bem mais longe.
Ainda
estacionado na praça, olhei para o mapa de São Paulo,
admirando sua imensidão. O que já andei me deu forças
pra continuar. Fiz a regra de três no papel, do quanto conheci
e do restante. Conheci 76,56% do território. Faltam 23,44%.
No
próprio mapa repeti o ritual que iniciei ao terminar a Zona
Sul, o de riscar o último distrito desbravado, como se fosse
um jogo de batalha naval, e dei início a outro. Fiz do mapa
da cidade o meu calendário. Risquei as datas da agenda e
transformei os dias da semana em dias da expedição.
Meu dia seguinte passou a ser o octagésimo nono e o próximo,
o dia 10 de maio, passou a ser somente o nonagésimo dia de
viagem.
Noventa
dias. Dez dias a mais do que o tempo que Philleas Fogg, o personagem
de Júlio Verne, levou para conhecer o mundo no livro A
Volta ao Mundo em 80 dias. Fiquei pensando no que conseguiu
ver e lembrei de como se comportava quando li a história.
Philleas era um estressado. Um homem que passava pelos lugares,
mas não os sentia.
É
possível "conhecer" o mundo em um dia por um Atlas
ou uma tevê.
É
possível conhecer uma cidade em meia hora. Mas também
é possível viajar onde se mora e descobrir tanto quanto
se tivesse partido para muito longe.
Pensei
bem em Philleas Fogg e seus oitenta dias. Como conhecer o mundo
em oitenta dias, se estou ralando pra conhecer São Paulo
em quatro meses? Montei uma equação explicativa. Somadas
as naturezas humanas, os muros sociais, as escarpas religiosas,
as estepes ideológicas, os desertos lingüísticos,
os becos, os fusos ideológicos, as florestas gastronômicas,
as profundezas urbanas, os oceanos de percepção, a
relatividade do tempo e outros fatores, o resultado é simples:
São Paulo é no mínimo 40 dias maior do que
o mundo.
O
Reverso do Reverso
Tenho
conseguido resolver com sucesso questões relacionadas a assaltos
e possíveis crimes em geral. Com o tempo nas ruas aprendi
a detectar a quem devo me anunciar ao chegar em determinados lugares.
Sempre que vejo alguém parado em uma esquina ou beco, sozinho
ou em grupo, que seja um cidadão comum, um olheiro, ladrão
ou avião (repassador de drogas), ao invés de me afastar
ou fugir, me aproximo.
Chego
no seu território, como se estivesse entrando em um condomínio
fechado onde tenho que me anunciar para os porteiros. Faço
as coisas funcionarem do mesmo jeito. Me anuncio e conto o que estou
fazendo.
Como
as filmagens da expedição estão sendo feitas
em sua maioria pelos próprios moradores, depois de uma certa
amizade apresento meus equipamentos e passo a ensinar a galera a
manusear câmera de vídeo e câmera fotográfica.
O que faço é entregar a câmera a um daqueles
que poderia querer tirá-la de mim. Ensino como manuseá-la
e coloco em suas mãos a responsabilidade de me mostrar o
mundo em que vive. No lugar da desconfiança, a confiança
total. É um pacto.
Quando
por informações, às vezes conseguidas na própria
comunidade, sei quem são aqueles que podem querer me roubar
ou cometer qualquer outro tipo de crime, dirijo-me a eles, tentando
ganhar sua confiança. Chego, como já falei, dentro
do maior respeito, sem impor meu modo de vida ou jeito de pensar.
ALPHAVILLES
E ALPHAVELAS
O
Estado durante tanto tempo
se
esqueceu da comunidade
que
hoje vemos tanto ricos quanto pobres esquecendo o governo
e
tentando se autogovernar.
Desde
que comecei com o desafio de viver com um salário-mínimo,
no início do segundo mês de expedição,
gastei R$ 10,00 pagando umas cervejas para os amigos motoboys, R$
5,00 em almoço no Jardim São Luís, R$ 1,00
em uma cerveja no Jardim Ângela (ficava chato todo mundo pagar
e eu não desembolsar nada), R$ 1,20 em um sanduíche.
Não estou mais comprando água; estou enchendo meu
cantil em uma rede de postos de gasolina. R$ 3,00 num corte de cabelo,
R$ 32,50 na troca do amortecedor da direção, R$ 49,00
abastecendo a urbenave de diesel, R$ 5,95com pilhas para o gravador,
R$ 1,01, comprando 88 gramas de queijo e dois pães e R$ 30,00
em motel, o que me leva a concluir deste balanço que gastei
4,7% com alimentação, 53,9% em despesas com a urbenave,
7,2% em interação com as pessoas(cerveja), 1,9% com
despesas pessoais estéticas (corte de cabelo), 3,9% em artigos
para o desenvolvimento do trabalho (pilhas) e 19,8% em despesas
profanas (motel). Outra conclusão importante neste último
parágrafo é que merecidamente encontrei uma mulher
que não tinha um tio que me chamasse de tarado ou a avó
de uma amiga que me empatasse e, assim, finalmente troquei carinhos
sexuais mais profundos. Talvez a experiência mais perigosa
que vivi até o momento - e já conto por quê.
ENTRE
A VIDA E A VIDA
Só
pode ser o cinema, a arte das artes,
A
melhor explicação para a morte
Um
homem ao lado, vendo meu copo vazio, me ofereceu um pouco da sua
cerveja, fazendo um sinal com a garrafa. Respeitando a lei dos bares,
aceitei. Fizemos uma boa amizade. Cara simpático. Me fez
algumas perguntas relacionadas à expedição
e num determinado momento me perguntou se eu conhecia o PCC. Comentei
algo sobre o Partido Comunista e ele repetiu "O PCC, cara.
Primeiro Comando da Capital." "Esse de que todo mundo
fala mal?" "É. Podem falar mal, mas o PCC já
me ajudou muito." O homem começou a falar. O Mané
saiu de perto. Eu arregalei os olhos e os ouvidos.
Ao
meu lado um assassino profissional. No seu curriculum, segundo ele
mesmo, 36 homicídios, sendo 24 deles fora de São Paulo,
muitos assaltos, tráfico de drogas, alguns anos de cadeia
e uma posição firme sobre os direitos de quem vive
às margens da lei. "Ninguém pensa no que acontece
com a família de um bandido, quando ele vai pra cadeia. Eu
contribuía com o PCC e a organização ajudou
a manter minha família, quando eu não pude dar sustento.
O PCC é o plano de saúde dos criminosos. Isso é
pacto, meu!!"
Entre
uma e outra cerveja, dividimos histórias, como dois amigos
que se encontram e dividem experiências no balcão do
bar. Ele sem querer mudar a minha vida. Eu sem me intrometer na
dele. Esta expedição é para ouvir a Selva de
Pedra e depois tentar entendê-la.
PREFÁCIO
INTERESSANTÍSSIMO
A minha
São Paulo não é a de Oswald ou Mário
de Andrade. A minha São Paulo é a de Cristóvão
Colombo e Charles Darwin.
Ela
não entra nos guias gastronômicos. Entra nos manuais
de ciência. Não cabe nas páginas policiais.
Extrapola os livros de aventura.
A minha
São Paulo, a que comprei na barraca de um camelô, não
é a de Oswald ou Mário de Andrade. Mas também
é desvairada e de vez em quando tem alguns toques de sanidade.
Ah,
como queria perguntar a eles: Senhores, se era ela Paulicéia
Desvairada nos anos 20, o que é hoje?
A minha
São Paulo, a que comprei em uma loja requintada nos Jardins,
não é a de Oswald ou Mário de Andrade. Mesmo
assim é chique, requintada, gostosa.
A minha
São Paulo Deus não conseguiu criar. Deixou a cargo
de nós mesmos, mundanos. E ele mesmo, o próprio Deus,
concorda comigo. Nem ele poderia fazer melhor, nem pior.
A minha
São Paulo quem me serviu foi um garçom chamado rua.
No menu, feijão de favela com tempero de cozinha internacional.
A minha
São Paulo não tem endereços fixos, pontos de
táxi, hora marcada. Tem coordenadas geográficas, escarpas,
ruelas e becos.
A minha
São Paulo vive às margens das marginais.
A minha
São Paulo, cada um tem a sua.
A minha
São Paulo é radical, em todos os sentidos que esta
palavra pode ter. Profunda, eletrizante, perigosa, filosófica.
Pra
quem não ouviu, eu repito. A minha São Paulo - e eu
me pergunto, quem sou eu para afirmar isto? - não é
a de Oswald ou Mário de Andrade. Ela é a de Cristóvão
Colombo e Charles Darwin!
A todos
que quiserem conhecê-la, boa viagem!
*Mário
de Andrade e Oswald de Andrade foram os precursores do Movimento
Modernista que eclodiu em São Paulo, em 1922. Ambos são
símbolos de uma cidade que crescia pujante nos anos 20. Em
1920, Mário de Andrade escreveu Paulicéia Desvairada,
considerado o primeiro livro modernista. Nele estava o Prefácio
Interessantíssimo. Cristóvão Colombo descobriu
a América e Charles Darwin desenvolveu a teoria da evolução
das espécies. Se você nunca ouviu falar desses caras,
não se preocupe. Vai entender o livro do mesmo jeito.
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