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TEATRO
Uma
peça dividida em duas
Entrevista:
Monique Gardenberg
Divulgação

Beth,
Monique, Maria Luiza e a produtora Michele Matalon: Os Sete
Afluentes do Rio Ota |
O desafio não era pequeno: montar pela primeira vez no país
Os Sete Afluentes do Rio Ota, do canadense Robert Lepage,
que tem como tema simplesmente a história da humanidade entre
o fim da II Guerra e os dias atuais. É um texto longo, de
produção épica. Ou seja, bem pouco adequado
a uma diretora estreante. Monique Gardenberg não ligou para
nada disso. "Acho que não medi o tamanho do desafio. Sou
movida pela paixão", afirma a ex-chefona do Free Jazz Festival,
que estréia Rio Ota nesta semana, no Centro Cultural
Banco do Brasil.
A peça surpreende antes mesmo de entrar no teatro. O texto
foi dividido em duas partes independentes. "Seria cansativo fazer
tudo num único dia. O texto permite essa divisão.
Sempre o entendi como duas peças diferentes", diz Monique.
Começando em Hiroshima, após a explosão da
bomba atômica, em 1945, a peça acompanha sete personagens,
avançando por diversas épocas e lugares. Para dar
vida a essa trajetória, foi convocado um elenco puxado por
Beth Goulart, Maria Luiza Mendonça, Caio Junqueira e Giulia
Gam.
Veja
Rio: Como se deu a escolha da peça e o que chamou sua
atenção no texto?
Monique
Gardenberg: Quando ligamos a primeira vez para a companhia,
para convidar o Robert Lepage para participar do Carlton Arts
em 2001, queríamos trazer Os Sete Afluentes do Rio Ota.
Eles explicaram que esta peça havia durado apenas 3 anos,
sem a menor chance de ser remontada. Comecei, então, a me
interessar em montar aqui, com atores daqui, com uma equipe daqui,
que, junto comigo, pudessem viver esta experiência. De cara,
mandaram o texto original de sua estréia em 1996 e quatro
fitas de video com a última montagem do espetáculo,
de 1998. Com a vinda do Lepage para o Carlton Arts, tivemos
então oportunidade de conversar e discutir realmente a idéia.
Assisti a segunda parte dos Sete Afluentes do Rio Ota em
1996, no Next Wave Festival do Brooklyn Academy of Music.
Foi um choque, nunca uma peça de teatro tinha tido tamanho
impacto sobre mim. Acredito que isto tenha acontecido justamente
pelo tipo de narrativa do Lepage, das várias linguagens que
ele se apropria para fazer teatro e do uso de um texto sintetico
e inteiramente emblemático. Ao fazer isto, ele aproxima o
teatro da gente, fala de uma maneira que estamos acostumados a ouvir,
tudo parece muito próximo, rompe a autoridade do palco para
chegar perto, bem perto mesmo.
Veja
Rio: Você conseguiu transplantar para a montagem algo
de sua experiência como cineasta?
Monique
Gardenberg:
No início estávamos todos apavorados, atores, Michele
Matalon e eu. Tínhamos um mês e meio pela frente para
ensaiarmos uma peça que deveria durar entre 5 a 6 horas.
Mas, conforme a gente ia levantando cada capítulo, já
se podia sentir a força do texto. Depois do segundo dia de
ensaio, estávamos todos surpresos com o poder que já
se podia sentir em cada cena. Nosso trabalho está sendo muito
intenso. Assistimos a vários documentários, estamos
tendo palestras com Jayme Pinsky e com professora Satomi. Todos
os atores ensaiam cinco horas por dia além de terem diariamente
aulas de expressão corporal com Dani Hu, Flávia Pucci
ou Márcia Rubin. Além disso fazem aulas de francês,
aprendem a falar frases em japonês, em alemão. Neste
trabalho, me considero mais uma "ensaiadora". Ensaio exaustivamente
uma obra brilhantemente desenhada e escrita. Sou uma ensaiadora
com criações aqui e ali. Trago para o palco minha
experiência de vida, onde o cinema faz parte dela.
Veja
Rio: Trata-se de um espetáculo muito ambicioso, tanto
no tema quanto no porte da produção. Isso não
te deixou apreensiva, por sua pouca experiência? Ou foi, pelo
contrário, um incentivo a mais?
Monique
Gardenberg:
Acho que não medi o tamanho do desafio. Sou movida pela paixão,
e normalmente não paro para pensar quando decido fazer alguma
coisa, pois ele acontece num impulso, que acaba virando uma obsessão.
Assim foi quando criamos, eu e minha saudosa irmã Sylvinha,
o Free Jazz. Não tínhamos noção
do tamanho da deliciosa encrenca!
Veja
Rio: Como foi a adaptação do texto para uma peça
em duas partes? Tem alguma expectativa sobre como esta opção
vai impactar o público?
Monique
Gardenberg:
Os Sete Afluentes do Rio Ota é uma saga, um épico
que começa em Hiroshima, em 1946, logo após a bomba
atômica, e conta, através da vida de sete personagens,
a historia da segunda metade do século XX, percorrendo diferentes
partes do mundo em épocas diversas. A peça está
dividida em sete capítulos, e decidi realmente montá-la
em dois dias. Durante as leituras, senti logo que seria difícil,
cansativo mesmo, encenarmos a peça inteira num único
dia. Além disso, ela permite este tipo de divisão.
Sempre a entendi como duas peças diversas, apesar de totalmente
ligadas. A primeira parte possui um tom mais dramático, já
a segunda é mais sarcástica, brincalhona. Ambas, porém
desfrutam de muita poesia. Acho que o público receberá
bem, o público brasileiro gosta de desafios, de novas propostas.
Ele é muito faminto por novidades. Além disso, compreendo
que esta divisão visa proteger o próprio público
e os atores. Todo mundo sairá ganhando com isto.
Veja
Rio: Fale um pouco sobre a escolha do elenco e como foi trabalhar
com a direção de atores.
Monique
Gardenberg:
Procurei reunir um grupo de pessoas bacanas e talentosas, que tivessem
a ver com o tipo físico exigido pelas suas personagens "chefes"
e que topassem o desafio junto comigo. Normalmente fico bem tranqüila.
Mas dessa vez, quando vi que não tinha uma câmera ou
um monitor atrás dos quais eu pudesse me esconder um pouco,
fiquei sem chão. Aos pouquinhos fui me acalmando, aprendendo
como fazer. O elenco está lindo. É um prazer incrível
ver atores como Beth Goulart, Maria Luiza Mendonça, Caco
Ciocler, Pascoal da Conceição, Lorena da Silva, Caio
Junqueira, Giulia Gam, Helena Ignês, o Jiddu Pinheiro incorporando
as personagens. É emocionante ver a Beth Goulart sair como
japonesa e voltar como uma americana alucinada em poucos segundos.
Ou mesmo como uma repórter canadense irritante, passando
por uma prostituta e uma prisioneira de um campo de concentração.
Todos fazem diversos personagens. A Maria Luiza faz uma menina de
11 anos judia e uma japonesa cega que começa a peça
com 5 anos e termina no seu aniversário de 60 anos. O Pascoal
parece um camaleão, cada personagem que faz é um novo
ator no palco. Tudo é muito rico e eles me emocionam diariamente.
A Madalena Bernardes, cantora lírica, está vivendo
um processo muito emocionante de descoberta, lutando para romper
as amarras da ópera.
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