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15 de janeiro de 2003
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TEATRO

Uma peça dividida em duas

Entrevista: Monique Gardenberg


Divulgação

Beth, Monique, Maria Luiza e a produtora Michele Matalon: Os Sete Afluentes do Rio Ota


O desafio não era pequeno: montar pela primeira vez no país Os Sete Afluentes do Rio Ota, do canadense Robert Lepage, que tem como tema simplesmente a história da humanidade entre o fim da II Guerra e os dias atuais. É um texto longo, de produção épica. Ou seja, bem pouco adequado a uma diretora estreante. Monique Gardenberg não ligou para nada disso. "Acho que não medi o tamanho do desafio. Sou movida pela paixão", afirma a ex-chefona do Free Jazz Festival, que estréia Rio Ota nesta semana, no Centro Cultural Banco do Brasil.

A peça surpreende antes mesmo de entrar no teatro. O texto foi dividido em duas partes independentes. "Seria cansativo fazer tudo num único dia. O texto permite essa divisão. Sempre o entendi como duas peças diferentes", diz Monique. Começando em Hiroshima, após a explosão da bomba atômica, em 1945, a peça acompanha sete personagens, avançando por diversas épocas e lugares. Para dar vida a essa trajetória, foi convocado um elenco puxado por Beth Goulart, Maria Luiza Mendonça, Caio Junqueira e Giulia Gam.

Veja Rio: Como se deu a escolha da peça e o que chamou sua atenção no texto?
Monique Gardenberg: Quando ligamos a primeira vez para a companhia, para convidar o Robert Lepage para participar do Carlton Arts em 2001, queríamos trazer Os Sete Afluentes do Rio Ota. Eles explicaram que esta peça havia durado apenas 3 anos, sem a menor chance de ser remontada. Comecei, então, a me interessar em montar aqui, com atores daqui, com uma equipe daqui, que, junto comigo, pudessem viver esta experiência. De cara, mandaram o texto original de sua estréia em 1996 e quatro fitas de video com a última montagem do espetáculo, de 1998. Com a vinda do Lepage para o Carlton Arts, tivemos então oportunidade de conversar e discutir realmente a idéia. Assisti a segunda parte dos Sete Afluentes do Rio Ota em 1996, no Next Wave Festival do Brooklyn Academy of Music. Foi um choque, nunca uma peça de teatro tinha tido tamanho impacto sobre mim. Acredito que isto tenha acontecido justamente pelo tipo de narrativa do Lepage, das várias linguagens que ele se apropria para fazer teatro e do uso de um texto sintetico e inteiramente emblemático. Ao fazer isto, ele aproxima o teatro da gente, fala de uma maneira que estamos acostumados a ouvir, tudo parece muito próximo, rompe a autoridade do palco para chegar perto, bem perto mesmo.

Veja Rio: Você conseguiu transplantar para a montagem algo de sua experiência como cineasta?
Monique Gardenberg: No início estávamos todos apavorados, atores, Michele Matalon e eu. Tínhamos um mês e meio pela frente para ensaiarmos uma peça que deveria durar entre 5 a 6 horas. Mas, conforme a gente ia levantando cada capítulo, já se podia sentir a força do texto. Depois do segundo dia de ensaio, estávamos todos surpresos com o poder que já se podia sentir em cada cena. Nosso trabalho está sendo muito intenso. Assistimos a vários documentários, estamos tendo palestras com Jayme Pinsky e com professora Satomi. Todos os atores ensaiam cinco horas por dia além de terem diariamente aulas de expressão corporal com Dani Hu, Flávia Pucci ou Márcia Rubin. Além disso fazem aulas de francês, aprendem a falar frases em japonês, em alemão. Neste trabalho, me considero mais uma "ensaiadora". Ensaio exaustivamente uma obra brilhantemente desenhada e escrita. Sou uma ensaiadora com criações aqui e ali. Trago para o palco minha experiência de vida, onde o cinema faz parte dela.

Veja Rio: Trata-se de um espetáculo muito ambicioso, tanto no tema quanto no porte da produção. Isso não te deixou apreensiva, por sua pouca experiência? Ou foi, pelo contrário, um incentivo a mais?
Monique Gardenberg: Acho que não medi o tamanho do desafio. Sou movida pela paixão, e normalmente não paro para pensar quando decido fazer alguma coisa, pois ele acontece num impulso, que acaba virando uma obsessão. Assim foi quando criamos, eu e minha saudosa irmã Sylvinha, o Free Jazz. Não tínhamos noção do tamanho da deliciosa encrenca!

Veja Rio: Como foi a adaptação do texto para uma peça em duas partes? Tem alguma expectativa sobre como esta opção vai impactar o público?
Monique Gardenberg: Os Sete Afluentes do Rio Ota é uma saga, um épico que começa em Hiroshima, em 1946, logo após a bomba atômica, e conta, através da vida de sete personagens, a historia da segunda metade do século XX, percorrendo diferentes partes do mundo em épocas diversas. A peça está dividida em sete capítulos, e decidi realmente montá-la em dois dias. Durante as leituras, senti logo que seria difícil, cansativo mesmo, encenarmos a peça inteira num único dia. Além disso, ela permite este tipo de divisão. Sempre a entendi como duas peças diversas, apesar de totalmente ligadas. A primeira parte possui um tom mais dramático, já a segunda é mais sarcástica, brincalhona. Ambas, porém desfrutam de muita poesia. Acho que o público receberá bem, o público brasileiro gosta de desafios, de novas propostas. Ele é muito faminto por novidades. Além disso, compreendo que esta divisão visa proteger o próprio público e os atores. Todo mundo sairá ganhando com isto.

Veja Rio: Fale um pouco sobre a escolha do elenco e como foi trabalhar com a direção de atores.
Monique Gardenberg: Procurei reunir um grupo de pessoas bacanas e talentosas, que tivessem a ver com o tipo físico exigido pelas suas personagens "chefes" e que topassem o desafio junto comigo. Normalmente fico bem tranqüila. Mas dessa vez, quando vi que não tinha uma câmera ou um monitor atrás dos quais eu pudesse me esconder um pouco, fiquei sem chão. Aos pouquinhos fui me acalmando, aprendendo como fazer. O elenco está lindo. É um prazer incrível ver atores como Beth Goulart, Maria Luiza Mendonça, Caco Ciocler, Pascoal da Conceição, Lorena da Silva, Caio Junqueira, Giulia Gam, Helena Ignês, o Jiddu Pinheiro incorporando as personagens. É emocionante ver a Beth Goulart sair como japonesa e voltar como uma americana alucinada em poucos segundos. Ou mesmo como uma repórter canadense irritante, passando por uma prostituta e uma prisioneira de um campo de concentração. Todos fazem diversos personagens. A Maria Luiza faz uma menina de 11 anos judia e uma japonesa cega que começa a peça com 5 anos e termina no seu aniversário de 60 anos. O Pascoal parece um camaleão, cada personagem que faz é um novo ator no palco. Tudo é muito rico e eles me emocionam diariamente. A Madalena Bernardes, cantora lírica, está vivendo um processo muito emocionante de descoberta, lutando para romper as amarras da ópera.

 

         
     

 

 
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