| | "O
computador ainda imita o papel"  Neide
Oliveira
Niels
Andreas/AE
 | "É
incrível que todos na web sejam forçados a seguir os padrões
criados por dois garotos" |
É
provável que a internet tivesse outra fisionomia e os computadores fossem
usados de maneira bem diferente do que hoje se as idéias do filósofo
americano Ted Nelson tivessem prevalecido. Ainda na década de 1960, ele
cunhou o termo "hipertexto" e imaginou uma rede de computadores na qual se pudesse
criar textos multidimensionais, em que trechos de obras diferentes remetessem
uns aos outros mutuamente até que fosse possível chegar à
origem de qualquer citação e, numa outra etapa, de alguma maneira,
recompensar seu autor pela contribuição intelectual. Como mecanismo,
o sistema é mais ou menos o que ocorre atualmente com os hiperlinks, um
dos conceitos fundamentais da web a possibilidade de inserir em uma página
da internet uma remissão para outra página, disponível com
um simples clique do mouse. Nelson afirma, porém, que sua idéia
foi deturpada. Copiam-se textos na internet indiscriminadamente, a maior parte
do tempo sem citar a fonte. Além disso, para ele, os computadores funcionam
como uma simples "imitação dos registros em papel". Exemplos disso
seriam os formatos dos documentos nos programas Microsoft Word e Adobe Acrobat,
dois dos mais usados na manipulação de textos e imagens. Hoje professor
convidado da Universidade Oxford, na Inglaterra, Nelson, de 68 anos, trabalha
em um projeto para pôr em prática suas idéias, resumidas no
site www.transliterature.org.
Ele deu a seguinte entrevista a VEJA durante uma visita ao Brasil para participar
de um festival internacional de linguagem eletrônica.
Veja
O senhor comparou a maneira como armazenamos documentos nos computadores modernos
a uma "imitação do papel". Por quê?
Nelson Muita gente pensa
que os computadores são usados de um modo moderno. Mas não são.
As pessoas estão aferradas a tradições e não têm
consciência disso. O papel foi inventado há 2 000 anos e, com ele,
uma série de tradições. Os dois mais importantes programas
de texto, o Word e o Acrobat, são estúpidos, porque não são
nada mais que simulação de papel. O clipboard (prancheta) e o desktop
dos computadores atuais não passam de tradição, são
a simulação do papel no computador. É o que tem sido feito
desde os anos 1960 e 1970. A pergunta que eu faço é: o que poderíamos
fazer livres dessas tradições? Venho trabalhando nisso há
45 anos. Sinto-me um pouco como Frodo na Terra de Mordor, em O Senhor dos Anéis.
Só que o problema aqui não são os monstros, e sim o modo
como as pessoas pensam. Não reconhecemos possibilidades diferentes nas
máquinas. Todos reclamam de como os softwares são difíceis
de ser utilizados, mas pensam que o modo como os computadores são usados
está basicamente correto.
Veja Como seu trabalho
inspirou a World Wide Web?
Nelson Eu fiz um projeto na Universidade
Brown, com o professor Andy van Dam, chamado Sistema de Edição de
Hipertexto. Havia uma página na tela e textos escondidos sob outro texto.
Clicando no link, seguia-se para outra página e, clicando de novo, podia-se
voltar para a anterior ou avançar na pesquisa. Para mim, essa é
a essência da World Wide Web, a interconexão entre as informações.
O resto é simulação do papel. Utilizar um programa de computador
como um simulador de papel é como cortar as asas de um avião e usá-lo
como um ônibus. Você perde todo o seu poder.
Veja
Como foi seu encontro com Tim Berners-Lee, o "pai" da World Wide Web, na pré-história
da rede mundial de computadores?
Nelson Foi só um encontro. Ele me
mostrou o que chamou de World Wide Web. Naquele tempo não havia gráficos,
figuras nem navegadores. Talvez o grande sucesso da World Wide Web se deva aos
navegadores, e não a Tim Berners-Lee. Não quero dizer que ele seja
um estúpido. É uma pessoa agradável, boa companhia para um
almoço. Mas os responsáveis pelo crescimento da web foram principalmente
dois sujeitos da Universidade de Illinois, do Centro Nacional para Aplicações
em Supercomputadores (Marc Andreessen e Eric Bina, idealizadores do pioneiro navegador
Mosaic). Essa geração permitiu a criação de tudo que
as pessoas hoje associam com a web: as imagens com um formato específico
de arquivo, o JPEG, o sistema Java, janelas atualizáveis, tabelas e acho
que também os microprogramas que se instalam no computador do usuário
para permitir a navegação rápida e a decodificação
de informações, os cookies.
Veja Então, essas foram contribuições
positivas?
Nelson
Foram, mas padronizaram o sistema. É incrível que
todo mundo seja forçado a seguir os padrões da web que dois garotos
criaram. E Tim Berners-Lee é o cabeça disso. Mesmo que ele não
tenha criado o navegador, ele é o responsável. Lutar contra a padronização
dos navegadores é, essencialmente, lutar contra a Microsoft. Páginas
feitas com um programa da Microsoft não podem ser vistas por usuários
de outros sistemas. Assim, gradualmente, a Microsoft vai ganhando controle. A
mesma coisa ocorreu com os sistemas operacionais. Antes, existiam vários
tipos. Agora eles são todos iguais ao Windows, com janelas de maximizar
e minimizar. Aliás, é incrível que haja verdadeira devoção
pelos Macs, que são exatamente a mesma coisa que o Windows.
Veja
O senhor criou um software livre, chamado Transquoter. O que ele faz?
Nelson É um sistema que permite mostrar
o contexto original das citações. Esse é o benefício
que perdemos nos computadores atuais. É um software muito simples, que
torna possível criar documentos e buscar suas citações e
significado em qualquer lugar da web. Ele exibe o contexto original do que está
na internet. É um método que poderia defender os direitos autorais.
Veja
Quais são suas outras idéias para a internet?
Nelson
Minhas idéias nunca foram específicas para a internet,
que é apenas um nome para um sistema específico de comunicação.
O que me preocupa não é isso, e sim a estrutura de documentos e
softwares. Minha missão é trabalhar com documentos. Meu grande projeto
é uma espécie de ziguezague. Ele deixa as pessoas inicialmente confusas,
por ser estranho e diferente, mas, para mim, é extremamente simples, não
é convencional. Funciona assim: a maioria dos bancos de dados de empresas
e do governo é organizada em tabelas, formadas por retângulos com
nome e endereço. Tomando o exemplo de um planilha com uma árvore
genealógica, pode-se navegar em qualquer dimensão casamentos,
filhos ou ligações remotas, pelas ramificações da
árvore. Em um documento PDF, que é a maneira convencional de fazer
árvores genealógicas, não existe essa possibilidade. É
preciso seguir cada ramo individualmente. Concordo que meu sistema é difícil
de explicar, mas também é bem fácil de usar.
Veja
Por que suas idéias foram chamadas de fantasiosas pela revista americana
Wired?
Nelson
O que quer dizer fantasia? Minha imaginação produz
idéias. Elas são possíveis? São, sim. Aquilo foi um
ataque pessoal de gente que se fingia minha amiga. O jornalista foi muito malicioso.
Veja Os usuários de computadores
estão preparados para mudanças bruscas como esta, que pressupõem
lidar com informações em todos os seus contextos?
Nelson Ninguém
está preparado para nada, para o que não conhece. É o exercício
da utilização que desenvolve a capacidade de aproveitar um sistema
novo. | |