Índice
Carta ao leitor
Cenários: As parcerias entre grandes empresas na disputa pelo mercado global
Entrevista: John Battelle, autor de um livro que disseca o Google
Celulares: Os modelos que fazem sucesso no mundo inteiro
Foto digital: Um guia para armazenar, compartilhar e imprimir suas imagens
Informática: Vem aí a próxima geração de processadores, de 64 bits
TV digital: O Brasil adota um padrão de alta definição semelhante ao japonês
Medicina: Os novos equipamentos que mostram detalhes milimétricos do corpo humano
Inteligência: Ela já chegou às roupas, aos carros e aos eletrodomésticos
Sem fio: Como funciona o WiMax, que permitirá acesso à internet de banda larga em cidades inteiras
Entrevista: Jean Paul Jacob, o futurólogo brasileiro da IBM
Games: Os novos jogos e máquinas que transformaram o entretenimento em arte
Tradução: O primeiro software que ouve uma frase em um idioma e a pronuncia em outro
Rádio: A transmissão digital chega ao Brasil e renova um velho meio de comunicação
MP3: Por que o iPod faz tanto sucesso com suas diferentes versões
Entrevista: Ted Nelson, o pai do hipertexto, critica a internet atual
Guia de produtos: Os lançamentos no mercado de eletrônicos deste fim de ano
Celulares
PDAs e smartphones
Câmeras digitais
Computadores
Periféricos
Impressoras e multifuncionais
Filmadoras
TV e home theater
DVDs
Tocadores de MP3
Aparelhos de som
Som do carro
Outros
 
 

"O computador ainda imita o papel"


Neide Oliveira


Niels Andreas/AE
"É incrível que todos na web sejam forçados a seguir os padrões criados por dois garotos"

É provável que a internet tivesse outra fisionomia e os computadores fossem usados de maneira bem diferente do que hoje se as idéias do filósofo americano Ted Nelson tivessem prevalecido. Ainda na década de 1960, ele cunhou o termo "hipertexto" e imaginou uma rede de computadores na qual se pudesse criar textos multidimensionais, em que trechos de obras diferentes remetessem uns aos outros mutuamente – até que fosse possível chegar à origem de qualquer citação e, numa outra etapa, de alguma maneira, recompensar seu autor pela contribuição intelectual. Como mecanismo, o sistema é mais ou menos o que ocorre atualmente com os hiperlinks, um dos conceitos fundamentais da web – a possibilidade de inserir em uma página da internet uma remissão para outra página, disponível com um simples clique do mouse. Nelson afirma, porém, que sua idéia foi deturpada. Copiam-se textos na internet indiscriminadamente, a maior parte do tempo sem citar a fonte. Além disso, para ele, os computadores funcionam como uma simples "imitação dos registros em papel". Exemplos disso seriam os formatos dos documentos nos programas Microsoft Word e Adobe Acrobat, dois dos mais usados na manipulação de textos e imagens. Hoje professor convidado da Universidade Oxford, na Inglaterra, Nelson, de 68 anos, trabalha em um projeto para pôr em prática suas idéias, resumidas no site www.transliterature.org. Ele deu a seguinte entrevista a VEJA durante uma visita ao Brasil para participar de um festival internacional de linguagem eletrônica.  

Veja – O senhor comparou a maneira como armazenamos documentos nos computadores modernos a uma "imitação do papel". Por quê?

Nelson – Muita gente pensa que os computadores são usados de um modo moderno. Mas não são. As pessoas estão aferradas a tradições e não têm consciência disso. O papel foi inventado há 2 000 anos e, com ele, uma série de tradições. Os dois mais importantes programas de texto, o Word e o Acrobat, são estúpidos, porque não são nada mais que simulação de papel. O clipboard (prancheta) e o desktop dos computadores atuais não passam de tradição, são a simulação do papel no computador. É o que tem sido feito desde os anos 1960 e 1970. A pergunta que eu faço é: o que poderíamos fazer livres dessas tradições? Venho trabalhando nisso há 45 anos. Sinto-me um pouco como Frodo na Terra de Mordor, em O Senhor dos Anéis. Só que o problema aqui não são os monstros, e sim o modo como as pessoas pensam. Não reconhecemos possibilidades diferentes nas máquinas. Todos reclamam de como os softwares são difíceis de ser utilizados, mas pensam que o modo como os computadores são usados está basicamente correto.  

Veja – Como seu trabalho inspirou a World Wide Web?

Nelson – Eu fiz um projeto na Universidade Brown, com o professor Andy van Dam, chamado Sistema de Edição de Hipertexto. Havia uma página na tela e textos escondidos sob outro texto. Clicando no link, seguia-se para outra página e, clicando de novo, podia-se voltar para a anterior ou avançar na pesquisa. Para mim, essa é a essência da World Wide Web, a interconexão entre as informações. O resto é simulação do papel. Utilizar um programa de computador como um simulador de papel é como cortar as asas de um avião e usá-lo como um ônibus. Você perde todo o seu poder.  

Veja – Como foi seu encontro com Tim Berners-Lee, o "pai" da World Wide Web, na pré-história da rede mundial de computadores?

Nelson – Foi só um encontro. Ele me mostrou o que chamou de World Wide Web. Naquele tempo não havia gráficos, figuras nem navegadores. Talvez o grande sucesso da World Wide Web se deva aos navegadores, e não a Tim Berners-Lee. Não quero dizer que ele seja um estúpido. É uma pessoa agradável, boa companhia para um almoço. Mas os responsáveis pelo crescimento da web foram principalmente dois sujeitos da Universidade de Illinois, do Centro Nacional para Aplicações em Supercomputadores (Marc Andreessen e Eric Bina, idealizadores do pioneiro navegador Mosaic). Essa geração permitiu a criação de tudo que as pessoas hoje associam com a web: as imagens com um formato específico de arquivo, o JPEG, o sistema Java, janelas atualizáveis, tabelas e acho que também os microprogramas que se instalam no computador do usuário para permitir a navegação rápida e a decodificação de informações, os cookies.  

Veja – Então, essas foram contribuições positivas?

Nelson – Foram, mas padronizaram o sistema. É incrível que todo mundo seja forçado a seguir os padrões da web que dois garotos criaram. E Tim Berners-Lee é o cabeça disso. Mesmo que ele não tenha criado o navegador, ele é o responsável. Lutar contra a padronização dos navegadores é, essencialmente, lutar contra a Microsoft. Páginas feitas com um programa da Microsoft não podem ser vistas por usuários de outros sistemas. Assim, gradualmente, a Microsoft vai ganhando controle. A mesma coisa ocorreu com os sistemas operacionais. Antes, existiam vários tipos. Agora eles são todos iguais ao Windows, com janelas de maximizar e minimizar. Aliás, é incrível que haja verdadeira devoção pelos Macs, que são exatamente a mesma coisa que o Windows.  

Veja – O senhor criou um software livre, chamado Transquoter. O que ele faz?

Nelson – É um sistema que permite mostrar o contexto original das citações. Esse é o benefício que perdemos nos computadores atuais. É um software muito simples, que torna possível criar documentos e buscar suas citações e significado em qualquer lugar da web. Ele exibe o contexto original do que está na internet. É um método que poderia defender os direitos autorais.  

Veja – Quais são suas outras idéias para a internet?

Nelson – Minhas idéias nunca foram específicas para a internet, que é apenas um nome para um sistema específico de comunicação. O que me preocupa não é isso, e sim a estrutura de documentos e softwares. Minha missão é trabalhar com documentos. Meu grande projeto é uma espécie de ziguezague. Ele deixa as pessoas inicialmente confusas, por ser estranho e diferente, mas, para mim, é extremamente simples, não é convencional. Funciona assim: a maioria dos bancos de dados de empresas e do governo é organizada em tabelas, formadas por retângulos com nome e endereço. Tomando o exemplo de um planilha com uma árvore genealógica, pode-se navegar em qualquer dimensão – casamentos, filhos ou ligações remotas, pelas ramificações da árvore. Em um documento PDF, que é a maneira convencional de fazer árvores genealógicas, não existe essa possibilidade. É preciso seguir cada ramo individualmente. Concordo que meu sistema é difícil de explicar, mas também é bem fácil de usar.  

Veja – Por que suas idéias foram chamadas de fantasiosas pela revista americana Wired?

Nelson – O que quer dizer fantasia? Minha imaginação produz idéias. Elas são possíveis? São, sim. Aquilo foi um ataque pessoal de gente que se fingia minha amiga. O jornalista foi muito malicioso.  

Veja – Os usuários de computadores estão preparados para mudanças bruscas como esta, que pressupõem lidar com informações em todos os seus contextos?

Nelson – Ninguém está preparado para nada, para o que não conhece. É o exercício da utilização que desenvolve a capacidade de aproveitar um sistema novo.