| | "O
celular será um supercomputador"  José
Edward
Bia
Parreiras
 | "Não
existe personalização maior do que esta: a TV que só transmite o que o usuário
quer" |
Futurólogo militante, o engenheiro
eletrônico Jean Paul Jacob que, apesar do nome afrancesado, é
paulistano previu com vários anos de antecedência muitas das
tecnologias que se incorporaram ao dia-a-dia de cidadãos do mundo inteiro
nos últimos anos. Na década de 1980, por exemplo, ele profetizou
o surgimento dos computadores portáteis, das câmeras digitais e dos
eletrodomésticos inteligentes. Aos 65 anos, 42 deles atuando como pesquisador
da IBM nos Estados Unidos, Jacob continua a exercitar-se na bola de cristal. Nesta
entrevista, entre outras previsões, afirma que, em pouco tempo, telefones
celulares e videogames portáteis serão tão potentes quanto
supercomputadores e que, no máximo em três décadas, o livro
de papel será substituído por um similar digital.
Veja Quais
inovações tecnológicas serão incorporadas ao dia-a-dia
das pessoas nos próximos anos?
Jacob Costumo dizer que o celular está
se transformando numa espécie de canivete suíço digital,
que oferece, ao mesmo tempo, cada vez mais e variados serviços. A convergência
tecnológica ocorre de forma espetacular nos celulares. Cada vez mais esse
aparelhinho funcionará como um computador, que permitirá ouvir músicas,
ver vídeos, transmitir dados, acessar a internet, caixas eletrônicos
e máquinas de refrigerantes, entre outros. Em algumas cidades da Europa
e da América do Norte, até os parquímetros estão interligados
à internet por redes de comunicação sem fio, o que permite
que os motoristas paguem o estacionamento pelo celular.
Veja Além
do celular, que outros equipamentos se beneficiarão da convergência?
Jacob Os
videogames. A tendência é que sejam acopladas cada vez mais funções
a esses aparelhos. A IBM, por exemplo, está desenvolvendo um poderosíssimo
processador, o Cell Chip, que é na verdade um supercomputador com dez vezes
mais potência que os chips comuns. Ele permite que os videogames se transformem
em computadores pessoais nos quais o usuário, além de jogar, poderá
ver TV e acessar a internet, entre outras funções. Esse superchip
será lançado oficialmente em 2006, mas já está sendo
testado em games da Sony e em TVs da Toshiba. Graças a ele, já é
possível, por exemplo, ouvir MP3, ver fotos e assistir a filmes no Playstation
portátil, da Sony.
Veja O senhor daria outro exemplo de
aplicação desse superchip?
Jacob Ele permitirá também
que os gamemaníacos fiquem plugados o tempo todo na web e possam, por exemplo,
acessar internet banking a partir do videogame. Além disso, como teremos
uma enorme quantidade de games em rede, é possível que haja uma
grande expansão de jogos educacionais ou pedagógicos. As escolas
poderão aproveitar a destreza que os jovens têm com aqueles botões
e programar cursos mais atrativos, por meio de jogos.
Veja Que outras tendências o senhor
vê?
Jacob
A massificação com personalização
dos serviços e do entretenimento. Ou seja: a possibilidade de produtos
fabricados em massa poderem ser adaptados aos gostos e interesses de usuários
específicos. O melhor exemplo nessa área é a TV digital.
No futuro, todos os aparelhos de TV serão idênticos, mas cada pessoa
vai poder formatar a seu bel-prazer a programação. Você "dirá"
à TV os assuntos de sua preferência e ela selecionará automaticamente
em todos os canais os programas disponíveis que atendem ao seu perfil.
À noite, quando voltar para casa, terá um canal preparado exclusivamente
para você. No futebol, por exemplo, será possível selecionar
apenas os jogos do seu clube. Melhor ainda: no caso de derrota dele, para não
se aborrecer muito, você poderá ordenar que seja gravado apenas o
compacto do jogo. Não existe personalização maior do que
esta: a TV que só transmite o que cada indivíduo quer.
Veja A
TV de alta definição é realmente um ganho para o consumidor
ou apenas uma "necessidade" criada pelo mercado e imposta ao público?
Jacob
É, sem dúvida, um grande avanço para o consumidor, porque
associa alta definição com digitalização. Há
uma série de vantagens, como o fato de o telespectador estar assistindo
a um programa, clicar em algum objeto ou personagem na tela e poder obter, instantaneamente,
mais informações sobre ele. Teremos, enfim, uma televisão
personalizada e inteligente.
Veja E os home theaters?
Jacob Os home theaters
terão alto-falantes altamente direcionados, de tal forma que duas pessoas
poderão ver canais e ouvir músicas diferentes, simultaneamente,
no mesmo aparelho, cada uma com seu controle remoto. Através de efeitos
holográficos ou de imagens polarizadas, pessoas sentadas em ângulos
diferentes poderão ter áudio e imagens direcionados exclusivamente
para elas. Veja
Se celulares e outros equipamentos vão assumir o papel
de computadores pessoais, qual será o futuro dos notebooks?
Jacob Os notebooks já chegaram
ao que chamo de platô de produtividade. A tendência é que o
formato atual seja rapidamente transformado ou substituído por uma série
de instrumentos muito menores, mas com capacidade para executar as mesmas funções,
além de outras, como os já citados celulares e videogames.
Veja Quais
as vantagens desse acesso às tecnologias por vários meios?
Jacob Costumo dizer que a web recolocou
o homem no centro do universo. Hoje, a grande demanda, em termos de tecnologia,
é poder acessar e conectar pessoas, informações e entretenimento
a qualquer hora e em qualquer lugar. Junto com essa onipresença da tecnologia,
o que se pretende é que ela seja embarcada em aparelhos que possam estar
com o usuário o tempo todo. E, de preferência, que caibam no bolso
ou na bolsa.
Veja O senhor sustenta a profecia que
fez recentemente de que, dentro de no máximo três décadas,
o livro de papel será substituído pelo livro eletrônico ou
digital?
Jacob
Na década de 1980, quando eu dizia
que o disco de vinil ia acabar, quase era apedrejado. Pois dou minha cara a tapa
novamente: o livro em papel vai estar para o digital assim como o vinil está,
hoje, para o CD ou o DVD. O conceito de livro não desaparecerá,
mas você precisará comprar apenas um em toda a vida. O conteúdo
será todo colocado em um chip de memória ou na internet, assim como
ocorre hoje com os celulares. Já existem livros digitais apenas para ouvir,
que podem ser baixados em palmtops, celulares e iPods.
Veja O
que faz uma tecnologia "pegar" e outras não?
Jacob A boa tecnologia é a que
se traduz numa ferramenta que permite solucionar problemas ou criar situações
socioeconômicas, culturais e políticas desejáveis. Uma empresa
americana testou um telefone celular de papel feito com material biodegradável.
A idéia era que o usuário o utilizasse por uma ou duas horas, como
pré-pago, e o descartasse. Estudos de mercado revelaram, entretanto, que
um equipamento do gênero, pelo menos por enquanto, não é socialmente
aceitável. A tecnologia existe. Falta apenas viabilizá-la comercialmente.
Veja
Que fatores interferem na velocidade de viabilização
de uma nova tecnologia?
Jacob Vários, como a estratégia
de comunicação e, sobretudo, a aceitação do público.
A velocidade de percurso, do disparo da tecnologia até sua viabilização,
é diferente para cada produto. Em média, uma tecnologia que pega
se torna madura em cinco anos, sendo que as grandes tecnologias conseguem se viabilizar
com a metade desse tempo. O CD, por exemplo, demorou menos de dois para atingir
a maturidade comercial. Já o celular precisou de mais de cinco anos, pois
inicialmente era uma tecnologia muito cara. Alguns produtos, como o videofone,
talvez levem um século para se viabilizar. | |