Índice
Carta ao leitor
Cenários: As parcerias entre grandes empresas na disputa pelo mercado global
Entrevista: John Battelle, autor de um livro que disseca o Google
Celulares: Os modelos que fazem sucesso no mundo inteiro
Foto digital: Um guia para armazenar, compartilhar e imprimir suas imagens
Informática: Vem aí a próxima geração de processadores, de 64 bits
TV digital: O Brasil adota um padrão de alta definição semelhante ao japonês
Medicina: Os novos equipamentos que mostram detalhes milimétricos do corpo humano
Inteligência: Ela já chegou às roupas, aos carros e aos eletrodomésticos
Sem fio: Como funciona o WiMax, que permitirá acesso à internet de banda larga em cidades inteiras
Entrevista: Jean Paul Jacob, o futurólogo brasileiro da IBM
Games: Os novos jogos e máquinas que transformaram o entretenimento em arte
Tradução: O primeiro software que ouve uma frase em um idioma e a pronuncia em outro
Rádio: A transmissão digital chega ao Brasil e renova um velho meio de comunicação
MP3: Por que o iPod faz tanto sucesso com suas diferentes versões
Entrevista: Ted Nelson, o pai do hipertexto, critica a internet atual
Guia de produtos: Os lançamentos no mercado de eletrônicos deste fim de ano
Celulares
PDAs e smartphones
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Computadores
Periféricos
Impressoras e multifuncionais
Filmadoras
TV e home theater
DVDs
Tocadores de MP3
Aparelhos de som
Som do carro
Outros
 
 

O Google ainda vai dar confusão


Letícia Sorg

 

Noah Berger/AP

Battelle: "O índice de resultados de um nome no Google indica a importância que essa pessoa tem no mundo"

O jornalista americano John Battelle, um dos fundadores da revista Wired, lançou recentemente nos Estados Unidos o livro A Busca (Editora Campus), cujo subtítulo é: Como o Google e Seus Competidores Reinventaram os Negócios e Estão Transformando Nossas Vidas. Apesar da referência aos concorrentes, a obra é basicamente sobre o Google e como ele se transformou, de simples ferramenta para facilitar o trabalho na internet, em uma entidade capaz de influenciar a vida de pessoas e empresas com seu trunfo: o conhecimento, em primeira mão, de tudo o que usuários do planeta inteiro procuram na rede mundial. O sucesso do Google, seus planos de digitalizar livros e o uso que governos e empresas podem dar às informações sobre as pesquisas feitas na internet são os temas desta entrevista de Battelle a VEJA.  

Veja – Por que dedicar um livro todo aos mecanismos de busca?
Battelle – A história dos mecanismos de busca e da internet nos permite entender como nossa cultura está mudando em relação à rede e junto com ela. A pesquisa é o sistema cardiorrespiratório da internet e a base econômica que promove a fundação de milhares de negócios. E o mais fascinante é que isso é apenas o começo: nossa cultura está mudando drasticamente à medida que usamos essa ferramenta.

Veja – Em sua interpretação, por que o Google se tornou o grande vencedor, até agora, na disputa entre as ferramentas de busca?
Battelle – A empresa obteve sucesso porque, quando entrou no mercado, fez exatamente o contrário do que a maioria dos outros mecanismos estava fazendo. Criou apenas uma página com uma interface limpa e uma lista de resultados relevantes – que não faziam o usuário perder tempo nem tentavam mantê-lo em seu próprio site. Essa atitude era o que as pessoas procuravam, e isso atraiu um público fiel à marca da empresa. Depois, à medida que se tornou o primeiro, ficou cada vez mais fácil se distanciar dos outros, cada vez com mais público e, em conseqüência, mais lucros.  

Veja – O Google se tornou sinônimo de mecanismo de busca e conquistou fãs que nem consideram a possibilidade de testar concorrentes. Essa imagem positiva sobreviverá às comparações com grandes empresas muitas vezes demonizadas, como a Microsoft?
Battelle – Será um desafio para a empresa mover-se no mercado e manter sua boa imagem e seu valor. Eu acho que o Google vai passar por isso muito bem, embora toda grande empresa de tecnologia tenha seus altos e baixos. O projeto Google Library, cujo plano de longo prazo é indexar todos os livros existentes no planeta, por exemplo, está sendo motivo de processos.

Veja – Com a participação da editora que publicou seu livro...
Battelle – Sim, incluindo a minha própria editora. Pode ser controverso, mas o que o Google está tentando fazer é totalmente justificável dentro da visão que persegue, de tornar disponível todo e qualquer conteúdo. Claro que há questões de leis e direitos autorais e que tudo depende da negociação com as partes envolvidas. Hoje ninguém tem mais condições do que o Google de conduzir essa negociação. Mas esse não é o primeiro nem será o último conflito. Em termos de propriedade intelectual, ele necessariamente ainda se envolverá em um série de questões difíceis.

Veja – O Google alega que a digitalização de livros vai estimular as vendas.
Battelle – É a pura verdade. Não tenho nenhuma dúvida de que muitos livros serão vendidos. Pessoas vão procurar alguma coisa, encontrarão um livro que responde ao que precisam e vão comprá-lo.

Veja – Em seu livro, o senhor diz que é até estranho quando não se acha nada sobre uma pessoa ao fazer uma busca no Google. O total de resultados sobre um indivíduo pode ser considerado como uma medida de popularidade?
Battelle – Sem dúvida. Quem você é no índice do Google é quem você é no mundo. À medida que se acostumam a usar a internet, as pessoas cada vez mais fazem pesquisas sobre as outras, tanto nas relações profissionais quanto nas pessoais. É por isso que devemos nos preocupar com o que aparece quando pesquisamos nosso próprio nome. Registros públicos, notícias, relatórios de associações profissionais, genealogias e blogs são algumas das fontes abarcadas pelo sistema, que não julga se o que é mostrado é bom ou não para aquela pessoa, muito menos se as informações têm credibilidade. Com o amadurecimento desse sistema, essa tende a ser uma razão para enormes conflitos.  

Veja – É possível controlar as informações publicadas sobre si mesmo nos mecanismos de busca?
Battelle – É possível, mas isso exige entender como funciona o mecanismo para poder manipulá-lo, coisa que a maioria das pessoas não sabe fazer. Criar um blog ou uma página pessoal em que se pode dar uma versão de si mesmo que possivelmente vá ser o primeiro resultado de uma busca com seu nome é uma solução que será cada vez mais usada com a popularização desse tipo de ferramenta na internet.  

Veja – Qual sua opinião sobre ter a vida particular exposta na internet?
Battelle – Pessoalmente não tenho problemas porque acho que as informações a meu respeito são públicas. Mas vai começar a haver um debate sobre o assunto e, possivelmente, uma regulamentação. Certamente as pessoas querem sentir-se confortáveis quanto ao nível de informação disponível sobre elas num sistema aberto. Diante das vantagens trazidas pela internet, esse não é o maior dos problemas, mas já há bastante gente pensando a respeito.  

Veja – No Brasil, muitos usuários de sites de relacionamento como o Orkut estão abandonando o serviço por preocupações com a privacidade. Isso tem acontecido em outros países?
Battelle – O Orkut não teve uma febre de adesão igual à que houve no Brasil em nenhum outro lugar. É uma coisa espantosa. A questão da privacidade foi uma das maiores motivações para escrever o livro. Ainda não entendemos quais são os impactos do que fazemos na internet, que algo que façamos possa ficar na internet talvez para sempre, que é difícil apagar algumas de nossas pisadas. Assim que começarmos a fazê-lo, vamos criar regras de uso. Estamos apenas começando: é normal cometer erros.  

Veja – Seu livro aborda a aprovação, depois dos atentados de 11 setembro de 2001, do chamado Patriot Act, que permite ao governo dos Estados Unidos pedir a empresas informações sobre os usuários de seus serviços. Quais as conseqüências dessa lei?
Battelle – O problema é que ela permite abusos, uma vez que exige que as empresas dêem informações sigilosas de seus usuários sem que ninguém saiba que o fizeram. Temos, então, um sistema fechado sem exigências de abertura, o que é muito ruim. Esse tipo de abuso já foi hábito do governo americano. As pessoas simplesmente ignoram que um órgão de governo pode ter acesso ao que elas fazem on-line.  

Veja – Sergey Brin, um dos criadores do Google, negou que Washington tenha requisitado informações à empresa. Pode-se acreditar nessa negativa?
Battelle – Eu ficaria surpreso se o governo nunca tivesse feito esse tipo de pedido ao Google, possuindo o tipo de informação que tem. É realmente difícil tomar como verdadeira qualquer afirmação da empresa sobre isso.  

Veja – Em seu livro, o Google é comparado a uma espécie de banco de dados das intenções, o que significa que é possível descobrir os desejos das pessoas através dele. Como essas informações estão sendo ou serão usadas pelas empresas?
Battelle – Essa é uma das principais idéias do livro: quando utilizamos os sistemas de busca, navegamos pela internet, seja em um computador, seja em um aparelho portátil, e os dados que deixamos são graváveis e valiosos para um grande número de pessoas e instituições. As empresas ficam excitadas com a possibilidade de saber quais são nossos hábitos, o que procuramos, o que compramos, o que não encontramos. E isso é importante também para nós como usuários, porque permite às empresas criar serviços mais adequados aos nossos desejos. Nisso, porém, existe um problema potencial de privacidade que terá de ser discutido. E, infelizmente, nos Estados Unidos, isso vai ser feito com muitas brigas na Justiça.