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Google ainda vai dar confusão  Letícia
Sorg
Noah Berger/AP
 | Battelle:
"O índice de resultados de um nome no Google indica a importância
que essa pessoa tem no mundo" | O jornalista
americano John Battelle, um dos fundadores da revista Wired, lançou
recentemente nos Estados Unidos o livro A Busca (Editora Campus), cujo
subtítulo é: Como o Google e Seus Competidores Reinventaram os
Negócios e Estão Transformando Nossas Vidas. Apesar da referência
aos concorrentes, a obra é basicamente sobre o Google e como ele se transformou,
de simples ferramenta para facilitar o trabalho na internet, em uma entidade capaz
de influenciar a vida de pessoas e empresas com seu trunfo: o conhecimento, em
primeira mão, de tudo o que usuários do planeta inteiro procuram
na rede mundial. O sucesso do Google, seus planos de digitalizar livros e o uso
que governos e empresas podem dar às informações sobre as
pesquisas feitas na internet são os temas desta entrevista de Battelle
a VEJA. Veja Por que dedicar
um livro todo aos mecanismos de busca? Battelle A história
dos mecanismos de busca e da internet nos permite entender como nossa cultura
está mudando em relação à rede e junto com ela. A
pesquisa é o sistema cardiorrespiratório da internet e a base econômica
que promove a fundação de milhares de negócios. E o mais
fascinante é que isso é apenas o começo: nossa cultura está
mudando drasticamente à medida que usamos essa ferramenta. Veja
Em sua interpretação, por que o Google se tornou o
grande vencedor, até agora, na disputa entre as ferramentas de busca? Battelle
A empresa obteve sucesso porque, quando entrou no mercado, fez exatamente
o contrário do que a maioria dos outros mecanismos estava fazendo. Criou
apenas uma página com uma interface limpa e uma lista de resultados relevantes
que não faziam o usuário perder tempo nem tentavam mantê-lo
em seu próprio site. Essa atitude era o que as pessoas procuravam, e isso
atraiu um público fiel à marca da empresa. Depois, à medida
que se tornou o primeiro, ficou cada vez mais fácil se distanciar dos outros,
cada vez com mais público e, em conseqüência, mais lucros.
Veja O Google se tornou sinônimo
de mecanismo de busca e conquistou fãs que nem consideram a possibilidade
de testar concorrentes. Essa imagem positiva sobreviverá às comparações
com grandes empresas muitas vezes demonizadas, como a Microsoft? Battelle
Será um desafio para a empresa mover-se no mercado e manter
sua boa imagem e seu valor. Eu acho que o Google vai passar por isso muito bem,
embora toda grande empresa de tecnologia tenha seus altos e baixos. O projeto
Google Library, cujo plano de longo prazo é indexar todos os livros existentes
no planeta, por exemplo, está sendo motivo de processos. Veja
Com a participação da editora que publicou seu livro... Battelle
Sim, incluindo a minha própria editora. Pode ser controverso,
mas o que o Google está tentando fazer é totalmente justificável
dentro da visão que persegue, de tornar disponível todo e qualquer
conteúdo. Claro que há questões de leis e direitos autorais
e que tudo depende da negociação com as partes envolvidas. Hoje
ninguém tem mais condições do que o Google de conduzir essa
negociação. Mas esse não é o primeiro nem será
o último conflito. Em termos de propriedade intelectual, ele necessariamente
ainda se envolverá em um série de questões difíceis.
Veja O Google alega que a digitalização
de livros vai estimular as vendas. Battelle É a pura
verdade. Não tenho nenhuma dúvida de que muitos livros serão
vendidos. Pessoas vão procurar alguma coisa, encontrarão um livro
que responde ao que precisam e vão comprá-lo. Veja
Em seu livro, o senhor diz que é até estranho quando
não se acha nada sobre uma pessoa ao fazer uma busca no Google. O total
de resultados sobre um indivíduo pode ser considerado como uma medida de
popularidade? Battelle Sem dúvida. Quem você
é no índice do Google é quem você é no mundo.
À medida que se acostumam a usar a internet, as pessoas cada vez mais fazem
pesquisas sobre as outras, tanto nas relações profissionais quanto
nas pessoais. É por isso que devemos nos preocupar com o que aparece quando
pesquisamos nosso próprio nome. Registros públicos, notícias,
relatórios de associações profissionais, genealogias e blogs
são algumas das fontes abarcadas pelo sistema, que não julga se
o que é mostrado é bom ou não para aquela pessoa, muito menos
se as informações têm credibilidade. Com o amadurecimento
desse sistema, essa tende a ser uma razão para enormes conflitos.
Veja É possível
controlar as informações publicadas sobre si mesmo nos mecanismos
de busca? Battelle É possível, mas isso exige
entender como funciona o mecanismo para poder manipulá-lo, coisa que a
maioria das pessoas não sabe fazer. Criar um blog ou uma página
pessoal em que se pode dar uma versão de si mesmo que possivelmente vá
ser o primeiro resultado de uma busca com seu nome é uma solução
que será cada vez mais usada com a popularização desse tipo
de ferramenta na internet. Veja
Qual sua opinião sobre ter a vida particular exposta na internet? Battelle
Pessoalmente não tenho problemas porque acho que as informações
a meu respeito são públicas. Mas vai começar a haver um debate
sobre o assunto e, possivelmente, uma regulamentação. Certamente
as pessoas querem sentir-se confortáveis quanto ao nível de informação
disponível sobre elas num sistema aberto. Diante das vantagens trazidas
pela internet, esse não é o maior dos problemas, mas já há
bastante gente pensando a respeito. Veja
No Brasil, muitos usuários de sites de relacionamento como
o Orkut estão abandonando o serviço por preocupações
com a privacidade. Isso tem acontecido em outros países? Battelle
O Orkut não teve uma febre de adesão igual à que
houve no Brasil em nenhum outro lugar. É uma coisa espantosa. A questão
da privacidade foi uma das maiores motivações para escrever o livro.
Ainda não entendemos quais são os impactos do que fazemos na internet,
que algo que façamos possa ficar na internet talvez para sempre, que é
difícil apagar algumas de nossas pisadas. Assim que começarmos a
fazê-lo, vamos criar regras de uso. Estamos apenas começando: é
normal cometer erros. Veja
Seu livro aborda a aprovação, depois dos atentados de 11 setembro
de 2001, do chamado Patriot Act, que permite ao governo dos Estados Unidos pedir
a empresas informações sobre os usuários de seus serviços.
Quais as conseqüências dessa lei? Battelle O problema
é que ela permite abusos, uma vez que exige que as empresas dêem
informações sigilosas de seus usuários sem que ninguém
saiba que o fizeram. Temos, então, um sistema fechado sem exigências
de abertura, o que é muito ruim. Esse tipo de abuso já foi hábito
do governo americano. As pessoas simplesmente ignoram que um órgão
de governo pode ter acesso ao que elas fazem on-line. Veja
Sergey Brin, um dos criadores do Google, negou que Washington tenha
requisitado informações à empresa. Pode-se acreditar nessa
negativa? Battelle Eu ficaria surpreso se o governo nunca
tivesse feito esse tipo de pedido ao Google, possuindo o tipo de informação
que tem. É realmente difícil tomar como verdadeira qualquer afirmação
da empresa sobre isso. Veja
Em seu livro, o Google é comparado a uma espécie de banco de
dados das intenções, o que significa que é possível
descobrir os desejos das pessoas através dele. Como essas informações
estão sendo ou serão usadas pelas empresas? Battelle
Essa é uma das principais idéias do livro: quando utilizamos os
sistemas de busca, navegamos pela internet, seja em um computador, seja em um
aparelho portátil, e os dados que deixamos são graváveis
e valiosos para um grande número de pessoas e instituições.
As empresas ficam excitadas com a possibilidade de saber quais são nossos
hábitos, o que procuramos, o que compramos, o que não encontramos.
E isso é importante também para nós como usuários,
porque permite às empresas criar serviços mais adequados aos nossos
desejos. Nisso, porém, existe um problema potencial de privacidade que
terá de ser discutido. E, infelizmente, nos Estados Unidos, isso vai ser
feito com muitas brigas na Justiça. | |