| | Casamentos
digitais Disputa pelo mercado global leva gigantes da
tecnologia a se unir para oferecer produtos e serviços em comum
 Letícia
Sorg
Praticamente toda semana há alguma apresentação
bombástica feita por uma grande empresa de tecnologia, como o Google, a
Apple ou a Microsoft, de um novo produto ou serviço que promete revolucionar
o setor. De alguns meses para cá, outro tipo de anúncio tem tido
destaque: associações entre essas mesmas empresas. Gigantes como
Google e Sun, Microsoft e Palm ou Apple e Intel estão unindo forças
para produzir lançamentos em comum (veja quadro). Embora por enquanto
tenham provocado mais alvoroço no mercado de ações do que
no público, já que em alguns casos as intenções da
parceria não ficaram muito claras, é certo que esses casamentos
de conveniência terão em poucos anos um impacto direto na vida do
consumidor de tecnologia.
Montagem
sobre foto de Marcelo Tinoco
 |
Um
exemplo típico é a compra do Skype, o mais popular serviço
de voz pela internet (VoIP), pelo eBay, o site de leilões mais freqüentado
dos Estados Unidos. O valor pago 2,6 bilhões de dólares
foi considerado alto demais pelo mercado, que não vê como o eBay
pode obter retorno rápido do investimento. Fala-se em um aumento no número
de transações on-line caso vendedores e compradores possam conversar
entre si de graça, usando o Skype para fechar um negócio iniciado
pelo eBay. Essa vantagem é evidente, mas alguns analistas acham que o interesse
vai ainda mais longe. Embora o VoIP reduza drasticamente o custo das ligações
telefônicas, isso não significa necessariamente que as pessoas vão
gastar menos com telefonia. Pelo contrário, pode ser até que desembolsem
mais da mesma forma que as fotos digitais são muito mais baratas
que os antigos filmes de 36 poses e por isso se fotografa muito mais que no passado.
Pode estar aí o interesse do eBay na compra do Skype ao mesmo tempo
que oferece o serviço de voz pela internet, pode no futuro ser o intermediário
ideal entre o consumidor e os fabricantes de aparelhos e acessórios para
falar de graça, ou quase, pelo telefone.
Mas a motivação principal por trás das recentes parcerias
não é o interesse do consumidor, e sim a perspectiva de um mercado
global dominado por poucas empresas dentro de alguns anos. Na área de programas
de troca de mensagens instantâneas, o surgimento de um concorrente, o Google
Talk, levou Microsoft e Yahoo! a unir seus softwares, o MSN Messenger e o Yahoo!
Messenger. A vantagem para o usuário é que a união permitirá
ao adepto de um software conversar com o de outro sem ter de baixar e instalar
um programa a mais. O
futuro pode estar em meia dúzia de grandes companhias que atuem em áreas
totalmente diferentes, da fabricação de computadores a serviços
como busca pela internet. "Está ficando cada vez mais difícil delimitar
fronteiras. Negócios antes vistos como distintos agora são similares",
analisa David Schatsky, vice-presidente de pesquisa da consultoria especializada
em tecnologia JupiterResearch. "As empresas que não explorarem isso ficarão
para trás." Nessa corrida uma das líderes parece ser a Apple, que
anunciou em outubro lucros recordes em toda a sua história. A empresa de
Steve Jobs, que vende música pela internet e produz computadores e software,
é daquelas cuja atividade não pode ser descrita em poucas palavras.
"Acho que podemos definir o negócio da Apple em algum lugar entre entretenimento
e tecnologia", arrisca Fernando Del Granado, gerente de marketing da empresa para
a América Latina. "A
parceria entre as empresas significa mais funcionalidade acessível a vários
dispositivos", afirma Berthier Robeiro-Neto, diretor de engenharia do Centro de
Pesquisa e Desenvolvimento para a América Latina do Google. Um exemplo
é o da parceria entre a Palm e a Microsoft para o uso do programa Windows
Mobile nos PDAs Treo. Para os usuários, trata-se da união do computador
de mão mais avançado do mercado com o sistema operacional mais compatível
com outros aparelhos, como os PCs e smartphones. De certa forma, é a mão
invisível do mercado que ditará o futuro desses casamentos e dirá
se eles vingarão ou não. | |