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Paisagens amazônicas
Queimadas e devastação
Os índios e a sociedade

Em resumo
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Especial
O almanaque da selva
Curiosidades da região

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Mapa geral da Amazônia
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As riquezas da região
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Desmatamento (89-02)
O ritmo da devastação
O PIB e o desmatamento
Campeões de destruição
Como funciona o Sivam
A selva em obras
Reservas de madeira
As populações indígenas
Moradores da Amazônia
 

Sociedade
A lenta transformação
de povos únicos no mundo

Como vivem os moradores e as tribos amazônicas

A Amazônia tem 5 milhões de habitantes vivendo numa área de 5.032.925 km², a menor taxas de densidade demográfica do país. Mas a extensão da floresta reflete a grandiosidade da região e destaca a diferença entre sua população em relação aos moradores das outras partes do Brasil. Quem são essas pessoas que vivem num mundo pintado de verde? Fora das capitais amazônicas, a realidade dos povos é mesmo muito diferente. Se a preocupação de grande parte da população das metrópoles brasileiras é aprender inglês, na floresta, muitos não nem sequer português. Carros e estradas são substituídos por barcos e rios e os bens de consumo mais populares nas áreas urbanas demoram semanas para aparecer entre os ribeirinhos.

Os habitantes mais antigos da Amazônia estão integrados ao meio ambiente mas sofrem para conviver com a civilização que se impõe. Cresce o número de índios no país mas a preservação das culturas ainda é um desafio. Em 1500, quando os portugueses chegaram, estima-se que havia por aqui cerca de 6 milhões de índios. Nos anos 50, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, a população indígena brasileira estava entre 68.000 e 100.000 habitantes. Em 2002 já eram mais de 350.000 índios no país, a maior parte na Amazônia. A quantidade de dialetos falados nas tribos faz do Brasil um dos países com o maior número de línguas dentro de suas fronteiras. Outro detalhe que chama a atenção é que o país abriga alguns dos poucos grupos indígenas que ainda não fizeram contato sistemático com o homem branco. Na Amazônia, os antropólogos já identificaram 1.000 índios nessas condições. Um levantamento do governo mapeou 45 tribos vivendo isoladas.

A maioria dos povos, porém, já recebeu forte influência da cultura ocidental. Calcula-se que metade saiba comunicar-se em português e 100.000 estejam matriculados na escola. E muitos deles estão se adaptando ao capitalismo. A vida em algumas aldeias brasileiras está diferente graças ao dinheiro dos próprios índios, fruto de operações comerciais entre as aldeias e algumas empresas. Exemplos: a aldeia dos índios iauanauás, no Acre, ganhou um posto de saúde e um computador graças às vendas do urucum para a indústria de cosméticos americana Aveda, que usa a matéria-prima na fabricação de um batom especial. Os saterês-maués, no Amazonas, conseguiram construir uma pequena escola com a exportação do guaraná para a Comunidade Econômica Européia (CEE). Segundo um recente levantamento da Funai, houve na última década um aumento de 45% no número de tribos com pequenas indústrias instaladas.

ESTRATÉGIA DE MARKETING - Isso significa que existem 312 comunidades indígenas no país que manipulam matérias-primas para comercializá-las. Calcula-se que essa atividade gere algo como 4 milhões de reais em todo o Brasil e envolva 25% dos índios, que estariam sendo incentivados por organizações não governamentais a iniciar uma produção constante com base na vocação natural da aldeia. O outro empurrãozinho é dado por empresas, principalmente estrangeiras, que procuram produtos feitos pelos indígenas, para vendê-los sob uma forte estratégia de maketing. "As trocas comerciais não são uma novidade entre os índios. A diferença agora é o grau de organização na produção e na comercialização do produto", diz o antropólogo e indianista Carlos Alberto Ricardo. Mas o aumento das atividades comerciais dos índios não é unanimidade. A principal preocupação é a adaptação dos indígenas ao processo de escala industrial.

Na Amazônia, os rios são como o sangue que mantém a vida na região. Às suas margens, índios e caboclos nascem e morrem. Como Pedro Araújo Amaral, que nasceu a bordo de um barco carregado de farinha, viveu de pesca e morreu num povoado às margens do Rio Amapu, na Ilha de Marajó, de onde nunca saiu. Pedro teve sua primeira canoa aos 16 anos. Numa outra, a última, foi levado, enrolado em panos, para a sepultura, à beira do mesmo rio. O isolamento de quase 2.000 comunidades levou muitos serviços públicos e negócios a se adaptarem. Os correios vão de barco. As urnas eleitorais também. Artigos produzidos na Região Sudeste passam seis dias na estrada até chegar a Belém. Localidades como São Marcelino, no Amazonas, recebem em trinta dias produtos fabricados em outras regiões do país.

Praticamente tudo o que é produzido e consumido viaja de barco ou de navio. As grandes cidades ficam à margem dos rios, assim como a mais isolada casa de caboclo está assentada sobre palafitas. Milhares de habitações flutuam, construídas em cima de toras amarradas com cipó, formando um conjunto que muda de endereço, mais para cima ou mais para baixo, conforme o regime das cheias. Há pelo menos 1 milhão de barcos na Amazônia. Perto de 100.000 são registrados. Os outros navegam sem documento nem fiscalização numa rede de artérias fluviais que ninguém sabe precisar. Só de rios navegáveis para grandes barcos são 25.000 quilômetros - mais que o dobro das estradas existentes pavimentadas.

CARNE DE JACARÉ - O consumo de bens industrializados num mercado de milhões de pessoas é garantido pelos regatões, os barcos dos mascates fluviais. Calcula-se que haja mais de 10.000 deles espalhados pela região. Partem carregados das cidades maiores e vão se embrenhando na floresta, passando em cada casa de caboclo, em cada birosca, em cada aldeia de índios. Oferecem latarias, utensílios, mantimentos, pilhas e sabonetes. E recebem nas moedas de que se dispõe na mata: artesanato, carne de jacaré, peixe, frutas, madeira e peixes ornamentais. De vez em quando, também em reais. No fim de uma viagem de quinze dias, uma carga que custou 30.000 reais rende 7.000 de lucro para o dono do barco, depois de pagos os dois ajudantes, o cozinheiro e o óleo diesel. No meio da selva, uma bacia de plástico custa 30 reais, 1 quilo de café, 8 reais e um botijão de gás, 40 reais. "A gente sabe que eles cobram até três vezes o preço normal, mas é mais barato comprar do regatão do que viajar dois dias até a cidade", diz Jair Alves, que mora com os filhos e a mulher numa palafita no igarapé Mapatá, município de Chaves, a 72 horas de viagem da capital do Pará.

Uma característica dos regatões é a absoluta informalidade das operações de crédito. Quando sobem um rio, por exemplo, vão fazendo fiado em muitos dos negócios. Na descida, depois que o dono da bodega teve tempo de passar adiante parte dos produtos, recebem o pagamento. Para os ambulantes sobre as águas, algumas temporadas são melhores que outras. Na safra do açaí, por exemplo, ao lado dos botijões de gás, dos pentes e espelhos, vão também televisores, geladeiras e antenas parabólicas encomendadas pelas famílias que ganharam mais dinheiro. "Os ribeirinhos também gostam de novidade", conta o dono de regatão Roberto Figueiredo. "Por isso sempre levamos alguma coisa diferente." É assim que chegam ao coração da mata camisas feitas na Indonésia e calculadoras da China. Os porões de muitos desses barcos também carregam mercadorias ilegais. Animais silvestres e até cocaína melhoram a receita de muitos dos barqueiros, segundo funcionários de portos particulares. Tecnologicamente, os regatões têm a estrutura dos barcos que cruzavam a Amazônia quatro séculos atrás - mas com motor. Muitos não têm bússola e seus pilotos se orientam pelas estrelas e pela silhueta da floresta. Referências próprias da Amazônia.

 
     
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