Luiz Moyses perdeu
a mulher na tragédia da TAM. Na tragédia do
Aeroporto de Congonhas. Na tragédia do Airbus. Na tragédia
da Anac. Na tragédia da Infraero. Na tragédia
de Lula. Chame do jeito que quiser.
Luiz Moyses era
de Porto Alegre. Depois do acidente, a TAM o acomodou no Hotel
Blue Tree, em Moema, perto de Congonhas. Em 31 de agosto de
2007, à noite, ele estava no bar do hotel, acompanhado
por dois outros familiares de vítimas do Airbus. No
mesmo dia, ocorrera a abertura do III Congresso Nacional do
PT. Mais de 150 delegados do partido também estavam
hospedados no Hotel Blue Tree. O PT sempre se deu bem com
o Hotel Blue Tree. Um dos delegados petistas foi confraternizar
com Luiz Moyses, imaginando que ele fosse um correligionário.
Luiz Moyses repeliu-o dizendo que Lula era o culpado pela
morte de sua mulher. O delegado petista tentou agredi-lo.
Insultou-o. Disse que os parentes dos mortos da TAM estavam
chorando demais. O agressor só foi contido pelo deputado
baiano Joseph Bandeira e pelos guarda-costas do partido.
O próprio
Luiz Moyses relatou-me o episódio alguns meses atrás.
Nesta semana, à procura de uma imagem que sintetizasse
o ano, lembrei-me dele. Mais do que pelo acidente de Congonhas,
2007 ficará marcado pela bestialidade que deflagrou.
Da alegria indecente de Lula na posse de Nelson Jobim ao top,
top, top de Marco Aurélio Garcia quando o Jornal
Nacional falou sobre o reversor pifado, o Brasil desceu
mais uns degrauzinhos na escala de civilidade.
Em 2005 e 2006,
o conflito foi entre lulistas e antilulistas, entre achacadores
e achacados, entre quadrilheiros de um bando e de outro. 2007
foi pior: o conflito passou a ser mais essencial, mais primário,
entre a selvageria e a humanidade. Os fatos do Hotel Blue
Tree resumem idealmente o que aconteceu no país nos
últimos tempos. Num artigo pomposo como este, em que
se analisa o passado em busca de ensinamentos para o futuro,
cai bem citar um autor ilustre.
É kitsch,
mas cai bem. Pensando em Lula, em Marco Aurélio Garcia
e no agressor de Luiz Moyses, cito o autor mais manjado de
todos, Samuel Johnson: "A piedade não é
natural ao homem. Crianças são sempre cruéis.
Selvagens são sempre cruéis. A piedade é
adquirida e aperfeiçoada pelo cultivo da razão".
A mulher de Luiz
Moyses chamava-se Nádia. Foi sua primeira namorada.
Eram casados havia sete anos. Quando Nádia morreu,
Luiz Moyses vendeu sua empresa e mudou-se de Porto Alegre.
Atualmente, ele tenta reconstruir sua vida em outro lugar,
ao mesmo tempo que coordena as atividades do grupo de parentes
dos 199 mortos de Congonhas. Chegou a ser recebido por Lula
no Palácio do Planalto. Perguntou o motivo do descaso
do governo com a segurança nos aeroportos. Lula respondeu,
segundo ele, que "o povo brasileiro nunca pediu segurança,
pediu que modernizássemos os terminais". Lula
teria acrescentado que o Brasil "possui os melhores terminais
do mundo, com shopping center e tudo o mais".
O ano acabou. A
tragédia da TAM ficou para trás. Menos para
Luiz Moyses e todas as pessoas que perderam parentes ou amigos.
Eles continuam a buscar respostas para os acontecimentos daquele
fim de tarde de julho. Reúnem-se, confortam-se, trocam
mensagens. A última suspeita que circula entre eles
é que o piloto do Airbus teria pedido autorização
para aterrissar no Aeroporto de Guarulhos, mas tivera seu
pedido negado pelos controladores. Em 2007, o Brasil pediu
para aterrissar numa pista longa e segura, mas acabou numa
pista incerta e escorregadia, "com shopping center e
tudo o mais".