"Nos quatro dias em
que os saques do valerioduto
foram acompanhados por telefonemas entre José Dirceu
e Duda Mendonça, o advogado Kakay coincidentemente
também ligou para o chefe da Casa Civil"
Passei a semana escarafunchando
a agenda de telefones de José Dirceu. De novo? De novo.
Pode mudar de assunto? Nem a pau. O que pretende com isso?
Responder a uma ou duas perguntas. Quem ainda se importa com
essa história? Eu. E o julgamento no STF? A imprensa
tem de continuar a apurar os fatos, independentemente do Judiciário.
Como José Dirceu reagiu ao aparecimento da agenda?
Ele me acusou de ter usado o aparato do Estado Policial para
consegui-la. Usou mesmo? Usei uma rede secreta de recepcionistas
e secretárias. Ele está com medo? Espero que
sim.
A agenda é de 2003. Cruzei
seus dados sobre telefonemas com as planilhas elaboradas pela
CPI dos Correios. O primeiro semestre daquele ano foi marcado
pelos pagamentos de Marcos Valério a Duda Mendonça.
Na agenda, há o registro de oito telefonemas entre
José Dirceu e o publicitário que cuidou da campanha
presidencial. Dois deles precederam o período em que
ocorreram os pagamentos. Dos seis telefonemas restantes, quatro
repito: quatro foram realizados nos dias em
que se verificaram saques em favor de Duda Mendonça.
Entendeu? Pelo que consta da agenda, José Dirceu e
Duda Mendonça praticamente só tinham contato
nas datas em que o valerioduto liberava o dinheiro para este
último. Olhe só:
Em 26 de março,
David Rodrigues Alves, identificado pela CPI dos Correios
como uma das mulas de Duda Mendonça, sacou 300 000
reais do valerioduto. Naquele mesmo dia, Duda Mendonça
e José Dirceu trocaram uma chamada.
Em 28 de abril, outro
sacador de Duda Mendonça, Luis Carlos Costa Lara, retirou
mais 300 000 do Banco Rural. A agenda mostra que, às
12h47, José Dirceu e Duda Mendonça se telefonaram.
Em 30 de abril, aconteceram
dois saques. O primeiro, de 250.000 reais, foi feito pela
sócia de Duda Mendonça, Zilmar Fernandes. O
segundo, de 300 000, foi feito por outro homem do esquema,
Francisco de Assis Novaes Santos. Duda Mendonça, como
de costume, ligou para José Dirceu, às 13h34
daquele dia.
Em 13 de maio, David
Rodrigues Alves sacou mais 250 000 no Banco Rural. O ministro
e o publicitário se falaram antes do almoço.
Mas há outra bizarrice
envolvendo esse caso. Uma bizarrice que mereceria ser investigada
pelo Ministério Público, só para eliminar
qualquer dúvida. Nos quatro dias em que os saques do
valerioduto foram acompanhados por telefonemas entre José
Dirceu e Duda Mendonça, o advogado Kakay coincidentemente
também ligou para o chefe da Casa Civil. Em alguns
casos, os telefonemas aconteceram na seqüência
um do outro. Em 30 de abril, José Dirceu e Kakay se
falaram às 13h20. Poucos minutos depois, às
13h34, quem ligou para o ministro foi Duda Mendonça.
O mesmo padrão se repetiu em 13 de maio. José
Dirceu e Kakay conversaram às 10h30. Às 11h04,
foi a vez de Duda Mendonça. O que Duda Mendonça,
Kakay e Marcos Valério têm em comum? Os três
foram contratados por Daniel Dantas.
Em seu blog, José Dirceu
declarou que quero me vingar dele. Nada disso. Fui um dos
poucos colunistas que sempre atribuíram a responsabilidade
pelo valerioduto ao seu chefe, Lula. O cruzamento da agenda
de José Dirceu com os pagamentos no Banco Rural parece
indicar que o esquema foi utilizado, em primeiro lugar, para
pagar a campanha presidencial, e só depois contaminou
todo o resto.