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Elijah
Wood, como o hobbit Frodo: é dele a tarefa de destruir o anel
maligno e salvar a Terra Média |

Isabela Boscov
Essa é
nova: a Nova Zelândia agora tem um ministro de O Senhor dos Anéis.
Pode parecer piada, mas o trabalho de Pete Hodgson, que acumula a nova
pasta à de Ciência e Tecnologia, não é brincadeira.
Sua incumbência é transformar uma trilogia de filmes rodada
nas paisagens deslumbrantes de seu país em chamariz para o turismo
e investimentos estrangeiros. O Senhor dos Anéis, que reúne
os três volumes da saga publicada pelo inglês J.R.R. Tolkien
entre 1954 e 1955, é um assunto tratado com rigor não só
pelo governo neozelandês. É sério para a sua legião
de fãs, que já compraram mais de 150 milhões de exemplares
dos livros em todo o mundo. É sério para os descendentes
do escritor, que vivem uma crise por discordar da adaptação
de sua obra para o cinema. E é seriíssimo também
para o diretor neozelandês Peter Jackson, de 40 anos, que passou
os últimos quatro imerso na tarefa de transportar para as telas
o mundo imaginário de Tolkien. Jackson pode se sentir recompensado.
O primeiro capítulo da trilogia, O Senhor dos Anéis
A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship
of the Ring, Estados Unidos/Nova Zelândia, 2001), que estréia
em 1º de janeiro no Brasil, consegue aquilo que era tido como inalcançável:
honrar o universo de Tolkien e se sustentar sobre os próprios pés.
Desde já, o filme é candidato a destronar a série
Guerra nas Estrelas do posto de franquia mais rentável da
história.
Fotos divulgação
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vulgação
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| O
elfo Legolas mira os horríveis orcs (à dir.):
a produção mescla truques digitais a artesanias seculares
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A Sociedade
do Anel não é um filme perfeito, mas talvez seja o mais
próximo que se possa chegar disso com um material tão complexo
em jogo. Tolkien, que era professor de lingüística na Universidade
de Oxford, lançou em 1937 um livro infantil chamado O Hobbit.
O título se refere a uma espécie inventada pelo escritor,
de homenzinhos de 1 metro de altura e pés peludos. Os hobbits gostam
de cultivar a terra do seu condado e amam a boa mesa, mas têm aversão
ao imprevisto. A exceção é Bilbo Bolseiro que, incentivado
pelo mago Gandalf, se aventura pela Terra Média um mundo
no qual vivem povos como os imortais elfos e os medonhos orcs. No meio
do caminho, Bilbo se apodera de um anel de ouro que torna invisível
quem o usa. O Hobbit foi um sucesso, e Tolkien o sucedeu com a
trilogia. Mas mudou radicalmente de tom. O Senhor dos Anéis
nada tem de infantil. É o que se chama de uma saga heróica,
na linha dos mitos nórdicos. Nela revela-se que o anel é
o instrumento no qual o senhor das trevas, Sauron, concentrou toda a sua
malignidade. Para reconquistar a Terra Média, ele precisa reaver
seu tesouro e é a missão de Frodo, o jovem primo
de Bilbo, destruir o anel, levando-o até o inferno onde Sauron
mora. Todas as forças do mal se levantam contra Frodo. A seu lado,
ele tem os povos que ainda resistem às sombras. É a Sociedade
do Anel, formada pelo elfo Legolas, os homens Aragorn e Boromir, o anão
Gimli, o mago Gandalf e outros três hobbits.
Divulgação
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Reuters
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| Lee,
como o pérfido Saruman: igualzinho a Ahmed Yassin, líder
dos terroristas do grupo Hamas (à dir.)
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O que torna
O Senhor dos Anéis ímpar é a minúcia
com que Tolkien descreve a Terra Média. O autor detalhou seu relevo
em mapas, inventou espécies de árvores, elaborou toda a
sua história pregressa e criou línguas para seus povos.
Há fãs que falam élfico, e alguns deles foram recrutados
por Jackson para treinar os atores no idioma. Esse era o desafio do diretor:
materializar um mundo que muitos fãs conhecem melhor do que o seu
próprio e comprimir 1 200 páginas de história num
roteiro que fizesse sentido. Para tanto, Jackson comandou uma operação
de guerra a partir de seu quartel-general em Wellington, na Nova Zelândia.
Sua primeira decisão foi rodar os três filmes (os próximos
estréiam em 2002 e 2003) ao mesmo tempo, para extrair o máximo
dos 300 milhões de dólares bancados pela produtora New Line.
É uma montanha de dinheiro. "Mas ela seria duas vezes mais alta
se tivéssemos feito os filmes separadamente, ou em outro lugar
que não a Nova Zelândia", disse Jackson a VEJA.
A tarefa
de Jackson revelou-se, é óbvio, exaustiva. Mais de 100 locações
foram usadas em dezoito meses de filmagem, e convocaram-se 20.000
figurantes. Vários eram soldados neozelandeses, que receberam cursos
de arco-e-flecha. Hortas e jardins foram plantados com um ano de antecedência,
para parecer naturais. Enquanto alguns técnicos elaboravam softwares
capazes de comandar milhares de figuras numa mesma cena, outros tinham
de aprender a forjar espadas com técnicas medievais. De perspectivas
forçadas a miniaturizações em computador, bolaram-se
dezenas de truques para que os hobbits parecessem pequenos. O elenco também
está muito acima da média do habitual nesse tipo de produção.
Intérpretes como Ian McKellen, Viggo Mortensen, Elijah Wood e Cate
Blanchett tiram de letra a prosa formal de Tolkien e oferecem atuações
que vão do bom ao excelente. Há até uma coincidência
oportuna: Christopher Lee, que faz o pérfido mago Saruman, está
a cara de Ahmed Yassin, o líder do grupo terrorista islâmico
Hamas.
A equipe
de Jackson jura que nunca trabalhou tanto na vida mas frisa que
ninguém se esfalfou mais do que o diretor. O neozelandês
perdeu o pai e a mãe durante as filmagens. Esse fato, contudo,
não o deteve. Acabou cumprindo quase tudo aquilo a que se havia
proposto. Dos campos do Condado às cenas de batalhas, em que multidões
de orcs, elfos e homens se enfrentam, as imagens de A Sociedade do
Anel são estarrecedoras. Há seqüências arrepiantes,
como aquela em que a sociedade atravessa uma montanha por dentro. Nem
sempre, é verdade, Jackson consegue atingir a intensidade dramática
que a história pede. Certos trechos deixam a sensação
de que algo ficou faltando. Sorte dos espectadores que não conhecem
Tolkien: sem ter na memória as emoções provocadas
pelo livro, eles se empolgam com mais facilidade. E, sim, o enredo é
perfeitamente inteligível para quem nunca leu o autor.
A fantasia,
claro, não é um gênero de paladar universal, como
demonstra a polêmica que cerca a obra de Tolkien. Desde sua publicação,
ela conta com defensores ferrenhos como o poeta inglês W.H.
Auden e um número proporcional de pessoas que a consideram
insuportável. Mas não há como negar sua influência.
Tolkien, que morreu em 1973, não era só um conhecedor da
literatura nórdica. Era um católico devoto. Sua fé
tumultuou seu casamento, já que sua mulher nunca a abraçou
como ele esperava. Mas dirigiu também seus interesses e amizades
ele fundou um grupo de intelectuais católicos em Oxford
e converteu o amigo C.S. Lewis, autor de outra fantasia, Crônicas
de Narnia. Em seus escritos, Tolkien procurou conciliar o cristianismo
com seu oposto: o caráter pagão e animista dos velhos mitos.
O impacto foi inacreditável. De Guerra nas Estrelas aos
livros de Harry Potter, é seguro afirmar que a maior parte da fantasia
sobre as lutas entre o Bem e o Mal que se produziu nas últimas
décadas é filhote do escritor inglês. Agora, graças
ao empenho do diretor Peter Jackson, Tolkien está prestes a romper
a fronteira que lhe restava: a do cinema.
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O
que a Bíblia tem a ver com os orcs
Divulgação

J.R.R.
Tolkien: um intelectual entre o papismo fervoroso e os mitos
ancestrais
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Na
trilogia O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien apresentou
um mundo com sua própria história e geografia, com
línguas e seres especiais. Só faltou dar à
Terra Média uma religião. Não que Tolkien fosse
indiferente ao tema. Pelo contrário. Papista fervoroso, ele
afirmava que sua obra estava ancorada com firmeza na ortodoxia católica.
Como um mundo de elfos e orcs pode ser católico? Graças
à peculiar teoria dos mitos defendida pelo autor. "Nós
viemos de Deus, e os mitos que tecemos, ainda que contenham erros,
sempre refletem um fragmento da verdadeira luz", dizia ele. Todas
as sagas antigas conteriam esses "reflexos" e Tolkien procurava
harmonizar elementos retirados de vários textos ancestrais
em seus escritos. O autor arriscou uma versão do mito do
Gênesis em O Silmarillion, o mais pessoal de
seus livros. Aí, as ligações com a simbologia
cristã são explícitas. Mas ele optou por deixar
essas mesmas ligações ocultas em O Senhor dos Anéis,
embora tivesse uma idéia clara do ponto que as aventuras
de Frodo ocupariam na seqüência de eventos descrita pela
Bíblia: entre a expulsão de Adão e Eva
do paraíso e a vinda de Cristo. Esse Tolkien era para lá
da Terra Média.
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