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Diogo
Mainardi
Semana histórica
"Num dia,
Bin Laden elogiou Chomsky. No outro,
Renan recorreu a Gramsci. O que restava da
esquerda acabou. Depois desses dois
episódios,
ela nunca mais conseguirá se reerguer"
Fernando Gabeira
acertou um soco num senador. Melhor ainda: ele acertou um
soco num senador petista. Melhor ainda: ele acertou um soco
num dos senadores petistas que comandaram o banho de descarrego
em Renan Calheiros, na última quarta-feira. Epa! Se
é assim que funciona, eu também quero entrar
na briga.
O banho de descarrego
em Renan Calheiros deu certo. Ele saiu purificado do Congresso
Nacional. E nem precisou pagar o dízimo. Nós
é que pagaremos em seu lugar. O dízimo cobrado
pelos bispos petistas tem um nome: CPMF. Que continuará
sendo pago por crentes e descrentes, sacramentado por todos
os partidos.
Em sua defesa,
Renan Calheiros citou Antonio Gramsci, repetindo mais uma
vez o argumento de que a imprensa em particular VEJA
perseguiu-o a fim de desestabilizar Lula. Foi uma das
piores semanas de todos os tempos para a intelectualidade
de esquerda. Num dia, Osama bin Laden elogiou Noam Chomsky.
No outro, Renan Calheiros recorreu a Gramsci. O que restava
da esquerda acabou. Depois desses dois episódios, ela
nunca mais conseguirá se reerguer.
Renan Calheiros
intimidou os senadores prometendo denunciar seus pecados caso
eles insistissem em cassá-lo. Nosso papel, a partir
de agora, é descobrir os pecados de cada um deles.
Descobrir e dedurar. Quanto maior e mais escandaloso o pecado,
melhor. Mas defendo a necessidade de denunciar também
os pequenos pecados. Nem que seja só para aborrecer.
Estupidamente, acostumamo-nos a acreditar que, fora do horário
de trabalho, um político tem o direito de se comportar
como quiser. Renan Calheiros mostrou que isso é uma
tolice, porque um segredo de alcova, por mais ínfimo
que seja, sempre pode ser usado como instrumento de chantagem
contra a democracia.
Um dos senadores
achacados por Renan Calheiros foi Jefferson Péres,
que empregou a mulher em seu gabinete. Se isso é verdade,
Renan Calheiros está certo, Jefferson Péres
está errado. Pena que suas denúncias tenham
parado aí. Como reagiram os outros senadores durante
seu discurso? O que eles fizeram? Aloizio Mercadante olhou
para Patrícia Saboya? Ideli Salvatti pensou nas assessoras
de Sibá Machado? Romero Jucá refletiu sobre
o destino dos filhos fora do casamento? Edison Lobão
foi flagrado por um telefonema de sua mulher?
Quem mais tinha
a perder com a queda de Renan Calheiros nem era um senador,
e sim Lula. Tanto que ele mobilizou o PT para salvá-lo.
O acordo que une Lula a Renan Calheiros parece ser bem mais
profundo e temerário do que aquele entre um senador
e sua secretária. O acordo tem um aspecto público,
ao alcance de todos. Basta analisar o organograma de uma Eletronorte.
A dificuldade é tentar desmascarar o que acontece por
trás do organograma.
Depois do julgamento
no Supremo Tribunal Federal, eu disse que Lula seria lembrado
como o presidente dos mensaleiros. Depois do julgamento no
Senado, digo que seu legado será Renan Calheiros. Um
evento como o de quarta-feira dá uma canseira danada.
A gente acaba achando que nem adianta continuar a espernear.
Adianta, sim. Adianta para desfazer um monte de crendices
que ainda temos sobre o país. Adianta para consolidar
a imagem de uma época. Renan Calheiros passa. Lula
passa. A gente fica.
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