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Diogo
Mainardi
Tropa de Elite
é fichinha
"A platéia
torceu para o protagonista e, pelo que li,
aplaudiu as torturas praticadas pelos meganhas do
Bope. O fato gerou uma gritaria danada. Como se
os espectadores não soubessem distinguir a tortura
praticada nas telas da tortura praticada na realidade"
Wagner Moura reclamou
de mim. Foi um tal de fascista para cá, fascista para
lá. Tudo porque fiz um comentário despretensioso
sobre suas poses nos cartazes promocionais de Tropa de
Elite. Ele está certo em reclamar. Ninguém
pode julgar o trabalho de um ator baseado em meia dúzia
de fotografias. E era só isso que eu conhecia de Wagner
Moura: meia dúzia de fotografias estampadas nos jornais.
Na última
segunda-feira, com grande esforço, consegui me arrastar
até o cinema para assistir a Tropa de Elite.
Como um carro-patrulha da PM carioca, o filme demora um bocado
para carburar, mas acaba engrenando depois de uma hora. Wagner
Moura faz seu papel direitinho. Contrariamente ao que aparenta
nas fotografias, ele é contido, sereno, economizando
nas narinas arfantes e nos arqueios de sobrancelhas. Talvez
fosse o caso até mesmo de me desculpar.
Um dia depois de
assistir a Tropa de Elite, acompanhei as imagens bem
mais assustadoras de Jean Charles de Menezes em Londres, momentos
antes de ser assassinado pela polícia local com sete
tiros à queima-roupa, como se o metrô de Stockwell
fosse uma boca-de-fumo no Morro do Turano, no Rio de Janeiro.
Jean Charles passou pela roleta, caminhou por um corredor
cheio de gente e desceu pela escada rolante, sempre seguido
de perto por dois policiais identificados como Ken e Ivor.
Em seu depoimento no tribunal, Ivor declarou que o comportamento
de Jean Charles lhe pareceu suspeito. O que ele teria a dizer
a respeito do comportamento do deputado tucano Paulo Renato
Souza, que foi flagrado pela Folha de S.Paulo submetendo
um artigo sobre o sistema bancário ao presidente do
Bradesco?
A platéia
que assistiu à pré-estréia de Tropa
de Elite torceu para o protagonista e, pelo que li, aplaudiu
as torturas praticadas pelos meganhas do Bope. O fato gerou
uma gritaria danada. Como se os espectadores não soubessem
distinguir a tortura praticada nas telas da tortura praticada
na realidade. É desse jeito que o bom-mocismo instaura
sua censura: tratando os espectadores como imbecis, incapazes
de interpretar corretamente as idéias e as obras de
imaginação.
Bem pior do que
aplaudir as torturas praticadas por Wagner Moura em Tropa
de Elite é aplaudir as torturas praticadas em nome
de Renan Calheiros no Senado. É o que está acontecendo
comigo. Eu sei que é errado, mas aplaudo toda vez que,
em sua desavergonhada defesa de Renan Calheiros, Ideli Salvatti
aparece na TV como se estivesse com um saco plástico
enfiado na cabeça, sem ar, com a jugular inflada. E
aplaudo toda vez que Aloizio Mercadante esperneia como se
estivesse sendo ameaçado com um cabo de vassoura.
Wagner Moura disse
que o maior mérito de Tropa de Elite é
ter suscitado um debate. O maior quem sabe o único
mérito do filme é justamente o contrário:
ele acaba com o debate. O país é retratado como
aquilo que de fato é: uma guerra de bandido contra
bandido.
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