Edição 1956 . 17 de maio de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Auto-retrato
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Especial
A teimosia compensa

Dan Brown levou quatro livros para
alcançar a fama. Agora se prepara
para lançar um romance sobre a
maçonaria. O sucesso é inevitável


Jerônimo Teixeira

NESTA EDIÇÃO
O código de milhões
Entre a verdade e a ficção
Maria Madalena
Leonardo da Vinci
Opus Dei
O Priorado de Sião

EXCLUSIVO ON-LINE
Especial sobre o filme

Se é possível retirar alguma lição edificante da trajetória do americano Dan Brown, não será sobre o valor da leitura – uma vez que a pesquisa acadêmica em seus livros não é exatamente primorosa –, mas sobre a vitória da persistência. Antes que O Código Da Vinci começasse a colecionar números extraordinários (veja o quadro ao lado), o ex-músico e ex-professor escreveu três tentativas goradas de best-seller: Fortaleza Digital, Anjos & Demônios e Ponto de Impacto. As sociedades secretas e conspirações desses livros não conseguiram conquistar a massa dos leitores, mas Brown insistiu nos seus temas. Em 2003, ele finalmente acertou a fórmula: aos recursos de praxe, acrescentou um "segredo" religioso com vago teor herético e referências ao pop star da Renascença, Leonardo da Vinci. E assim emplacou um dos maiores fenômenos editoriais de todos os tempos – fenômeno que terminou por fazer com que seus lançamentos anteriores deixassem o limbo e se transformassem também em best-sellers.

Nascido em 1964, no estado de New Hampshire, Brown é filho de uma organista de igreja e de um professor de matemática da Academia Phillips Exeter, uma escola preparatória de elite. Antes de se consagrar como escritor, tentou seguir os passos dos pais na música e no magistério. Ao terminar a faculdade, por exemplo, radicou-se em Los Angeles, a fim de se aventurar na indústria fonográfica. Chegou a gravar alguns discos. Na letra de Birth of a King, uma de suas canções, há esse singelo trecho que parece prefigurar os museus labirínticos de Anjos & Demônios e O Código Da Vinci: "Você corre sozinho / Descendo por sinuosas escadas de mármore, / através de incontáveis aposentos".

Sensatamente, Brown concluiu que não fora talhado para a carreira musical. Por algum tempo, então, acomodou-se como professor secundário. Deu aulas de inglês na Phillips Exeter, a escola em que seu pai trabalhara. Foi enquanto lecionava que começou a criar seu primeiro romance, Fortaleza Digital. Em 1996, antes mesmo de obter uma editora para o livro, Brown decidiu que a literatura era sua vocação. Demitiu-se da escola para escrever em tempo integral. Seguiram-se mais dois títulos antes que O Código Da Vinci estourasse nos Estados Unidos, em 2003.

O Código Da Vinci seduz alguns leitores por seu verniz de informação histórica, mas esse não é o forte do autor. Brown passa muito longe da erudição do italiano Umberto Eco – um escritor com ampla formação acadêmica em semiologia, filosofia e estética e um especialista em Idade Média que congregou todo o seu saber para compor o best-seller O Nome da Rosa, uma história de detetive passada num mosteiro medieval que teve milhões de leitores na década de 80. O Código Da Vinci investe nas teorias mais fáceis, rápidas – e sensacionalistas.

O sucesso, claro, atrai seu próprio tipo de vicissitude. Recentemente, os historiadores esotéricos Michael Baigent e Richard Leigh processaram a editora inglesa de Brown sob a alegação de que O Código Da Vinci roubava achados seus, em especial o tema do casamento de Jesus e Maria Madalena. "Pela impressão que tive no julgamento, não creio que Brown tenha agido de má-fé. Ele não deu crédito ao nosso livro por ingenuidade. É um amador", disse Baigent a VEJA. A Justiça inglesa deu ganho de causa à Random House, editora de Brown. Apesar de desapontado, Baigent diz que não vai perder a adaptação cinematográfica de O Código Da Vinci. "Só vou precisar de um bom balde de pipoca", diz.

O processo movido por Baigent e Leigh foi o segundo sofrido por Brown – ele já havia vencido uma ação movida por outro escritor, Lewis Perdue. Quando se é um fenômeno desse calibre, sempre há alguém querendo abocanhar um pedaço. Ou tirar sua modesta casquinha. Uma verdadeira indústria paralela surgiu em torno do livro de Brown, com um festival de títulos em gerúndio: Quebrando, Decifrando, Revelando ou Desmascarando o Código Da Vinci. Alguns desses volumes são ataques de cristãos ofendidos pela tese do casamento de Jesus. Outros são apenas paráfrases e explicações para um livro que não precisa delas. A grande expectativa é saber se o próximo livro de Dan Brown será capaz de gerar a mesma repercussão. Com o provável título de A Chave de Salomão, o romance deve se passar em Washington, com uma trama que envolve a maçonaria. Em entrevistas, Brown deu a entender que o novo "código" vai se centrar não em um artista como Leonardo, mas em um músico. Mozart parece ser a aposta mais forte.

 





Fotos Mj Kim, Getty Images, Pascal Le Segretain/Getty Images, Rex Features e Christopher Furlong/Getty Images
 
 
 
topovoltar