|
|
Especial Opus
Dei A organização é uma seita
secreta, como O Código Da Vinci a apresenta?
Franco Origlia/Getty Images  | Divulgação
 |
UMA POLÊMICA
REAL Fundada em 1928 por Escrivá de Balaguer (na
foto à esq., com Álvaro del Portillo, à
esq., e seu atual líder, Javier Echevarría, à dir.),
a Opus Dei está sendo obrigada a se
tornar mais transparente por causa de O Código
Da Vinci. Mas nela não existem monges, como no filme (na foto à
dir., Paul Bettany no papel do albino Silas) |
O vilão de O Código
Da Vinci é um monge assassino a serviço da Opus Dei. A caracterização
do personagem já começa com um equívoco: a Opus Dei abriga
padres e leigos, mas não monges. Ainda assim, esse é o único
ponto do livro que incide sobre uma polêmica real, e não inventada.
A Opus Dei não é uma sociedade fantasiosa como o Priorado de Sião.
Ela congrega 84.000 membros no mundo todo, dos quais 1.700 estão no Brasil.
Graças a sua aura de segredo e a práticas como a autoflagelação,
ela se tornou a instituição mais controversa da Igreja Católica.
Fundada em 1928 pelo padre espanhol
Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975), a Opus Dei tem, desde
1982, o status único na Igreja de prelazia pessoal do papa: seus padres
não respondem aos bispos locais, mas ao prelado em Roma. Conseguiu esse
privilégio por causa do apoio incondicional ao papa João Paulo II,
na defesa dos dogmas e valores católicos ameaçados pela modernidade.
É também a única instituição da Igreja que
congrega padres e leigos lado a lado. A idéia de Escrivá
que foi canonizado em 2002 era que qualquer católico poderia ser
um santo no dia-a-dia, no exercício de sua profissão. Para tanto,
não se admite nenhum meio-termo na obediência às orientações
da Igreja. A prelazia é ortodoxa em sua condenação ao aborto
e ao sexo pré-matrimonial. O perfil típico de seu integrante é
um profissional com formação universitária. Embora a organização
não goste de ser caracterizada como tal, ela é uma espécie
de corpo de elite católico. É também uma força conservadora,
com contornos de direita. Na Espanha de Escrivá, vários de seus
membros foram ministros da ditadura de Francisco Franco.
As duas categorias fundamentais da organização são os numerários,
que moram em centros da Opus Dei, e os supernumerários, que somam 70% de
suas fileiras e vivem fora. Somente os numerários praticam o celibato e
se submetem à "mortificação corporal" práticas
que incluem o uso do cilício, cinta com pontas aplicada sobre a coxa, e
da disciplina, espécie de chicote de corda com que se golpeiam as costas
ou nádegas. Não é a autoflagelação sangrenta
que se vê em O Código Da Vinci (embora o próprio Escrivá
levasse a prática a extremos), mas é sem dúvida uma mostra
de devoção violenta. "A mortificação é psicologicamente
muito pesada. É algo que vai contra a natureza humana", diz o professor
de matemática da USP Antonio Carlos Brolezzi, ex-numerário e autor
de Memórias Sexuais no Opus Dei (Panda Books).
Como Brolezzi, muitos que deixam a Opus Dei fazem críticas duras ao clima
de repressão e obediência absoluta. Afirmam, por exemplo, que não
tinham pleno conhecimento da natureza radical do compromisso que estavam assumindo
ao entrar para a organização. "Essa falta de transparência
acabou prejudicando a própria Opus Dei", diz o jornalista americano John
Allen Jr., autor de Opus Dei Os Mitos e a Realidade (Campus/Elsevier).
Allen, porém, acredita que, por força das críticas, a organização
se encontra na contingência de ser mais aberta. Apesar dos exageros, o livro
O Código Da Vinci foi importante nesse ponto: "Hoje, só quem
passou os últimos anos escondido em uma caverna pode alegar que não
sabe das práticas da Opus Dei", diz Allen. |