Edição 1956 . 17 de maio de 2006

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Especial
Opus Dei

A organização é uma seita secreta,
como O Código Da Vinci a apresenta?


Franco Origlia/Getty Images
Divulgação
UMA POLÊMICA REAL
Fundada em 1928 por Escrivá de Balaguer (na foto à esq., com Álvaro del Portillo, à esq., e seu atual líder, Javier Echevarría, à dir.), a Opus
Dei está sendo obrigada a se tornar mais transparente por causa de O Código Da Vinci. Mas nela não existem monges, como no filme (na foto à dir., Paul Bettany no papel do albino Silas)

NESTA EDIÇÃO
O código de milhões
Entre a verdade e a ficção
Maria Madalena
Leonardo da Vinci
O Priorado de Sião
A teimosia compensa

EXCLUSIVO ON-LINE
Especial sobre o filme

O vilão de O Código Da Vinci é um monge assassino a serviço da Opus Dei. A caracterização do personagem já começa com um equívoco: a Opus Dei abriga padres e leigos, mas não monges. Ainda assim, esse é o único ponto do livro que incide sobre uma polêmica real, e não inventada. A Opus Dei não é uma sociedade fantasiosa como o Priorado de Sião. Ela congrega 84.000 membros no mundo todo, dos quais 1.700 estão no Brasil. Graças a sua aura de segredo e a práticas como a autoflagelação, ela se tornou a instituição mais controversa da Igreja Católica.

Fundada em 1928 pelo padre espanhol Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975), a Opus Dei tem, desde 1982, o status único na Igreja de prelazia pessoal do papa: seus padres não respondem aos bispos locais, mas ao prelado em Roma. Conseguiu esse privilégio por causa do apoio incondicional ao papa João Paulo II, na defesa dos dogmas e valores católicos ameaçados pela modernidade. É também a única instituição da Igreja que congrega padres e leigos lado a lado. A idéia de Escrivá – que foi canonizado em 2002 – era que qualquer católico poderia ser um santo no dia-a-dia, no exercício de sua profissão. Para tanto, não se admite nenhum meio-termo na obediência às orientações da Igreja. A prelazia é ortodoxa em sua condenação ao aborto e ao sexo pré-matrimonial. O perfil típico de seu integrante é um profissional com formação universitária. Embora a organização não goste de ser caracterizada como tal, ela é uma espécie de corpo de elite católico. É também uma força conservadora, com contornos de direita. Na Espanha de Escrivá, vários de seus membros foram ministros da ditadura de Francisco Franco.

As duas categorias fundamentais da organização são os numerários, que moram em centros da Opus Dei, e os supernumerários, que somam 70% de suas fileiras e vivem fora. Somente os numerários praticam o celibato e se submetem à "mortificação corporal" – práticas que incluem o uso do cilício, cinta com pontas aplicada sobre a coxa, e da disciplina, espécie de chicote de corda com que se golpeiam as costas ou nádegas. Não é a autoflagelação sangrenta que se vê em O Código Da Vinci (embora o próprio Escrivá levasse a prática a extremos), mas é sem dúvida uma mostra de devoção violenta. "A mortificação é psicologicamente muito pesada. É algo que vai contra a natureza humana", diz o professor de matemática da USP Antonio Carlos Brolezzi, ex-numerário e autor de Memórias Sexuais no Opus Dei (Panda Books).

Como Brolezzi, muitos que deixam a Opus Dei fazem críticas duras ao clima de repressão e obediência absoluta. Afirmam, por exemplo, que não tinham pleno conhecimento da natureza radical do compromisso que estavam assumindo ao entrar para a organização. "Essa falta de transparência acabou prejudicando a própria Opus Dei", diz o jornalista americano John Allen Jr., autor de Opus Dei – Os Mitos e a Realidade (Campus/Elsevier). Allen, porém, acredita que, por força das críticas, a organização se encontra na contingência de ser mais aberta. Apesar dos exageros, o livro O Código Da Vinci foi importante nesse ponto: "Hoje, só quem passou os últimos anos escondido em uma caverna pode alegar que não sabe das práticas da Opus Dei", diz Allen.

 
 
 
 
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