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Especial Maria
Madalena Existe algum indício real de que
Jesus e Maria Madalena tenham tido um relacionamento amoroso? Em uma palavra, não. A principal fonte sobre
a vida de Jesus são os Evangelhos canônicos, escritos por Lucas,
Marcos, João e Mateus. Em todos eles, Madalena está presente na
Crucificação. Nos de Lucas e Marcos, ela é mencionada também
como a mulher de quem Jesus expulsou sete demônios, e que se tornou uma
de suas seguidoras. O de Lucas dá ainda a entender que é Madalena
a jovem que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas, secou-os com
seus cabelos e ungiu-os com óleo episódio que passou à
tradição como prova de seus célebres pecados e subseqüente
arrependimento, e viria a batizar dezenas de instituições religiosas
que se dedicavam a pôr na linha jovens "perdidas". À parte essas
menções, porém, sua presença nos textos é um
bocado fortuita. Muitos pesquisadores, então, se voltam para os Evangelhos
Gnósticos (não reconhecidos pela Igreja), e em especial para o Evangelho
de Maria Madalena, do qual se descobriram fragmentos nos anos 1940.
Nesses escritos, ela aparece como a preferida de Jesus e a que melhor o compreende,
a ponto de incitar a inveja de Pedro. (Ou talvez sua irritação:
pelo que se depreende, Madalena era uma espécie de primeira aluna da classe,
sempre com a mão levantada para dar as respostas antes dos colegas.) No
texto, Jesus manifesta sua admiração por Madalena e a beija na boca
uma saudação que, no Oriente Médio da época,
era aceita mesmo entre homens e não serve como sugestão de preferência
carnal. É daí que vem a teoria de que Madalena, e não Pedro,
estava destinada a ser a fundadora da Igreja de Cristo. Uma teoria, é bom
frisar, menos baseada em pesquisa de qualidade do que inspirada pelo feminismo
beligerante da década de 1970. Na hipótese
remota de que um namoro como esse tivesse acontecido, por que ele não passou
à história? Uma das teses sustentadas por Dan Brown é que,
no século IV, o imperador Constantino armou uma grande conspiração
o Concílio de Nicéia para suprimir essas informações
e aquela, ainda mais explosiva, de que Jesus e Madalena teriam tido filhos. Na
verdade, Nicéia não foi um conluio à moda petista, como ele
pinta. Foi um dos mais complexos debates teológicos da história
do cristianismo. Ao determinar como o aspecto divino e o humano convivem em Cristo,
formou a base da doutrina cristã tal como é conhecida hoje. Nesse
processo de depuração, que já corria havia séculos,
muitos Evangelhos entre os quais o de Madalena foram rejeitados
ou esquecidos. De acordo com a americana Elaine Pagels, professora da Universidade
Princeton e uma das mais eminentes estudiosas de Madalena, essa supressão
provavelmente foi mais estratégica do que sexista. Madalena pertencia ao
gnosticismo, uma corrente que pregava um duro regime de iluminação
pessoal e a rejeição à hierarquia. Uma Igreja assim só
atrairia uns poucos caxias e nunca chegaria às massas e as massas
eram o objetivo dos apóstolos que prevaleceram.
Do ponto de vista apenas histórico, a idéia de um amor conjugal
entre Jesus e Madalena soa ainda mais frágil. Sabe-se que Jesus tratava
homens e mulheres como iguais, o que estarrecia seus seguidores. Numa passagem,
por exemplo, ele conversa longamente com uma mulher à beira de um poço.
Na Palestina do século I, representantes de sexos opostos não ficavam
de bate-papo em público. Sendo Jesus e Madalena solteiros (e ela, sem pai
ou irmão para vigiá-la), não haveria como esconder um romance
dos íntimos do Nazareno. Como os apóstolos anotaram a boa vontade
de Jesus para com as mulheres, apesar de não necessariamente aprová-la,
deve-se concluir que teriam registrado também uma ligação
afetiva dele com Madalena, se esta tivesse ocorrido. Os historiadores lembram
ainda que era algo previsível que a doutrina terminasse por apequenar o
papel das mulheres: o cristianismo nasceu do patriarcalismo judaico, e para ele
retornou assim que esses primeiros arroubos igualitários arrefeceram. Daí
também, por exemplo, a ênfase na virgindade de Maria e de
todas as demais Marias. Madalena só foi
eternizada como prostituta num sermão do papa Gregório, no século
VI. Em 1969, o Vaticano tentou reabilitá-la, riscando esse dado de sua
biografia, mas a moda não pegou. Embora Madalena tenha um papel crucial
no Novo Testamento é ela quem testemunha a ressurreição
de Jesus, o milagre que fez do cristianismo uma potência de 2.000 anos de
idade, em vez de uma seita esquecida , ela parece destinada a ser lembrada
sempre como a sedutora. Ou, pelo menos, como quer Dan Brown, uma sedutora mãe
de família. |