Edição 1956 . 17 de maio de 2006

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Especial
Maria Madalena

Existe algum indício real de que
Jesus e Maria Madalena tenham
tido um relacionamento amoroso?

NESTA EDIÇÃO
O código de milhões
Entre a verdade e a ficção
Leonardo da Vinci
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O Priorado de Sião
A teimosia compensa

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Em uma palavra, não. A principal fonte sobre a vida de Jesus são os Evangelhos canônicos, escritos por Lucas, Marcos, João e Mateus. Em todos eles, Madalena está presente na Crucificação. Nos de Lucas e Marcos, ela é mencionada também como a mulher de quem Jesus expulsou sete demônios, e que se tornou uma de suas seguidoras. O de Lucas dá ainda a entender que é Madalena a jovem que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas, secou-os com seus cabelos e ungiu-os com óleo – episódio que passou à tradição como prova de seus célebres pecados e subseqüente arrependimento, e viria a batizar dezenas de instituições religiosas que se dedicavam a pôr na linha jovens "perdidas". À parte essas menções, porém, sua presença nos textos é um bocado fortuita. Muitos pesquisadores, então, se voltam para os Evangelhos Gnósticos (não reconhecidos pela Igreja), e em especial para o Evangelho de Maria Madalena, do qual se descobriram fragmentos nos anos 1940.

Nesses escritos, ela aparece como a preferida de Jesus e a que melhor o compreende, a ponto de incitar a inveja de Pedro. (Ou talvez sua irritação: pelo que se depreende, Madalena era uma espécie de primeira aluna da classe, sempre com a mão levantada para dar as respostas antes dos colegas.) No texto, Jesus manifesta sua admiração por Madalena e a beija na boca – uma saudação que, no Oriente Médio da época, era aceita mesmo entre homens e não serve como sugestão de preferência carnal. É daí que vem a teoria de que Madalena, e não Pedro, estava destinada a ser a fundadora da Igreja de Cristo. Uma teoria, é bom frisar, menos baseada em pesquisa de qualidade do que inspirada pelo feminismo beligerante da década de 1970.

Na hipótese remota de que um namoro como esse tivesse acontecido, por que ele não passou à história? Uma das teses sustentadas por Dan Brown é que, no século IV, o imperador Constantino armou uma grande conspiração – o Concílio de Nicéia – para suprimir essas informações e aquela, ainda mais explosiva, de que Jesus e Madalena teriam tido filhos. Na verdade, Nicéia não foi um conluio à moda petista, como ele pinta. Foi um dos mais complexos debates teológicos da história do cristianismo. Ao determinar como o aspecto divino e o humano convivem em Cristo, formou a base da doutrina cristã tal como é conhecida hoje. Nesse processo de depuração, que já corria havia séculos, muitos Evangelhos – entre os quais o de Madalena – foram rejeitados ou esquecidos. De acordo com a americana Elaine Pagels, professora da Universidade Princeton e uma das mais eminentes estudiosas de Madalena, essa supressão provavelmente foi mais estratégica do que sexista. Madalena pertencia ao gnosticismo, uma corrente que pregava um duro regime de iluminação pessoal e a rejeição à hierarquia. Uma Igreja assim só atrairia uns poucos caxias e nunca chegaria às massas – e as massas eram o objetivo dos apóstolos que prevaleceram.

Do ponto de vista apenas histórico, a idéia de um amor conjugal entre Jesus e Madalena soa ainda mais frágil. Sabe-se que Jesus tratava homens e mulheres como iguais, o que estarrecia seus seguidores. Numa passagem, por exemplo, ele conversa longamente com uma mulher à beira de um poço. Na Palestina do século I, representantes de sexos opostos não ficavam de bate-papo em público. Sendo Jesus e Madalena solteiros (e ela, sem pai ou irmão para vigiá-la), não haveria como esconder um romance dos íntimos do Nazareno. Como os apóstolos anotaram a boa vontade de Jesus para com as mulheres, apesar de não necessariamente aprová-la, deve-se concluir que teriam registrado também uma ligação afetiva dele com Madalena, se esta tivesse ocorrido. Os historiadores lembram ainda que era algo previsível que a doutrina terminasse por apequenar o papel das mulheres: o cristianismo nasceu do patriarcalismo judaico, e para ele retornou assim que esses primeiros arroubos igualitários arrefeceram. Daí também, por exemplo, a ênfase na virgindade de Maria – e de todas as demais Marias.

Madalena só foi eternizada como prostituta num sermão do papa Gregório, no século VI. Em 1969, o Vaticano tentou reabilitá-la, riscando esse dado de sua biografia, mas a moda não pegou. Embora Madalena tenha um papel crucial no Novo Testamento – é ela quem testemunha a ressurreição de Jesus, o milagre que fez do cristianismo uma potência de 2.000 anos de idade, em vez de uma seita esquecida –, ela parece destinada a ser lembrada sempre como a sedutora. Ou, pelo menos, como quer Dan Brown, uma sedutora mãe de família.

 
 
 
 
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