Edição 1956 . 17 de maio de 2006

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Especial
Entre a verdade e a ficção

O (pouco) que pode ser levado a sério
em O Código Da Vinci e o (muito) que
não passa de invencionice

 

NESTA EDIÇÃO
O código de milhões
Maria Madalena
Leonardo da Vinci
Opus Dei
O Priorado de Sião
A teimosia compensa

EXCLUSIVO ON-LINE
Especial sobre o filme

Não há dúvida de que o clima de mistério, o tom conspiratório, o corre-corre e os personagens sinistros respondem por uma boa medida do sucesso de O Código Da Vinci. Mas a parte do leão nesse fenômeno pode ser reduzida a uma pergunta: será verdade? Desde a publicação do livro, em 2003, correm debates enfurecidos em todo o mundo, e entre todo tipo de gente, sobre a natureza real da ligação entre Jesus e Maria Madalena – e, com vigor apenas ligeiramente menor, também sobre as verdadeiras atividades da organização Opus Dei e sobre o papel de Leonardo Da Vinci nessa história toda. A seguir, VEJA esmiúça essas questões. Só uma delas ficará sem resposta: o que deu na cabeça de Tom Hanks, afinal, para usar o penteado que se vê nestas páginas?

 

A Santa Ceia

É possível que a figura à direita de Jesus
seja mesmo a de Maria Madalena?

Essa é a tese central de O Código Da Vinci e, segundo Dan Brown, a "prova" de que um pequeno número de pessoas, entre as quais Leonardo da Vinci, conhecia o "segredo" do relacionamento carnal entre Jesus e Madalena e dos filhos que dele nasceram. Mas essa teoria tão provocativa esbarra numa série de obstáculos. O primeiro deles é que na pintura renascentista era tradição representar João, o mais jovem dos doze discípulos, com aparência andrógina, quase feminina – e sempre à direita de Jesus, por ser seu favorito (ao menos de acordo com o testemunho do próprio evangelista). Dan Brown faz muito barulho também em torno da ausência de um cálice sobre a mesa. Uma das interpretações mais aceitas para a lenda do Santo Graal, ou Cálice Sagrado, é que ele seria a taça em que Jesus bebeu do vinho – ou, simbolicamente, de seu sangue – na Última Ceia. Brown argumenta que a ausência do cálice foi a forma que Leonardo encontrou para insinuar que não se tratava de um utensílio, e sim de Madalena: ela seria o receptáculo do sangue de Jesus, na forma do filho ou dos filhos que teve com ele. Novamente, o que se sabe sobre a arte da Renascença contradiz essa sugestão: o cálice está ausente também em algumas outras pinturas italianas anteriores à de Leonardo, já que o costume era enfatizar não a Eucaristia – a partilha do pão e do vinho –, mas o choque dos discípulos perante a afirmação de que um deles trairia Jesus.

 

Divulgação
A "PROVA" QUE NADA PROVA
Toda a trama de O Código Da Vinci repousa sobre a afirmação de que a figura representada à direita de Jesus no célebre afresco de Milão (visitado também no filme, por Hanks e Audrey) é a de Madalena, e não a do apóstolo João. Mas retratar João com suavidade quase feminina era uma tradição sólida da Renascença, seguida em dezenas de outras pinturas do período

Por esse mesmo raciocínio, é furada a teoria de que Jesus e Madalena se afastam de maneira a formar um V, ou um símbolo feminino, e que vistos em conjunto formam um M de matrimônio. Para os estudiosos, os apóstolos estão concentrados em pequenos grupos no afresco de Milão a fim de acentuar a desunião e a perplexidade causadas pela revelação de que havia um traidor em seu meio. Outro ponto decisivo, segundo O Código Da Vinci, é a mão "avulsa" que empunha uma adaga. No livro, isso é tratado como um simbolismo de que a verdadeira história de Madalena foi suprimida dos Evangelhos. Estudos em papel do afresco, no entanto, sugerem que Leonardo pensou em retratar o apóstolo Pedro no gesto de sacar da espada para defender Jesus do traidor (ainda incógnito naquele instante), conforme descreveu João em seu Evangelho.

 
 
 
 
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