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Especial Entre
a verdade e a ficção O (pouco)
que pode ser levado a sério em O Código Da Vinci e o
(muito) que não passa de invencionice
Não há dúvida
de que o clima de mistério, o tom conspiratório, o corre-corre e
os personagens sinistros respondem por uma boa medida do sucesso de O Código
Da Vinci. Mas a parte do leão nesse fenômeno pode ser reduzida
a uma pergunta: será verdade? Desde a publicação do
livro, em 2003, correm debates enfurecidos em todo o mundo, e entre todo tipo
de gente, sobre a natureza real da ligação entre Jesus e Maria Madalena
e, com vigor apenas ligeiramente menor, também sobre as verdadeiras
atividades da organização Opus Dei e sobre o papel de Leonardo Da
Vinci nessa história toda. A seguir, VEJA esmiúça essas questões.
Só uma delas ficará sem resposta: o que deu na cabeça de
Tom Hanks, afinal, para usar o penteado que se vê nestas páginas?
A Santa Ceia É
possível que a figura à direita de Jesus seja mesmo a de Maria
Madalena? Essa é a tese central de
O Código Da Vinci e, segundo Dan Brown, a "prova" de que um pequeno
número de pessoas, entre as quais Leonardo da Vinci, conhecia o "segredo"
do relacionamento carnal entre Jesus e Madalena e dos filhos que dele nasceram.
Mas essa teoria tão provocativa esbarra numa série de obstáculos.
O primeiro deles é que na pintura renascentista era tradição
representar João, o mais jovem dos doze discípulos, com aparência
andrógina, quase feminina e sempre à direita de Jesus, por
ser seu favorito (ao menos de acordo com o testemunho do próprio evangelista).
Dan Brown faz muito barulho também em torno da ausência de um cálice
sobre a mesa. Uma das interpretações mais aceitas para a lenda do
Santo Graal, ou Cálice Sagrado, é que ele seria a taça em
que Jesus bebeu do vinho ou, simbolicamente, de seu sangue na Última
Ceia. Brown argumenta que a ausência do cálice foi a forma que Leonardo
encontrou para insinuar que não se tratava de um utensílio, e sim
de Madalena: ela seria o receptáculo do sangue de Jesus, na forma do filho
ou dos filhos que teve com ele. Novamente, o que se sabe sobre a arte da Renascença
contradiz essa sugestão: o cálice está ausente também
em algumas outras pinturas italianas anteriores à de Leonardo, já
que o costume era enfatizar não a Eucaristia a partilha do pão
e do vinho , mas o choque dos discípulos perante a afirmação
de que um deles trairia Jesus. Divulgação
 | A
"PROVA" QUE NADA PROVA Toda a trama de O Código
Da Vinci repousa sobre a afirmação de que a figura representada
à direita de Jesus no célebre afresco de Milão (visitado
também no filme, por Hanks e Audrey) é a de Madalena, e não
a do apóstolo João. Mas retratar João com suavidade quase
feminina era uma tradição sólida da Renascença, seguida
em dezenas de outras pinturas do período |
Por esse mesmo raciocínio, é furada a teoria de que Jesus e Madalena
se afastam de maneira a formar um V, ou um símbolo feminino, e que vistos
em conjunto formam um M de matrimônio. Para os estudiosos, os apóstolos
estão concentrados em pequenos grupos no afresco de Milão a fim
de acentuar a desunião e a perplexidade causadas pela revelação
de que havia um traidor em seu meio. Outro ponto decisivo, segundo O Código
Da Vinci, é a mão "avulsa" que empunha uma adaga. No livro,
isso é tratado como um simbolismo de que a verdadeira história de
Madalena foi suprimida dos Evangelhos. Estudos em papel do afresco, no entanto,
sugerem que Leonardo pensou em retratar o apóstolo Pedro no gesto de sacar
da espada para defender Jesus do traidor (ainda incógnito naquele instante),
conforme descreveu João em seu Evangelho. |