"Na
lista de Época, tornei-me o emblema do que o país tem de pior.
O último desqualificado que mereceu um tratamento análogo por
parte de Época foi o caseiro Francenildo. Meu sigilo bancário
também foi violado?"
Época
publicou uma lista das 100 pessoas mais influentes do Brasil. Eu estou lá.
Eu e outros 99. Os outros 99 destacaram-se como "exemplos de força
moral". Só eu fui eleito por minha perniciosidade. Só eu me
notabilizei por infectar meu campo de trabalho. Tornei-me o emblema do que o país
tem de pior. O último desqualificado que mereceu um tratamento análogo
por parte de Época foi o caseiro Francenildo. Meu sigilo bancário
também foi violado?
Na lista
de Época, Lula é comparado a Getúlio Vargas, "o
brasileiro mais influente da história". Dilma Rousseff é "decidida,
racional, entusiasmada, companheira". Época é apartidária:
bajula à direita e à esquerda. José Serra aparece como um
"dos brasileiros mais preparados da atualidade, técnica e politicamente".
Sérgio Cabral "sempre sonhou com um Brasil melhor". José
Sarney é nosso "camisa 10". Fernando Henrique Cardoso é
festejado pelo "conteúdo social" de seu governo.
Além de mim, mais seis colunistas foram selecionados por Época.
Um deles é descrito como espirituoso, cáustico, douto. Outro é
virulento, culto, desencantado. De acordo com o perfil que acompanha meu nome,
eu sou o contrário disso tudo: deselegante no estilo e descompromissado
com os fundamentos do bom jornalismo, tenho "todas as características
que deveriam levar-me à irrelevância". Mas estarei "na
lista dos jornalistas mais barulhentos e mais comentados do país"
enquanto Lula permanecer no poder, por causa daqueles "que simplesmente abominam
o governo petista".
O perfil de
Lula foi assinado por Fernando Abrucio. O de Sérgio Cabral, por seu pai.
O de Abilio Diniz, por sua filha. O de Paulo Coelho, por seu biógrafo Fernando
Morais. O de Ivete Sangalo, por Gilberto Gil. O de Oscar Niemeyer, por Lula. As
100 pessoas mais influentes do Brasil foram retratadas por seus familiares ou
admiradores. No meu caso, aconteceu algo diferente. Época pediu
um artigo a meu respeito a Lucas Mendes, meu colega no Manhattan Connection.
O artigo, entregue na data combinada, foi elogiado por quem o encomendou. Na última
hora, porém, trocaram-no por outro, anônimo.
Paulo Nogueira, diretor editorial de Época, responsabilizou-se pela
lista. Se ele fez o meu perfil, eu também posso fazer o dele. De sua passagem
por VEJA, duas décadas atrás, ninguém consegue se lembrar.
Sabe-se apenas que, enquanto seus colegas eram promovidos, sua carreira empacava.
Hoje em dia, como eu, Paulo Nogueira tem uma coluna. A minha é publicada
em VEJA. A dele, na revista Criativa. Uma amostra de seu estilo elegante:
"Me pergunto se há coisa mais fascinante para uma mulher do que atrair
assovios de homens na rua". Uma amostra de sua sabedoria: "Somos escravos
da opinião dos outros. O importante é que você se respeite,
não que os outros o respeitem". A coluna de Paulo Nogueira é
chamada O Homem Sincero. Apesar de tanta sinceridade, ele esconde seu próprio
nome, identificando-se como Fabio Hernandez.
A lista de Época reflete um desejo difuso de ter uma imprensa domesticada,
subalterna, colaboracionista. O Homem Sincero corresponde perfeitamente ao papel.
Só lhe falta uma coisinha: leitores.