"No mesmo período em que, nos Estados
Unidos, a Microsoft introduzia o Windows, a Apple fazia o lançamento
do Macintosh e a Intel desenvolvia o 386, o Brasil, seguindo o caminho indicado
por Luciano Coutinho, decidia espontaneamente fabricar sucata na Zona
Franca de Manaus"
Luciano Coutinho é o
Mulá Omar brasileiro. Mulá Omar tentou deter o progresso e a modernidade
proibindo o uso de radinhos de pilha em Cabul. Luciano Coutinho fez o Brasil retroceder
no tempo ao implementar a reserva de mercado para a área de computadores
no governo de José Sarney, em meados da década de 1980. Dito de
outra maneira: no mesmo período em que, nos Estados Unidos, a Microsoft
introduzia o Windows, a Apple fazia o lançamento do Macintosh e a Intel
desenvolvia o 386, o Brasil, seguindo o caminho indicado por Luciano Coutinho,
decidia espontaneamente fabricar sucata tecnológica na Zona Franca de Manaus,
o Vale do Silício no tacacá.
No segundo mandato de Lula, Luciano Coutinho foi nomeado presidente do BNDES.
Ele tem o poder de determinar o rumo da economia do país, escolhendo onde
o governo aplicará boa parte de seu capital. Em 1997, com seu tapa-olho
da Cepal, com seu nacionalismo ciclópico, o Mulá Omar brasileiro
atacou a venda da Telebrás às operadoras estrangeiras, com o argumento
de que era melhor criar uma grande empresa nacional de telefonia. Agora, no BNDES,
ele terá a oportunidade de retroagir dez anos e participar com dinheiro
público na fusão de duas operadoras privadas, Oi e Brasil Telecom.
Em 1997, ele atacou também o processo de venda da Vale do Rio Doce. Agora
que o PT, no congresso realizado na última semana, resolveu apoiar oficialmente
o plebiscito para reestatizar a companhia, ele poderá colocar suas idéias
em prática.
Por que é que
estou dizendo tudo isso? Por causa dos 56.348 servidores que o governo pretende
contratar em 2008, a um custo de 3,4 bilhões de reais. Esse é o
dado bruto. Mas o que me interessa é o dado particular: o tipo de gente
que será contratada. Veja o caso do BNDES. Luciano Coutinho transformou-o
numa espécie de Zona Franca do lulismo. Há um diretor indicado por
Benedita da Silva, há outro diretor indicado pelo Bispo Crivella, há
o pessoal trazido pelo próprio Luciano Coutinho de uma reserva de mercado
da Unicamp. O BNDES está cheio de técnicos formados nas melhores
universidades do mundo. O patriotismo de Luciano Coutinho acabou prevalecendo,
e um departamento do banco foi entregue a um professor da Faculdade Esuda.
Luiz Gonzaga Belluzzo, colega de Luciano Coutinho e um dos responsáveis
pela política econômica de José Sarney aquela que presenteou
o país com uma inflação de 2.751% , também foi
convidado para ocupar um cargo no governo: presidente do conselho curador da TV
Pública. Ele é sócio da Carta Capital. Dá para
ser empresário da mídia e, ao mesmo tempo, controlar a TV estatal?
Quem mais? Romeu Tuma Júnior é o novo secretário nacional
de Justiça. Um de seus papéis será ajudar a rastrear o dinheiro
mantido ilegalmente fora do Brasil. Num depoimento à magistratura italiana,
um dos diretores da Telecom Italia considerou-o ligado a Daniel Dantas. O talibanismo
lulista é assim mesmo: cabem os amigos e os inimigos, cabem os membros
de uma tribo e de outra. Desde que o Brasil caminhe para trás.