"Sempre
ostentei a certeza inabalável de que todos os políticos eram
inteiramente vagabundos, irrecuperavelmente vagabundos, insofismavelmentevagabundos.
A idéia de que eles possam ser apenas meio vagabundos contraria
todo o meu sistema de valores"
Mônica Veloso está na capa da Playboy. No alto da página,
à altura de seu gogó, a menos de 10 centímetros de sua célebre
tatuagem de borboleta, destaca-se a seguinte frase dita por mim numa entrevista:
"Políticos são todos meio vagabundos".
Meio vagabundos? O que deu em mim? Estou perdendo o azedume? Estou perdendo o
discernimento? Sempre ostentei a certeza inabalável de que todos os políticos
eram inteiramente vagabundos, irrecuperavelmente vagabundos, insofismavelmente
vagabundos. A idéia de que eles possam ser apenas meio vagabundos contraria
todo o meu sistema de valores. Quem é meio vagabundo possui outra metade
que, em tese, pode ser um tantinho menos vagabunda. Isso atenta contra todas as
minhas crenças. Em teoria política, sou menos Tocqueville e mais
W.C. Fields, o maior de todos os pensadores da matéria.
A frase sobre a vagabundice dos políticos reproduzida pela Playboy se
referia a Lula. A quem mais poderia referir-se, tendo sido pronunciada por mim,
o mais conhecido lulófobo do planeta? Se eu considerasse os políticos
apenas meio vagabundos, conforme declarei à revista, teria caído
na mesma cilada de outros jornalistas e parajornalistas, que passaram os últimos
trinta anos alimentando o engodo de que Lula era diferente dos demais políticos.
Eu fiz o contrário: repeti o tempo todo que ele era igual a José
Sarney, a Fernando Collor, a Jader Barbalho, a Paulo Maluf, a Renan Calheiros.
O mesmo Renan Calheiros que, nas páginas da Playboy, aparece promiscuamente
ensanduichado entre mim, o lobista da Mendes Júnior e Mônica Veloso.
Sempre me arrependo de dar
entrevistas. Em primeiro lugar, porque tenho pouco a dizer. Em segundo lugar,
porque acabo piorando esse pouco, como no caso da frase sobre os políticos
meio vagabundos. Só dei a entrevista à Playboy para tentar
vender meia dúzia de cópias a mais de meu livro de crônicas
sobre as estripulias do lulismo. No livro, eu o cronista em primeira pessoa
represento o heróico papel de caçador. Lula é a caça.
Como caçador, meu desempenho é semelhante ao do vice-presidente
americano Dick Cheney, que, embriagado, acertou um tiro no rosto de um de seus
melhores amigos. Suponho que Dick Cheney recorde o episódio com carinho,
assim como eu recordo com carinho as estripulias lulistas.
Ainda há quem esteja disposto a se perverter em favor de Lula, como os
34 fascistóides que, na última quinta-feira, incendiaram cópias
de VEJA na frente da sede da Editora Abril, no Rio de Janeiro. Mas o que pode
acabar prevalecendo no Brasil, com um mínimo de sorte, é o conceito
radicalmente democrático de que precisamos incrementar os mecanismos de
alerta contra os políticos. Porque todos eles é um fato
são vagabundos.