"O pistoleiro José
Dirceu só vai revelar se atirou
em alguém, durante sua fase terrorista, depois dos
80 anos de idade. Quem sabe a gente consegue descobrir,
antes disso, o que ele fez no poder"
Eu sou "um pistoleiro
que Roberto Civita contratou para assassinar a honra das pessoas".
Quem declarou isso foi José Dirceu, na última
Playboy. Na verdade, em tantos anos de VEJA, só
falei uma vez com Roberto Civita, durante um encontro na Editora
Abril, em 2004. O assunto foi etimologia. Por outro lado,
falei repetidamente sobre José Dirceu com os investigadores
do caso Celso Daniel. Quando se trata de Celso Daniel, a primeira
imagem que me ocorre é a de pistoleiros contratados
para assassiná-lo. Contratados por quem?
José Dirceu,
na Playboy, apontou-me como o líder dos agitadores
"de todas as direitas do grande Brasil". Tenho dó das
direitas, seja lá quantas elas forem. Eu só
agito remédio contra tosse. José Dirceu, no
papel de agitador, sempre foi bem mais capaz e articulado
do que eu. Desde a tragédia em Congonhas, fico lembrando
o tempo todo como ele agitou os negócios da TAM, em
seu reinado na Casa Civil. Primeiro, tentou entregar-lhe a
Varig, por intermédio do representante do Banco Fator,
Luciano Coutinho, atual presidente do BNDES. Depois, avalizou
o acordo pelo qual as duas companhias passaram a compartilhar
os vôos. O acordo logo se refletiu nas contas da TAM.
No último ano do governo de Fernando Henrique Cardoso,
a TAM registrou um prejuízo de 605,7 milhões
de reais. No primeiro ano de Lula e José Dirceu, ela
apresentou lucro de 173,8 milhões de reais. Isso é
que é agitar.
Apesar de ter sido
indiciado como chefe dos mensaleiros e cassado pelo Congresso
Nacional, José Dirceu continua sendo o maior empregador
particular do governo. No segundo mandato de Lula, os dirceuzistas
ainda ocupam o mesmo espaço que no primeiro. O fato
de contar com tantos apadrinhados em cargos endinheirados
deve facilitar seu trabalho como lobista. Como ele mesmo disse
à Playboy, "no governo, quando eu dou um telefonema,
modéstia à parte, é um telefonema!".
Quanto pode representar, de modo geral, um gerente de negócios
de uma estatal? Quanto pode significar, modéstia à
parte, o presidente de um banco público?
José Dirceu
considera que há "o jornalismo marrom, o amarelo e
o jornalismo de Diogo Mainardi". Aparentemente, tornei-me
uma nova cor sou o Flicts da imprensa. Os comentários
de José Dirceu a meu respeito podem parecer uma briga
pessoal, que deveria ser resolvida no mano a mano: ele com
sua .22, usada para praticar assaltos na década de
1970, e eu com minha caneta, que ele definiu como uma arma.
Mas José Dirceu me elegeu como símbolo de algo
muito maior. Represento, segundo ele, a "imprensa partidária,
ideológica, engajada, com projeto político".
É sempre assim. Basta Lula ser apanhado em flagrante,
como no caso da barbárie aérea, para que seus
parceiros sugiram dar óleo de rícino aos jornalistas,
com o argumento de que eles manobram para derrubar o presidente
mais popular de todos os tempos.
O pistoleiro José
Dirceu só vai revelar se atirou em alguém, durante
sua fase terrorista, depois dos 80 anos de idade. Quem sabe
a gente consegue descobrir, antes disso, o que ele fez no
poder.