Tsotsi
Infância Roubada, de
Athol Fugard (tradução de Alvaro Hattnher e Bruno Gomide; Companhia
das Letras; 291 páginas; 46 reais) Nos anos 1960, o dramaturgo Athol
Fugard denunciou as abominações do apartheid sul-africano em peças
que lhe renderam a aclamação internacional, mas também a
censura em seu país. Tsotsi, seu único romance (cuja adaptação
para o cinema ganhou o Oscar de filme estrangeiro em 2006), aborda a violência
no gueto negro de Soweto nos anos 1950. O personagem-título é um
delinqüente que um dia, ao se ver com o bebê de uma das vítimas
nas mãos, passa a se autoquestionar. Mais que um libelo contra o regime
racista, Fugard examina como a barbárie corrói a personalidade dos
que estão imersos nela. O livro se completa com a peça Mestre
Harold ...E os Meninos.
Leia
trecho 1.
Houve um silêncio, como sempre acontecia mais ou menos na mesma hora,
um longo silêncio quando nenhum deles se mexia, a não ser para levantar
um copo e erguê-lo bem acima da cabeça para que as últimas
gotas lhe pingassem na boca aberta, ou para bocejar e se espreguiçar e
depois voltar a ficar largado sobre sua cadeira, quando um deles poderia se coçar,
e outro, pensar sobre a voz de uma mulher no quintal, a velha que estava ralhando
com alguém, o palavreado barulhento como pedras em uma lata, e todos eles,
cada um a seu tempo, olhando para a rua lá fora, e para as sombras, pensando
se não estariam ali há tempo suficiente. Não era um silêncio
proposital. Não havia razão para ele; a princípio era apenas
a pausa entre algo que fora dito e a observação seguinte, mas tinha
crescido muito porque, de repente, todos eles estavam sem nada para dizer. O silêncio
terminou, como sempre acontecia mais ou menos na mesma hora, quando o jovem, o
mais jovem dos quatro, aquele que havia falado menos, que tinha ficado sentado
lá e ouvido os outros três, aquele que chamavam de Tsotsi, inclinou-se
para a frente e juntou as mãos magras e delicadas, os dedos entrelaçados
como se fosse rezar. Os outros olharam para ele e esperaram. Antes
disso, o que se chamava Boston estivera contando sua história. Boston sempre
tinha uma história. Começou a contar logo depois do almoço
quando eles se reuniram no quarto de Tsotsi e se acomodaram com a primeira garrafa
de cerveja, e contou-a por muito tempo, quase até a hora em que as sombras
já estavam longas, e Tsotsi lhes disse o que iriam fazer naquela noite.
Falou lentamente, sem pressa, as palavras surgindo em um ritmo tranqüilo
entre os goles de cerveja, os arrotos, o incômodo de abrir outra garrafa
e as outras interrupções como sair do quarto e ir para o quintal,
apoiar-se na cerca de ferro ondulado e quente com um dos braços estendidos
e mijar na areia, e observá-la ficar ensopada e seca antes que a pessoa
saísse de lá. Ao voltar, ele queria saber onde tinha parado, às
vezes alguém lembrava, quase sempre ninguém ligava porque não
era relevante. Tudo que importava é que sua voz enchia a relutante última
hora de uma tarde arrastando-se pelo peso de mãos ociosas. Eles brincavam
com os copos, passavam a mão sobre os círculos molhados deixados
pelas garrafas de cerveja, transformando-os em estranhos desenhos sobre o tampo
da mesa, enquanto Boston, com um gesto que estava se tornando habitual, esfregava
os olhos com o polegar e o indicador da mão direita. Era difícil
não ter óculos. Os
outros dois, na maior parte do tempo, só ouviam. Die Aap, o "Macaco", assim
chamado por seus braços compridos - os nós de seus dedos pareciam
atrair a poeira -, ouvia atentamente cada palavra. Às vezes tinha algo
a dizer, ou fazia uma pergunta, e ele tinha muito trabalho para encontrar as palavras
e colocá-las juntas. O último dos quatro, que se chamava Butcher,
o "Açougueiro", tinha o corpo parecido com o de Tsotsi, flexível,
mas diferente em seus olhos pequenos e perigosos e seu lábio inferior caído.
Butcher também escutava, mas com impaciência. Por que todas aquelas
palavras? Suas histórias eram contadas com dez palavras ou menos. Mas não
havia mais nada a fazer, a não ser escutar. As
histórias de Boston não tinham a menor importância. A época
em que ele fez alguma coisa, onde fez, como, com quem... Um
vendedor ambulante com um carrinho passa pela rua lá fora. Eles vêem
a sombra muito tempo depois de o homem ter desaparecido. Ou
a época em que alguma coisa aconteceu e por que aconteceu, e como esse
acontecimento deu início a muitas outras coisas que se desdobraram uma
a uma, interminavelmente, na voz monótona e arrastada de Boston. Uma
janela na casa do outro lado da rua, que eles podem ver claramente através
de sua porta aberta, a janela incendeia-se com os reflexos da luz do sol. O vidro
deve estar abaixado. Não por muito tempo. Ou
aquele homem. Aquele estranho homem de um tempo que se foi e nunca mais voltou. A
velha está chacoalhando sua lata de palavras ásperas no quintal.
Uma criança chora. Butcher
muda de posição num acesso repentino de impaciência. Por
quê? Por quê? Die Aap está fazendo uma pergunta. Boston ri.
"Porque..." Outra garrafa sai de baixo da mesa. Eles enchem os copos. "Porque",
continua Boston, "por causa dessa bruaca. Ja,* cara. Ferrou o cara, foi o que
ela fez." <início
nota de rodapé> *Ja: em africânder, "sim". (N. T.) <fim da
nota> Aí
aconteceu a pausa, e depois mais que uma pausa porque também era o fim
da história e ninguém tinha mais nada para dizer, e eles ficaram
sentados durante muito tempo até que o mais jovem dos quatro, aquele que
chamavam de Tsotsi, até que de repente suas mãos estavam juntas
e os outros três estavam olhando para ele e esperando. Boston
sorriu, Butcher torceu-se em outro espasmo de impaciência e ódio
pelo homem silencioso, Die Aap esperou, impassível. Tsotsi
percebia tudo. O sorriso que escondia medo, os olhos que escondiam ódio,
o rosto que escondia nada. Em você eu posso confiar, disse para si mesmo,
olhando para Die Aap. Você eu nunca devo abandonar, e foi para Butcher que
ele olhou. E você, Boston. Você sorri para mim, e o seu sorriso esconde
medo. "O
que é, Tsotsi?", perguntou Boston. Ele encarou Tsotsi por alguns segundos,
mas, quando os músculos dos cantos de sua boca começaram a endurecer,
ele abaixou os olhos para seu copo vazio. "Ja.
O que é, cara?", perguntou Butcher. Die
Aap permaneceu em silêncio. "É
noite de sexta-feira", disse Tsotsi, e olhou pela porta aberta. As sombras estavam
bem longas. Logo estaria escuro. "Os
trens", continuou. "Vamos pegar um nos trens." Butcher
foi o primeiro a reagir. Ele sorriu e depois gargalhou, um som frio, afiado como
a lâmina de uma faca. "Ja, cara. Pegar um nos trens", disse. Mas
era Boston quem Tsotsi estava observando, e Boston sabia disso, e mantinha os
olhos baixos, sem enxergar o copo nas mãos. Mas mesmo assim Tsotsi podia
ver sua testa e aquilo era o suficiente, porque em muito pouco tempo a primeira
camada de suor estava brilhando ali. Die
Aap precisava de tempo. Ele repetiu o que Tsotsi tinha dito. "Os trens. Vamos
pegar um nos trens." Pensou a respeito, imaginou a cena, sua parte nela. Era simples.
Ele sabia tudo. Balançou a cabeça afirmativamente. "Ja." Isso era
tudo o que tinha a dizer. Boston
ergueu os olhos. Os três estavam olhando para ele agora. "Por
quê?", perguntou ele, e brincou nervosamente com o copo entre as mãos.
"Por
que não?" A voz de Tsotsi tinha certa aspereza. Boston
encolheu os ombros, tentou bocejar, mas não funcionou. Então suspirou,
como se estivesse entediado. "Às vezes a gente pega um e ele não
tem nada." Tsotsi
deixou-o esperando a resposta. "Eu nunca erro." Die
Aap confirmou com um movimento da cabeça. "É verdade. Nenhuma vez." Butcher
moveu-se com impaciência em sua cadeira. Por que toda a conversa? Ele gostava
da idéia. "Boa, cara. Ja, cara. É boa." Ele se levantou. "Vamos." Mas
Tsotsi ainda estava esperando Boston, ainda observando-o e seus olhos inquietos,
seus lábios secos e sua língua rosada quando ele tentou umedecê-los.
Boston não encontrou mais nada para dizer contra a idéia, nada que
eles entendessem ou talvez aceitassem. "Tá bom", disse ele, "tá
bom", então todos se levantaram e esperaram enquanto Tsotsi vestia o casaco,
e então seguiram-no para fora do quarto em direção à
rua. Die Aap em segundo, depois Boston, que estava dizendo "tá bom", dizendo
muitas vezes entre suspiros, bocejos forçados e indiferença exagerada,
e Butcher por último, porque ele havia tirado um raio de roda de bicicleta
de uma caixa em um canto do quarto. Essa era a razão de seu nome. Ele nunca
tinha errado. A
rua que pegaram era tão torta e disforme quanto as cercas de ferro ondulado
por onde passavam, e Tsotsi conduziu-os por um caminho que estava cheio de pedras,
olhos e dentes de cães. Era um fim de dia seco e empoeirado, mas ainda
havia luz quando eles saíram do quarto. Também estivera quente,
apesar da época do ano, e o subúrbio estava pesado naquele momento
em que se movimentavam, com esperança de nuvens negras no leste e pensamentos
sobre um mundo molhado. Era um momento de pausa, um momento lento entre o dia
longo e tudo que fora feito e tudo mais que ainda estava por vir com a noite mais
longa ainda, e o subúrbio usava aquela hora da mesma maneira que um mendigo
usa seus trapos, os rebotalhos de uma época melhor, aceitos mas sem gratidão,
usados sem orgulho. As crianças ficavam desanimadas porque não haveria
mais brincadeiras, as mulheres ocupadas viam-se de mãos vazias, os cães
ficavam por perto com patas desajeitadas, velhos que cochilavam sob o sol sentiam
o sol ir embora e acordavam, sentindo os corpos frios. Era um momento de atitudes
desanimadas, quando você chutava a poeira se tivesse brincado nela o dia
todo, ou ficava em pé e cuspia nela se tivesse dormido ali sob o sol. E,
depois de ter chutado, você simplesmente ficava em pé, ou, tendo
ficado em pé, você simplesmente esperava, como as mulheres com suas
mãos ociosas, e tentava não se ver nas outras posturas de inutilidade. Mas
o momento em que eles passavam, os quatro caminhando determinados pela rua, era
também um momento de pausa, e mais do que pausa, um momento de avaliação,
quando um vizinho sentia a falta de outro vizinho, porque os homens da desobstrução
haviam trabalhado na área e mais alguns telhados tinham sido derrubados,
e as paredes, sem portas e janelas, deixavam passar a luz do dia que se apagava,
como caveiras com velas em seu interior, e ainda era possível ver a poeira
acomodando-se no interior, ao mesmo tempo lembrando a incredulidade, a impotência
indignada, a confusão nos rostos que haviam seguido a carroça carregada
até em cima com pedaços de mobília; um momento de avaliação
também para o velho que era impelido pelo frio nos ossos a contar os dias
do passado e esperar pelo amanhã; um momento de avaliação
para as mulheres que faziam as contas do pouco dinheiro que seus homens iriam
trazer para casa em relação a suas muitas necessidades, ao mesmo
tempo gastando uma magra porção de esperança de que voltassem
em segurança, porque aquele dia tinha sido sexta-feira e à frente
estava a noite, e os quatro homens passando naquele momento eram os arautos da
noite, aquele momento já havia passado agora porque eles haviam passado,
e os quartos de repente ficaram cinzentos e frios, e as mães chamaram seus
filhos de volta das ruas onde as sombras estavam correndo como ratos atrás
dos quatro flautistas. E
Tsotsi sabia disso. Sabia não só como um fato tão grande
quanto os homens corajosos que se afastavam para deixá-lo passar, e o lojista
que se apressava a trancar as janelas e aferrolhar a porta, ou tão pequeno
quanto as crianças órfãs de pai e os sussurros de ódio
que percorriam rapidamente os becos; ele sabia também que tudo isso era
o que ele significava. A vida não lhe ensinara outro significado. Seu conhecimento
não possuía nenhuma margem de alegria. Era simplesmente da maneira
que devia ser, sentir nisso aquilo que os outros homens sentem quando vêem
o sol de manhã. Os homens grandes, os corajosos, afastavam-se quando ele
passava, o medo era em relação a ele, o ódio era dele. Ele
sabia que era. Sabia que estava lá, naquele momento, levando os outros
a pegar um nos trens. É
por isso que, ao passar na rua disforme, os homens desviavam o olhar e as lágrimas
das mulheres caíam na poeira. O
nome dele era Gumboot Dhlamini e ele fora escolhido. Mas quando soube era tarde
demais. Eles não lhe deram nenhum aviso. Gumboot
era homem. De sapatos, podia ser considerado alto entre os homens, mas mesmo descalço
em um dia do passado, com a barriga vazia e uma risada arrogante que soava a vastidão
de seu humor quando entrou na cidade, de forma que aqueles que o ouviram ergueram
os olhos e riram dele, mesmo nessa ocasião Gumboot estivera tão
alto quanto uma cabeça no céu. "Maxulu",
ele havia dito a milhares de quilômetros dali, em pé ao lado da estrada
com sua esposa, "Maxulu, eu vou voltar." O homem branco havia mostrado a estrada
até o local de Sabata como o caminho para a Cidade Dourada, então
ele começou a andar naquela direção. Sua mulher observou-o
parada durante muito tempo e, mais tarde, quando ficou cansada, porque estava
grávida, sentou-se na grama, e ele a viu dessa maneira até que a
estrada o levou a atravessar a colina, e ele passou a se lembrar dela assim desde
aquele momento. Ele
também havia perguntado ao homem branco quantos dias a viagem levaria,
e o homem branco havia dito que ele chegaria à cidade viajando dois dias
de carro, que, é claro, era mais rápido do que a pé. De toda
forma, ele começou a contar e, quando chegou a dez e não sabia mais
contar, fez uma marca em seu cajado. Dali em diante, ele fez uma marca em seu
cajado todas as vezes que contou até dez. Já havia uma boa quantidade
de marcas no cajado quando ele o quebrou matando a cobra e teve de jogá-lo
fora. Então parou de contar. O
clima estava quente quando ele deixou a esposa na margem da estrada, e sua barriga
estava cheia, mas com o tempo as noites ficaram mais frias, seu único cobertor,
mais fino, e houve dias de fome. Ele trabalhou uma vez, e com o dinheiro que ganhou
comprou um par de sapatos que carregava embrulhado em seu cobertor. Atravessava
dias de imenso silêncio, caminhando pela estrada com o interminável
veld, a planície sul-africana, estendendo-se até desaparecer da
vista em todos os lados, caminhando através das nuvens de poeira deixadas
pelos carros apressados, sempre em silêncio, muito solitário, mas
nunca sem esperança. Então, em um dos grandes dias do novo mundo
em que ele estava, o mundo de cor castanha, plano, ininterrupto, em um certo grande
dia, ao chegar em uma elevação ele viu os prédios da Cidade
Dourada na distância púrpura. E eles eram grandes, e naquele dia
Gumboot recuperou a voz, e riu, e novamente teve grandes esperanças, e
colocou os sapatos para o último dia de sua longa caminhada. Na
cidade ele conseguiu trabalho nas minas e um quarto em um dos subúrbios;
durante um ano viajou de um para o outro de manhã bem cedo, com uma multidão
de outros em trens lotados, para trabalhar, e de volta à noite, com a mesma
multidão nos mesmos trens, para dormir. Viajou em segurança durante
um ano porque prestava atenção nos conselhos dos outros, e naquele
mesmo ano ele trabalhou duro, ganhou bem e gastou os sapatos novos que havia comprado
na estrada, e mandou-os para o conserto, e então gastou-os mais uma vez
e mais uma vez e comprou um par novo. Em
alguns aspectos foi um ano curto, em outros foi longo, especialmente quando se
lembrava de Maxulu sentada ao lado da estrada, e ele conseguiu um homem que sabia
fazer palavras para lhe fazer uma carta que fosse para sua casa. E agora, por
fim, o ano estava quase acabado. Em uma semana, apenas mais uma semana de estar
em pé no começo de manhãs nebulosas, e trabalhar sob o solo,
ele iria voltar com o dinheiro que havia economizado. Maxulu ia ter de volta seu
homem da mesma maneira que ele havia partido, com sua risada ainda alta, suas
mãos que eram generosas em gestos de amor, e mesmo de sapatos, ainda tão
alto quanto a esperança. Mas
Gumboot era um homem, e isso tem um segundo significado. Tem a ver com morte e
a fragilidade até mesmo daqueles recipientes de barro que contêm
risadas, e que podem ser quebrados e toda a vida de um homem, derramada no pó.
Gumboot era esse homem também, nesse sentido, porque naquele trem noturno
da sexta-feira voltando para o subúrbio, uma semana antes de ir para casa,
Butcher estava atrás dele e Butcher sabia com precisão infalível
onde ficava o coração. Gumboot
cometera três erros. Primeiro, ele sorrira. Era porque havia uma fila comprida
na entrada da estação, entende, porque faltava apenas uma semana
para ir para casa e adiante dele estava um fim de semana sem ter que trabalhar
e um homem que ia passar em seu quarto para escrever uma carta para Maxulu dizendo
que ele ia voltar - era por causa do povo, seu povo (havia tantos que eram de
seu povo!): o cheiro desses outros homens, a impaciência deles para ir para
casa, alguns tristes, a maioria alegre; era por tudo isso que ele sorrira, e Tsotsi
reparou nele porque aquele sorriso era branco como a luz. Seu
segundo erro foi a gravata. Era vermelha flamejante, com relâmpagos prateados
brincando em seu peito, como aquelas tempestades ao pôr do sol que vira
quando garoto ao parar na longa viagem para casa com o gado depois de um dia nos
pastos da montanha, ao parar sob o céu fendido e tristonho para gritar
sua exultação para o mundo e ouvi-la ecoando lá embaixo nos
vales extensos e em seguida correr com medo quando o céu respondia e um
raio atingia a profundeza das montanhas. Ele havia comprado a gravata na hora
do almoço do ambulante indiano que puxava um carrinho com lenços,
contas, braceletes e coisas brilhantes para o portão da mina toda sexta-feira,
comprou simplesmente porque nunca tivera uma e com certeza iria impressionar Maxulu.
Mas era uma gravata brilhante e ficou fácil para Tsotsi segui-lo de longe
enquanto a fila se arrastava em suas milhares de pernas, como uma centopéia,
em direção à bilheteria. E
o terceiro erro. Ele comprou a passagem com o dinheiro de seu pagamento, que estava
embrulhado em um pequeno pacote. Naquele momento de entusiasmo, ele se esquecera
de um conselho fundamental para chegar em casa a salvo no trem da sexta-feira
à noite - não deixe ninguém ver o seu dinheiro. Afinal de
contas, por que lembrar o tolo conselho quando milhares de seu próprio
povo estavam a seu redor, pessoas que, como ele, eram homens honestos e que estavam
cuidando das próprias vidas, querendo chegar em casa de maneira rápida
e segura? Um ano inteiro e nunca tivera problema no trem das 5h49 (sempre dez
minutos atrasado) - e então ele se esqueceu de separar uma moeda quando
lhe entregaram o pagamento, e agora tinha que rasgar o pacote com pressa, porque
os outros atrás dele estavam com pressa, pelas risadas e xingamentos deles,
rasgar o pacote para encontrar uma moedinha no meio das notas. Correu
para a plataforma e esperou lá. Está vendo? Ele ainda estava vivo!
Mas Tsotsi se aproximava de seu homem, e quando o trem, o das 5h49 (sempre dez
minutos atrasado), parou na estação e a multidão lançou-se
na direção das portas, ele usou aquele momento para aproximar-se
de seu homem. E
agora no trem (ainda vivo!), apertado lá dentro com tantos quantos podiam
caber no vagão, indo para casa no meio de um cheiro de trabalho árduo
e fumaça de cigarro, os ouvidos tão cheios quanto o nariz com o
murmúrio baixo de vozes cansadas, ele próprio impaciente porque
o homem que ia escrever a carta iria passar em seu quarto às seis e meia
e ele ainda tinha que caminhar meia hora quando chegasse à estação,
e nesse meio-tempo pensando em Maxulu, depois na gravata, e vendo que ela estava
amassada pela pressa de entrar, querendo endireitá-la e descobrindo com
lenta surpresa que não conseguia mexer nenhum dos braços. Ele
não teve tempo de registrar o sentido completo daquele momento. Tentou
uma segunda vez, mas Die Aap era forte. Tsotsi
sorriu diante do espanto crescente no rosto daquele grande bastardo, esperando
e percebendo a explosão de escuridão em seus olhos quando Butcher
enterrava o raio para cima, enfiando-o no coração. E, quando isso
estava acontecendo, Tsotsi curvou-se sobre o homem agonizante e sussurrou-lhe
no ouvido uma referência obscena à sua mãe. Um momento de
ódio por fim, ele percebeu, desfigurou o rosto na morte. Die
Aap ainda estava com os braços firmemente presos ao redor da cintura do
homem. Quando o corpo começou a cair os outros três aproximaram-se
mais ainda e com a pressão combinada de seus corpos mantiveram-no erguido
- um movimento que sequer foi notado no vagão lotado. Boston, que estava
mais próximo, e com náuseas que lhe atravessavam o cérebro,
o coração e chegavam no estômago, foi Boston quem deslizou
a mão para dentro do bolso e tirou o pacote de dinheiro. Quando
o trem parou na estação, a multidão avançou para a
porta novamente, como acontecia toda noite, e os poucos na estação
que queriam ir mais para a frente na linha enfrentavam aquela torrente humana
para entrar nos vagões, como também acontecia todas as noites, mas
o trem das 5h49 (dez minutos atrasado) não partiu, como acontecia de vez
em quando nas noites de sexta-feira, porque os que ficaram para trás e
os poucos que entraram descobriram Gumboot Dhlamini e viram uma das extremidades
do raio de roda de bicicleta. |