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livros

O Pálido Olho Azul, de Louis Bayard (tradução de Lea P. Zylberlicht; Planeta; 429 páginas; 39,90 reais) – Edgar Allan Poe (1809-1849) foi um mestre do terror e das histórias de detetives. Em O Pálido Olho Azul, o americano Louis Bayard transforma-o em personagem de uma trama com a qual certamente Poe se identificaria. O escritor aparece na história como um cadete da academia militar de West Point (que ele de fato freqüentou) destacado para ajudar na investigação do assassinato de um colega que teve seu coração brutalmente arrancado. Colaborador de jornais como o New York Times e do site Salon, Bayard arrebata o leitor com uma reconstituição de época vívida e uma narrativa engenhosa.

Leia trecho

O último testamento de Gus Landor

19 de abril de 1831

Em duas ou três horas... bem, é difícil contar... em três horas, certamente, ou, no máximo, quatro horas... dentro de quatro horas, digamos assim, estarei morto.

Menciono isso porque situa as coisas sob determinada perspectiva. Meus dedos, por exemplo, tornaram-se interessantes para mim nos últimos tempos. Assim como a ripa inferior do biombo veneziano, um pouco torta. Do lado de fora da janela, uma glicínia se move no galho principal, balançando como num patíbulo. Nunca vira isso antes. Algo mais, também: neste instante, o passado voltou com toda a força do presente. Todas as pessoas que conviveram comigo, não vieram todas elas se juntar ao meu certo’?". Assim ficávamos rodeando até que um dia ele disse: "Mister Landor, virá um tempo em que sua alma volteará ao seu redor e à sua frente da maneira mais empírica possível — no exato momento em que o deixar. Você tentará agarrá-la, ah, em vão! Veja-a agora, desenvolvendo asas de águia, saltitando em ninhos de águias asiáticas".

Bem, ele era fantasioso daquela maneira, Gaudy, como você deve saber. Eu mesmo, sempre preferi os fatos à metafísica. Bons e sólidos fatos caseiros, uma sopa grossa que cozinhou o dia inteiro. São fatos e inferências que formarão a espinha dorsal desta história. Como formaram a espinha dorsal da minha vida.

Uma noite, um ano depois de minha aposentadoria, minha filha ouviu-me falando durante o sono — entrou para encontrar-me interrogando um suspeito morto havia vinte anos. Os fatos não se ajustam, eu continuava a dizer. O senhor percebe isso, mister Pierce. Esse indivíduo específico cortou o corpo de sua mulher e alimentou com as partes uma matilha de cães de guarda em um armazém de eletrodomésticos. No meu sonho, seus olhos estavam rosados de vergonha; ele estava abor recido por ter tomado meu tempo. Lembro-me de ter-lhe dito: Se não fosse o senhor, teria sido outra pessoa.

Bem, foi aquele sonho que me fez perceber: uma profissão nunca pode ser deixada para trás. Você pode escapulir dentro do Hudson Highlands, pode se esconder atrás de livros e criptogramas e bengalas... mas sua profissão chegará e o encontrará.

Eu podia ter corrido. Um pouco mais longe dentro da selva, podia ter feito isso. Como me deixei persuadir não sei dizer honestamente; no entanto, algumas vezes acredito que isso aconteceu — tudo isso — para que nos encontrássemos, ele e eu.

Mas não adianta especular. Tenho uma história para contar. E como aquelas vidas estavam, sob muitos aspectos, próximas a mim, deixei espaço, quando necessário, para outros oradores, sobretudo para o meu jovem amigo. Ele é o verdadeiro espírito por detrás desta história e, sempre que imagino quem será o primeiro a lê-la, ele é o único que se apresenta. Seus dedos acompanhando as linhas e colunas, seus olhos selecionando meus rabiscos. Oh, eu sei: não podemos escolher quem nos vai ler. Nada resta, então, a não ser o consolo de pensar no estranho — ainda não nascido, pelo que sei — que encontrará estas linhas. Para você, meu Leitor, eu dedico esta narrativa.

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E assim me tornei meu próprio leitor. Pela última vez. Quer colocar mais uma acha no fogo, por favor, Alderman Hunt?

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E assim recomeça.

 


 
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