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livros
Joel Saget/AP
Houellebecq: França tratada a pauladas 

A Possibilidade de uma Ilha, de Michel Houellebecq (tradução de André Telles; Record; 480 páginas; 49,90 reais) – Quando lançou Partículas Elementares, em 1998, Houellebecq deu uma boa sacudida na literatura francesa. E é irônico que ele hoje sustente praticamente sozinho a glória das letras francesas. A França, seus orgulhos e ilusões são desmontados a pauladas em seus livros. Aliás, não só a França, mas a humanidade em geral: Houellebecq é um cético furioso. Com mais de 300.000 exemplares vendidos em seu país de origem, A Possibilidade de uma Ilha narra a história de Daniel, um humorista amargurado que adere a uma seita que preconiza a clonagem como meio de chegar à vida eterna. A existência medíocre do Daniel "original" é comentada, com desencanto, por seus clones, em um futuro pós-nuclear.

Leia trecho

PRIMEIRA PARTE

Comentário de Daniel24

Daniel1,1

"Ora, que faz um rato acordado? Cafunga."
Jean-Didier – biólogo

Como permanecem presentes em minha memória os primeiros instantes de minha vocação de bufão! Eu tinha 17 anos e estava passando um mês de agosto meio morno num clube all inclusive na Turquia — aliás, foi a última vez que saí de férias com meus pais. A imbecil da minha irm㠗 ela tinha 13 anos na época — começava a se assanhar para todos os caras. Era no café-da-manhã; como todos os dias, formara-se uma fila pelos ovos mexidos, pelos quais os veranistas pareciam particularmente ávidos. Ao meu lado, uma velha inglesa (ressequida, má, do gênero que estraçalha raposas para decorar o living-room), que já se servira fartamente de ovos, raspou sem hesitar as três últimas salsichas restantes na bandeja metálica. Eram cinco para as onze; era o fim do serviço do café-da-manhã, parecia-me impensável o copeiro trazer novas salsichas. O alemão que estava na fila atrás dela congelou no lugar; seu garfo já esticado em direção a uma salsicha imobilizou- se a meia altura, o rubro da indignação cobriu-lhe o rosto. Era um alemão enorme, um colosso, mais de dois metros, no mínimo 150 quilos. Por um instante achei que ele ia enfiar o garfo nos olhos da octogenária, ou esganá- la e esmagar-lhe a cabeça sobre a bancada dos pratos quentes. Ela, sem ligar a mínima, com aquele egoísmo senil, inconsciente, dos anciãos, voltou trotando para sua mesa. O alemão se segurou, senti que se segurou o máximo que podia, mas seu semblante recobrou pouco a pouco a calma e ele foi tristemente, sem salsichas, juntar-se a seus congêneres.

A partir desse incidente, compus um pequeno esquete relatando uma revolta sangrenta num clube de férias, desencadeada por detalhes mínimos que contradiziam a fórmula all inclusive: uma escassez de salsichas no café-da-manhã, seguida por um extra a ser pago pelo minigolfe. Na mesma noite apresentei esse esquete no show "O senhor tem talento!" (uma noite por semana o espetáculo compunha-se de números produzidos pelos veranistas, que substituíam os animadores profissionais); eu interpretava todos os personagens, estreando assim no caminho

do one-man show, do qual na prática não sairia mais ao longo de toda a minha carreira. Quase todo mundo ia ao espetáculo de depois do jantar, não havia grandes merdas para se fazer até a abertura da discoteca; isso já dava um público de oitocentas pessoas. Meu show obteve grande sucesso, muitos riam até as lágrimas e houve aplausos calorosos. Na mesma noite, na discoteca, uma bonita morena chamada Sylvie me disse que eu a fizera rir bastante e que apreciava meninos com senso de humor.

Querida Sylvie. Foi assim que perdi minha virgindade, e que minha vocação se decidiu.

Após o segundo grau, entrei em um curso de atores; seguiram-se anos pouco gloriosos durante os quais fui ficando cada vez mais cruel e, por conseguinte, cada vez mais cáustico; o sucesso, nessas condições, acabou chegando — com uma amplitude que surpreendeu inclusive a mim. Começara com pequenos esquetes sobre as famílias recompostas, os jornalistas do Le Monde, a mediocridade da classe média em geral — me saía muito bem com as tentações incestuosas dos intelectuais em meio de carreira diante de filhas ou enteadas de umbigo de fora e o fio da calcinha aparecendo. Em suma, eu era um observador arguto da realidade contemporânea; chegavam a me comparar a Pierre Desproges. Ao mesmo tempo que continuava a me dedicar ao one-man show, aceitei eventuais convites de programas de televisão, que eu escolhia pela grande audiência e mediocridade geral. Nunca deixei de apontar essa mediocridade, ainda que sutilmente: era preciso que o apresentador se sentisse minimamente em perigo, mas não muito. Em suma, eu era um bom profissional; apenas um pouquinho fabricado. Não era o único.

Não quero dizer que meus esquetes não eram engraçados; engraçados, eram. Eu era, de fato, um observador arguto da realidade contemporânea; simplesmente me parecia elementar o fato de que restavam muito poucas coisas a serem observadas na realidade contemporânea: havíamos simplificado, podado, rompido quase todas as barreiras, tabus, esperanças equivocadas, aspirações falsas; restava muito pouco mesmo. No plano social havia os ricos, havia os pobres, com algumas frágeis passarelas — o elevador social, assunto sobre o qual convinha ironizar; a possibilidade mais grave era arruinar-se. No plano sexual havia os que inspiravam desejo e os que não inspiravam nenhum: mecanismo exíguo, com algumas complicações de modalidade (a homossexualidade etc.), de toda forma facilmente resumível à vaidade e à competição narcísica, já bem descritas pelos moralistas franceses três séculos antes. Havia, claro, por outro lado, gente honesta, os que trabalham, que operam a produção efetiva dos gêneros alimentícios, os que — de maneira algo cômica, ou patética se quiserem (mas eu era, acima de tudo, um cômico) — sacrificam-se por seus filhos; os que não possuem nem beleza nem juventude, nem ambição mais tarde, nem riqueza jamais; que aderem porém do fundo do coração — sendo inclusive os primeiros, com mais sinceridade que qualquer um — aos valores da beleza, da juventude, da riqueza, da ambição e do sexo; os que formam, de certa maneira, a liga do molho. Estes não podiam, sinto pena em dizer, constituir um assunto. Introduzi alguns deles em meus esquetes para imprimir diversidade, efeito de real; mesmo assim estava começando a ficar realmente cansado. O pior é que eu era considerado um humanista; um humanista mordaz decerto, mas um humanista. Eis, para situar, uma das piadas que enfeitavam meus espetáculos:

"Sabe como se chama a gordura em torno da vagina?

—Não.

—Mulher."

Coisa estranha, eu chegava a formular esse tipo de coisa sem parar de ter boas críticas na Elle e na Télérama; é verdade que a chegada dos cômicos magrebinos tinha revalidado os deslizes machistas, e eu deslizava literalmente com graça: lançamento dos esquis, retomada, tudo sob controle. Enfim, o maior benefício da profissão de humorista, e mais genericamente da atitude humorística na vida, é poder comportar-se como um patife com toda a impunidade, inclusive lucrando gordamente com sua abjeção, tanto em sucessos sexuais como em numerário, o conjunto recebendo a aprovação geral.

Na verdade, meu suposto humanismo repousava em bases bem tênues: uma vaga piada sobre os ruralistas e uma alusão aos cadáveres dos clandestinos negros jogados na costa espanhola bastaram para me conferir reputação de homem de esquerda e defensor dos direitos humanos. Homem de esquerda, eu? Ocasionalmente introduzira em meus esquetes alguns terceiro-mundistas, vagamente jovens, sem lhes dar papéis explicitamente antipáticos; ocasionalmente cedera a certa demagogia: eu era, repito, um bom profissional. Por outro lado, tinha cara de árabe, o que facilita; o único conteúdo residual da esquerda naqueles anos era o anti-racismo, ou, mais exatamente, o racismo antibrancos. Aliás, eu não entendia muito bem de onde me vinha a aparência árabe, cada vez mais característica com o passar dos anos: minha mãe era de origem espanhola e meu pai, ao que eu saiba, bretão. Minha irmã, por exemplo, a putinha, tinha indiscutivelmente o tipo mediterrâneo, mas não era metade trigueira como eu, e seus cabelos eram lisos. Poderiam perguntar: minha mãe teria sido de uma fidelidade escrupulosa? Ou eu tinha como genitor um Mustafá qualquer? Ou ainda — outra hipótese — um judeu? Fuck with that: os árabes compareciam em massa aos meus espetáculos — aliás, os judeus também, embora um pouco menos; e toda essa gente pagava inteira. Ficamos preocupados com as circunstâncias da nossa morte; já com as circunstâncias do nosso nascimento, é mais duvidoso.

Quanto aos direitos humanos, evidentemente, eu estava cagando para isso; mal conseguia me interessar pelos direitos do meu rabo.

Nesse domínio, a seqüência da minha carreira confirmou pouco a pouco meu primeiro sucesso no clube de férias. As mulheres em geral carecem de humor, razão pela qual o consideram parte dos atributos viris; não me faltaram oportunidades de inserir meu órgão nos orifícios adequados ao longo da minha carreira. Na verdade, esses coitos nada tiveram de assombroso: as mulheres que se interessam pelos cômicos são geralmente um pouco mais velhas, beirando os 40, que começam a perceber que o negócio vai começar a mudar para pior. Umas tinham um rabo grande demais, outras, seios em forma de luva higiênica, às vezes ambas as coisas. Não tinham, em suma, nada que falasse ao pau; por outro lado, quando a ereção diminui, elas passam a se interessar menos. Tampouco eram velhas demais; eu sabia que no limiar dos 50 elas voltariam a procurar coisas falsas, tranqüilizadoras e fáceis — que, por sinal, não encontrariam. Nesse ínterim, eu não podia senão lhes confirmar — bem involuntariamente, creiam-me, nunca é agradável — a queda do valor erótico delas; não podia senão confirmar suas primeiras suspeitas, instilar-lhes à minha revelia uma visão desesperada da vida: não, não era a maturidade que as esperava, mas simplesmente a velhice; não era um novo desabrochar que estava no fim do caminho, mas uma soma de frustrações e sofrimentos a princípio mínimos, logo depois insustentáveis; não era muito saudável tudo isso, não era muito saudável. A vida começa aos 50, é verdade; a não ser que termine aos 40.


 
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