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livros
Napoleon Sarony/Time & Life Pictures/Getty Images
Wilde: para encantar as crianças  

O Amigo Fiel, de Oscar Wilde (adaptação de Gonzalo Cárcamo; Berlendis & Vertecchia; 48 páginas; 35 reais) – Mais conhecido por peças em que retratava ironicamente a sociedade vitoriana e pelo romance O Retrato de Dorian Gray, o irlandês Oscar Wilde (1854-1900) era também um grande autor de histórias para crianças. O Amigo Fiel é uma fábula sobre as diferentes e complicadas exigências de lealdade que esse laço impõe a dois amigos. A presente edição traz belas ilustrações coloridas de Cárcamo, autor também da adaptação. O desenhista modificou os personagens animais, recorrendo a bichos da fauna brasileira – o pintarroxo que conta a história no conto de Wilde se transforma em um curió nessa versão.

Leia trecho

No remanso de um igarapé, nadava serenamente uma marreca-cabocla, seguida de três belos filhotes pintados de preto e amarelo. Com zelo, empenhava-se em ensinar-lhes a mergulhar a cabeça na água, insistindo:

— Tsk, tsk, dessa forma nunca vão conseguir freqüentar a boa sociedade – advertia a mãe. — Vamos tentar novamente; desta vez, prestem muita atenção para não errar novo.

Os patinhos não davam a menor atenção aos ensinamentos da mãe. Ainda eram muito novinhos para compreender as vantagens e o proveito de uma vida em sociedade.

— Que criaturas teimosas! – exclamou uma velha ariranha de longos bigodes que espiava furtivamente a cena, com olhar esbugalhado, sobre um tronco seco na margem. — Mereciam no mínimo afogar-se!

— O que é isso? – replicou a marreca-cabocla. — Sabe que os iniciantes precisam antes de tudo sentir confiança, e os pais não podem ser precipitados ou impacientes nessa hora.

— Ué!, eu não sou pai de familia... portanto, desconheço qualquer sentimento paterno – disse a ariranha, zombando. — Casar-me é uma coisa que não faz parte dos meus planos. Bom, também devo reconhecer que o amor não é coisa de se desprezar. Porém, acho que a amizade vale muito mais. Não conheço sentimento tão peculiar e nobre quanto uma leal amizade.

— Olhe, me desculpe, mas diga, que idéia você tem dos deveres de uma amizade leal? – perguntou um curió que escutava atento o bate-papo, pousado no fino galho de uma árvore.

— É isso mesmo que gostaria de saber! – disse a marreca-cabocla, antes de afundar a cabeça na água para dar um exemplo aos filhotes.

— Que tolice! – exclamou a ariranha, cuspindo na água. — É claro que entendo o que é um amigo leal. Aquele que manifesta lealdade e fidelidade, ora!

— Agora me conte, o que você oferece em troca? – perguntou o curió balançando no galho.

— Não sei o que quer dizer com isso, e muito menos onde quer chegar com essa pergunta.

— Espere um pouco. Permitam que lhes conte uma história a respeito desse assunto.

— Tem a ver comigo, essa história? – perguntou a ariranha, mastigando alguma coisa entre os dentes fazendo croque!, croque! — Assim vou ouvir com atenção porque eu me amarro em contos.

 


 
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