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Montanha
de Moluscos de Leonardo da Vinci, de Stephen Jay Gould (tradução
de Rejane Rubino; Companhia das Letras; 494 páginas; 52 reais)
Morto em 2002, o paleontólogo americano Stephen Jay
Gould prestou muitos serviços à ciência. Além
de pesquisador brilhante, ele tinha um dom raríssimo entre
os profissionais do ramo: em suas explanações, sabia
como trocar idéias complexas em miúdos, e assim difundi-las
com uma roupagem instigante para o público leigo. E isso
sem banalizar as teorias científicas. Publicada originalmente
em 1998, essa coletânea de ensaios é um excelente exemplo
de sua capacidade de comunicação. O livro reúne
21 textos em que Gould aborda os mais variados temas, como a relação
entre arte e ciência, a vida humana na pré-história
e as grandes polêmicas sobre a evolução das
espécies.
Leia
trecho
Capítulo
1
O movimento ascendente dos fósseis
na terra viva de Leonardo da Vinci
Morgan
descreve seu desespero quando o rei Arthur é capturado e
pendurado na forca: "Eles vendaram seus olhos! Eu não podia
me mexer; estava paralisado, sufocado, e minha língua, petrificada...
Ele foi levado para a forca". Mas, na melhor das tradições
do suspense, e no último instante possível, sir Lancelot
aparece para resgatá-lo, acompanhado por quinhentos cavaleiros
- todos pedalando suas bicicletas. "Meu Deus, as plumagens flutuavam
no ar e o sol flamejava e se refletia na procissão interminável
de aros metálicos! Acenei com a mão direita quando
Lancelot passou voando. Livrei-me dos nós e das cordas e
gritei: "De joelhos, seus velhacos, e saúdem o rei!
Quem não o fizer vai cear no inferno essa noite!"
Não
se trata de uma citação de Monty Python ou do programa
Saturday Night Live, e também não cometi um
erro de gênero na primeira sentença. O personagem que
fala não é a fada Morgana (que, sem dúvida,
teria criado uma solução mágica, e não
tecnológica, para a mesma situação adversa),
mas Hank Morgan, o ianque de Connecticut na corte do rei Arthur,
herói do romance satírico de Mark Twain que tem o
mesmo nome. Morgan, transportado de Hartford, no século XIX,
espalha destruição na Camelot do século VI
ao introduzir ali toda sorte de comodidades "modernas", incluindo
o tabaco, o telefone, o beisebol - e as bicicletas.
Como
artifício artístico, o anacronismo exerce sobre nós
uma poderosa atração e tem sido um recurso empregado
em todos os gêneros, da mais alta filosofia à mais
baixa comédia -Jesus Cristo é crucificado por Dali
na sala da diretoria de uma grande empresa, condenado. Em seu retomo
à Terra, pelo Grande Inquisidor de Dostoievski, e ganha só
cinqüenta por cento de desconto (ao trocar seu figurino por
um mais moderno) do barbeiro italiano ou do alfaiate judeu, numa
série de piadas étnicas atualmente evitadas em razão
de seu alegado mau gosto.
O
anacronismo tem esse efeito forte e misterioso, suponho, porque
nos utilizamos da seqüência temporal conhecida da nossa
história como o instrumento principal para impor ordem sobre
um mundo confuso. E quando "O tempo está desnorteado. Oh,
sina maldita!", ficamos realmente desconcertados. Sabemos também
que ao perceber uma distorção temporal, não
podemos corrigi-la tão facilmente na vida real quanto na
ficção mágica (onde Merlin pode colocar Hank
Morgan para dormir por 1300 anos, ou onde se pode liquidar
o conde Drácula com uma estaca de madeira cravada no lugar
certo) . Interpretamos a confiança jovial de Hamlet como
um indício de sua loucura quando ele completa o dístico
com o equivalente shakespeariano de "sem problemas" ou "hakuna matata":
" ... Que me fez nascer um dia para consertá-lo!".
A
ciência, por razões em parte míticas, mas também
em parte corretas e respeitáveis, apresenta~se como o mais
linear e cronologicamente bem ordenado de todos os campos. Se a
ciência, trabalhando por meio dos métodos fecundos
e em grande medida imutáveis do raciocínio, da observação
e da experimentação, desenvolve explicações
cada vez mais precisas do mundo natural, então a linha temporal
da história se define pelo sucesso sempre crescente. Numa
ordenação linear tão simples, mediada por um
único princípio de avanço do conhecimento,
todo anacronismo acentuado nos parece especialmente peculiar - e
sujeito a um julgamento
diametralmente oposto, dependendo da direção da distorção.
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