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livros

Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski (tradução de Paulo Bezerra; Editora 34; 704 páginas; 59 reais) – Ao lado de O Agente Secreto, do britânico nascido polonês Joseph Conrad, esse é um romance essencial para compreender a mentalidade de radicais políticos de todos os matizes – e, sobretudo, para compreender uma das mais nefastas criaturas políticas de todos os tempos: o terrorista. Inspirado pelo assassinato de um estudante cometido na Rússia por um grupo niilista, em 1869, Dostoiévski fez a anatomia ficcional do fanatismo ideológico, antecipando muito dos horrores dos séculos seguintes, do stalinismo ao fundamentalismo que amedronta o mundo hoje. Esse clássico indispensável é apresentado ao leitor brasileiro em uma nova tradução, feita diretamente do russo.

 

Leia trecho

I
À guisa de introdução - Alguns detalhes da biografia do honorabilíssimo Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski

Capítulo I

Ao iniciar a descrição dos acontecimentos recentes e muito estranhos ocorridos em nossa cidade que até então por nada se distinguia, por inabilidade minha sou forçado a começar um tanto de longe, ou seja, por alguns detalhes biográficos referentes ao talentoso e honorabilíssimo Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski. Sirvam esses detalhes apenas de introdução a esta crônica, pois a própria história que pretendo descrever ainda está por vir.

Digo sem rodeios: entre nós Stiepan Trofímovitch sempre desempenhou um papel, por assim dizer, cívico, e gostava apaixonadamente desse papel, a ponto de me parecer que sem ele nem poderia viver. Não é que eu o equipare a um ator de teatro: Deus me livre, ainda mais porque eu mesmo o estimo. Tudo aí podia ser questão de hábito, ou melhor, de uma tendência constante e nobre para acalentar desde criança o agradável sonho com a sua bela postura cívica. Por exemplo, gostava sumamente de sua condição de "perseguido" e, por assim dizer, "deportado". Nessas duas palavrinhas há uma espécie de brilho clássico que o seduziu de vez e depois, ao promovê-lo gradualmente, ao longo de muitos anos, em sua própria opinião, acabou por levá-lo a um pedestal bastante elevado e agradável ao amor-próprio. Em um romance satírico inglês do século passado, um tal de Gulliver, voltando do país dos liliputianos, onde as pessoas tinham apenas uns dois vierchóks de altura, habituou-se de tal modo a se achar um gigante entre elas que, ao andar pelas ruas de Londres, gritava involuntariamente aos transeuntes e carruagens que se desviassem e tomassem cuidado para que ele não os esmagasse de algum modo, imaginando que ainda fosse gigante e os outros, pequenos. Por isso riam dele e o injuriavam, enquanto os cocheiros grosseiros chegavam até a lhe dar chicotadas; convenhamos, será isso justo? De que não é capaz o hábito! O hábito levou Stiepan Trofímovitch a agir quase do mesmo modo, po-rém de uma forma ainda mais ingênua e inofensiva, se é lícita esta ex-pressão, porque ele era um homem magnificentíssimo.

Chego até a pensar que, ao fim e ao cabo, ele foi esquecido por todos e em toda parte; entretanto, não há como dizer que antes ele já fosse inteiramente desconhecido. É indiscutível que durante certo tempo até ele pertenceu à célebre plêiade de outros homens célebres da nossa geração passada, e num período - aliás, apenas durante um minutinho curtíssimo - em que o nome dele foi pronunciado por muitas das pessoas apressadas de então, quase que ao lado de nomes como Tchaadáiev, Bielinski, Granovski e Her--zen, que acabara de voltar do estrangeiro. Mas a atividade de Stiepan Tro-fímo-vitch terminou quase no mesmo instante em que começou - por assim dizer, em virtude de "um turbilhão de circunstâncias". E o que aconteceu? Depois não só o "turbilhão" mas nem mesmo as "circunstâncias" se verificaram, pelo menos nesse caso. Para a minha imensa surpresa, só agora, por esses dias, fiquei sabendo, mas já de fonte absolutamente fidedigna, que Stie-pan Trofí-movitch morou entre nós, na nossa província, não só sem ser deportado, como se costumava pensar, mas inclusive nunca esteve sequer sob vigilância. Em face disso, que força tem a própria imaginação! Durante toda a vida ele mesmo acreditou que em certas esferas sempre o temiam, que conheciam e contavam continuamente seus passos e que cada um dos três governadores que entre nós se alternaram nos últimos vinte anos, ao partirem para governar a província, já traziam consigo uma certa idéia especial e preo-cupante sobre ele, incutida de cima, e antes de tudo no ato de entrega da província. Fosse alguém assegurar então ao honorabilíssimo Stiepan Trofí-movitch, com provas irrefutáveis, que ele não tinha absolutamente o que temer, e ele forçosamente se ofenderia. Entretanto, ele era um homem inteligentíssimo e talentosís-si-mo, um homem, por assim dizer, de ciência, embora, convenhamos, em ciência... bem, numa palavra, em ciência ele não fez lá muita coisa e, parece, não fez nada vezes nada. Acontece, porém, que aqui na Rússia isso ocorre a torto e a direito com os homens de ciência.


 
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