W.W.
Norton, Joyce Ravid/AP
 |  | | Nicole
Krauss: livro dentro do livro | |
A
História do Amor, de Nicole Krauss (tradução de Paulo
Schiller; Companhia das Letras; 316 páginas; 45 reais) Em seu segundo
romance, a americana Nicole Krauss mulher do também escritor Jonathan
Safran Foer recorre a um expediente bastante comum na literatura contemporânea:
o livro dentro do livro. Mas ela soube usar esse velho recurso com competência.
O romance acompanha a trajetória de um livro fictício chamado A
História do Amor. Escrita por um judeu polonês, a obra professa
uma curiosa teoria sobre diferentes eras da evolução humana, na
qual se incluiria uma Era do Silêncio, quando as pessoas conversavam apenas
com gestos. O livro é um fracasso da tiragem inicial de 2.000 exemplares,
só um sobrevive. Esse único livro, porém, altera a vida de
todos os que o lêem. Leia
trecho Antes
que eu pudesse mudar de idéia de novo, tirei o papel da máquina,
estendi-o sobre a pilha e fechei a tampa da caixa. Achei um papel marrom e a embrulhei.
Na frente, escrevi o endereço do meu filho, que sei de cor. Esperei
que alguma coisa acontecesse, mas não aconteceu nada. Nenhum vento que
levasse tudo embora. Nenhum ataque cardíaco. Nenhum anjo na porta. Eram
cinco da manhã. Seriam horas até que o correio abrisse. Para passar
o tempo, arrastei o projetor de slides guardado debaixo do sofá. É
uma coisa que faço em ocasiões especiais, no meu aniversário,
digamos. Ajeito o projetor sobre uma caixa de sapatos, ligo-o na tomada e giro
o interruptor. Um feixe poeirento ilumina a parede. O slide eu guardo numa jarra
na prateleira da cozinha. Eu o assopro, ponho-o na máquina, adianto a bandeja.
A imagem entra em foco. Uma casa com uma porta amarela na extremidade de um campo.
É fim de outono. Entre as ramagens negras o sol ganha um tom alaranjado,
depois azul-escuro. Fumaça de madeira se alça da chaminé,
e pela janela eu quase vejo minha mãe debruçada sobre uma mesa.
Sinto o vento frio nas maçãs do rosto. Estendo a mão. E,
porque minha cabeça está cheia de sonhos, por um instante acredito
que posso abrir a porta e entrar. Lá
fora, já tinha clareado. Diante dos meus olhos, a casa da minha infância
se dissolveu a quase nada. Desliguei o projetor, comi uma barra de Metamucil e
fui ao banheiro. Quando fiz tudo o que tinha de fazer, tomei um banho de esponja
e busquei meu terno no armário. Encontrei as galochas que procurava e um
velho rádio. Por fim, amarrotado no chão, achei o terno, um paletó
branco de verão, passável se não importasse a mancha amarelada
na frente. Vesti-me. Cuspi na palma da mão e forcei o cabelo a se submeter.
Sentei-me inteiramente vestido com o pacote de papel marrom no colo. Conferi e
reconferi o endereço. Às oito e quarenta e cinco pus a capa de chuva
e enfiei o pacote debaixo do braço. Olhei-me no espelho do corredor uma
última vez. Depois, saí pela porta, para a manhã. |