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dos Melhores Contos de Vampiros da Literatura Universal (vários
tradutores; Ediouro; 314 páginas; 39 reais) Organizador
também do best-seller Os 100 Melhores Contos de Humor
da Literatura Universal, o gaúcho Flávio Moreira
da Costa foi fundo na prospecção das histórias
de vampirismo surgidas a partir do século XIX. Em sua seleçãonão
faltam os nomes obrigatórios, como os irlandeses Bram Stoker
e Sheridan Le Fanu. O primeiro, autor do romance Drácula,
está presente com um capítulo protagonizado pelo personagem
que não entrou no livro famoso. Le Fanu, por sua vez, foi
um precursor do ramo ao escrever Carmilla, a história
de uma vampira em que muitos vêem certa sugestão
de lesbianismo. Costa desenterra ainda contos de horror de autores
como a americana Mary Eleanor Wilkins-Freeman, pouco conhecida,
e o francês Théophile Gautier.
Leia
trecho de Carmilla, de Sheridan Le Fanu
CAPÍTULO 1
Um pavor precoce
Embora
não sejamos de modo algum pessoas muito ricas, aqui na Estíria*
vivemos em um castelo, ou schIoss. Com uma pequena renda pode-se
viver muito bem nessa parte do mundo. Oitocentas ou novecentas libras
por ano - dinheiro que na Inglaterra nos deixaria muito aquém
do padrão de vida das pessoas abastadas - aqui são
capazes de fazer milagres. Meu pai é inglês e eu assino
um nome inglês, embora jamais tenha estado na Inglaterra.
E nessa terra solitária e primitiva, onde tudo é tão
incrivelmente barato, não vejo como qualquer quantidade de
dinheiro a mais pudesse aumentar nosso conforto material ou nos
trazer mais luxo.
Meu
pai, que serviu no Exército austríaco até se
reformar com uma pensão e a renda de seu patrimônio,
comprou essa residência feudal junto com a pequena propriedade
que a circunda por um preço irrisório.
Nenhum
lugar poderia ser mais pitoresco ou solitário. O castelo
fica numa pequena elevação dentro de uma floresta.
A estrada, estreita e muito antiga, passa diante da ponte levadiça
- que jamais vi levantada, em toda minha vida - e do fosso alagado
embaixo dela, repleto de carpas, navegado por muitos cisnes e com
a superfície tomada por lírios d'água.
Sobre
tudo isso se ergue o schloss com a fachada de muitas janelas, suas
torres e a capela gótica.
A floresta
se abre numa clareira irregular e muito pitoresca diante do portão
e, à sua direita, uma antiga ponte gótica, como um
arco de pedra, transporta a estrada por sobre um rio que se perde
em curvas através das densas sombras da floresta.
Disse
que era um lugar muito solitário, veja se não é
verdade: partindo da porta de entrada, a floresta que circunda o
castelo se estende quinze milhas para a direita e doze para a esquerda.
A aldeia habitada mais próxima fica a mais ou menos sete
de suas milhas inglesas para a esquerda, e o castelo vizinho, ainda
ocupado e com algumas associações históricas,
é o schloss do velho general Spielsdorf, que se situa a aproximadamente
vinte milhas para a direita.
Disse "a aldeia habítada mais próxima" porque
existe, a apenas três milhas para oeste, na direção
do castelo do general Spieldorf, uma aldeia em ruínas, com
sua pequena igreja, agora destelhada, ao lado da qual estão
os túmulos cobertos de musgo da orgulhosa família
- hoje extinta - dos Karnstein, antigos proprietários do
castelo abandonado que, de dentro da floresta, avista as ruínas
silenciosas da aldeia deserta.
Com
relação às causas do abandono desse lugar melancólico,
existe uma lenda que lhe contarei num outro momento.
Agora
devo falar do pequeno grupo familiar que habita nosso schloss. Não
incluo os empregados e dependentes que vivem no pavilhão
anexo ao castelo. Ouça com espanto! Meu pai, que é
o homem mais gentil do mundo - mas está ficando velho - e
eu, que na época dessa história, há oito anos,
tinha 19. Eu e meu pai constituímos toda a família
no castelo. Minha mãe, dama de uma nobre família aqui
da região de Graz, morreu na minha primeira infância,
mas tive uma governanta, uma boa alma, que está comigo praticamente
desde então. Não me lembro do tempo quando seu rosto
gordo e bondoso não era uma imagem familiar e querida de
minha memória. Chamada Madame Perrodon e nativa de Berna,
seus cuidados e bondade de alguma forma compensaram a ausência
de minha mãe, de quem não tenho nenhuma lembrança,
tão pequena era quando a perdi. Era a terceira comensal em
nosso pequeno grupo à mesa de jantar. Havia ainda uma quarta
pessoa, Mademoiseile de Lafontaine, a senhora que fazia o que acredito
vocês chamem finishing governess e falava francês e
alemão. Madame Perrodon falava francês e alguma coisa
parecida com inglês; eu e meu pai somávamos a isso
nosso inglês que, por motivos patrióticos e para que
não se perdesse como língua entre nós, usávamos
todos os dias. O resultado era uma Babel que fazia rir os estranhos
e que não tentarei reproduzir nessa narrativa. Havia ainda
duas ou três jovens amigas, da minha própria idade,
que nos visitavam ocasionalmente, por períodos curtos e longos;
visitas que algumas vezes eu retribuía.
Eram
esses nossos parcos recursos regulares de contato social. Havia,
é claro, visitas esporádicas de nossos "vizinhos"
de apenas cinco ou seis léguas de distância. Posso
assegurar-lhe, no entanto, que ainda assim levava uma vida bastante
solitária.
Minha
governanta exercia tanto controle sobre mim quanto seria possível
esperar de uma pessoa responsável sobre uma órfã
de mãe, mimada por um pai que lhe permitia praticamente tudo.
O primeiro
fato marcante da minha existência que produziu uma impressão
terrível em minha mente, a qual, na verdade, nunca se apagou,
foi um dos primeiros incidentes de que me lembro. Algumas pessoas
pensariam que um fato tão banal não mereceria ser
lembrado aqui; mas, com o seguir da narrativa, o senhor entenderá
por que o menciono.
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