Os
Suicidas,
de Antonio di Benedetto (tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro;
Globo; 168 páginas; 32 reais) A literatura argentina no século
XX foi uma assombrosa fonte de talentos como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar
e Juan José Saer. Embora menos conhecido, Benedetto (1922-1986) é
um escritor poderoso. Seu romance Os Suicidas narra a angústia de
um jornalista que se aproxima dos 33 anos foi com essa idade que seu pai
se matou. Sua ansiedade se agrava quando ele, incumbido de produzir uma reportagem
sobre suicídio, começa a pesquisar o que a literatura e a filosofia
já disseram sobre o tema. Benedetto utiliza a estranha obsessão
de seu personagem para produzir uma fascinante antologia de citações
sobre o ato de tirar a própria vida.
Leia
trecho Primeira
parte Os dias carregados de
morte O
meu pai pôs fim à sua vida numa tarde de sexta-feira. Tinha
33 anos. Na
quarta sexta-feira do próximo mês eu terei a mesma idade. Embora
a tia Constanza, com reserva mas sem tato, tenha mencionado esta coincidência,
não voltei meu pensamento a ela até hoje, já que o tema,
de certa forma, saiu ao meu encontro. Na
agência, o chefe me disse: "Pode ser a sua chance". Sem
requerer consentimento, ele me introduziu na tarefa. Sobre a escrivaninha, esparramou
três fotografias e me incitou a descobrir o que possivelmente ele já
havia observado. —
O que vê nelas? Considerei
que esperava de mim uma dedução fora do comum. Inclinado, examinei
as fotos, que tinham, cada uma, um corpo humano, deitado e vestido. Eu disse: —
Vejo que estão mortos, os três. —
Não é uma resposta muito sagaz. Aceitei
sua mordacidade como uma advertência de que devia ver melhor, e rápido.
Incomodou-me, mas transigi, mais pelo pressentimento de que começava a
decifrar. Indiquei: —
Uma é mulher, dois são homens. Realcei,
lentamente, como se custasse a se inteirar. Prossegui, sem pressa: —
Ela e este outro conservam os olhos abertos. O terceiro, não. —
Oh! — disse o chefe, deixou de lado a escrivaninha e caminhou. Então
pensei que não sou um gozador e já bastava porque ele também
podia dizer basta. Eu disse: —
Aqueles que estão com os olhos abertos continuam olhando... O
chefe se deteve, eu também. Senti
que entendia e que me importava o que havia entendido: —
Olham... como se olhassem para dentro, mas com horror. Não
precisava de sua aprovação — um som que me lançou —, nem
o silêncio com que propiciou a impressão de que faltava alguma coisa.
Sim, na minha mente havia um sinal, confuso, até que pude afirmar: —
Estão espantados, têm o espanto nos olhos e, no entanto, em suas
bocas se esboçou uma careta de prazer sombrio. Não
duvidei de que havia acertado, que lhe havia ampliado a visão. Isso já
bastava. O que em seguida, com urgência, eu precisava saber era o que lhe
perguntei: —
Foram mortos? —
Não, se mataram. Era
o embrião de uma série de matérias. Um embrião disforme. Discutimos
a série: história dos dois casos dos olhos espantados. Não
conhecemos a história. Alguém, um profissional respeitável,
proporcionou as fotos; não pode nos ajudar nem nos dizer quem são
nem quem as tirou. Dois casos não dão para uma série. Mas
a sua história é necessária. É preciso averiguar,
pesquisa própria. A
polícia não vai colaborar. Pode-se experimentar. Não vai
colaborar, não informa sobre suicídios. A publicação
provoca o contágio. Suicídios por imitação, epidemia
de suicídios, peste de suicídios. Por
que o horror introspectivo? Por que o prazer sombrio? Por aí se pode generalizar,
mais material para mais matérias, a série, se confirmarmos a generalização.
Sim. Não pode ser a história de dois, ou duas histórias que
deixaram de ser notícia. Precisamos de casos frescos. Será preciso
esperar. Esperar o quê? Que se produzam, e ver. Não, não se
pode esperar, dispõe de dois meses. Temos pronta a circular para oferecer
a série para os jornais. Podemos vendê-la para trinta vespertinos
e três revistas coloridas. Quer que a matéria seja sensacionalista?
Não, séria. A nossa agência não é sensacionalista.
Como o senhor disse, vespertinos... Eu disse só isso. Para as revistas,
você vai precisar de slides. Por que só as revistas coloridas? Pelo
sangue, para que se aprecie o vermelho; senão, é preciso marcá-la
com uma flecha e explicar na epígrafe, e se perde. Tem razão. Trabalhe
com a Marcela. Por que a Marcela? Lembra, a reportagem do avião caído
na cordilheira. Sabe se arriscar. Neste assunto não haverá riscos,
vamos lidar com mortos. Não haverá? Assim espero. Quem sabe. Recorro:
Seria melhor o Pedro, eu preferiria trabalhar com um homem. Manda: Não,
a Marcela. Sem
dizer, penso na Marcela como num negócio particular. É
ascética. É quase nova na agência e mal a conheço.
Não nos gostamos. Não gosto dela, soltei por aí. Alguém
me perguntou por quê. Eu disse: "Tem 30 ou 32". Anos, eu quis
dizer. Saio
e me alivio. O verão me deslumbra. Me deslumbra e rapidamente deixa o meu
corpo pegajoso. Uma
blusa com interiores vem pela calçada. Eu poderia lhe dizer alguma coisa.
Outra, decotada. Nada digo a esta tampouco, é inútil para o vínculo,
passam; mas eu a olho, quem sabe como, porque uma senhora me olha. É a
censura e pretende me acuar. Penso
na série. Terei de ver pessoas que não me importam, porque não
são as que fizeram; pessoas prevenidas, arredias (talvez a Marcela me ajude
a chegar a elas; em seu estilo é um chamariz, tem 30). Ponho
o pé no caixote do engraxate. E
terei de falar, falar disso. Penso
no meu pai. Eu era como este menino, o engraxate, pequeno assim. Soube que ele
havia morrido, ignorava como. Chorei até secar, dormi, acordei, a cerimônia
continuava, as visitas sussurravam. Alguém, possivelmente a minha mãe,
clamava: "Morte injusta!". Compreendi a história do injusta —
deixava-nos sem ele —, mas não pude entender como a Morte se introduziu
em casa e se apoderou do meu pai. Porque de manhã ele estava vivo, de pé
e são como qualquer um de nós, e morreu de tarde, enquanto havia
sol, e eu tinha o convencimento de que a Morte era uma figura sinistra que dava
seus golpes na escuridão da noite. Pergunto,
ao menino que engraxa os meus sapatos, o que é a morte. Ele
levanta seus olhos marrons e me considera, de cima a baixo, entre surpreso e intimidado,
embora não pare de escovar. A
minha pergunta foi excessivamente abstrata. Eu me corrijo e sorrio, para atraí-lo: —
Nunca morreu alguém que você conhecia, um vizinho, um tio?... O
menino se encurva sobre o seu trabalho, concentra-se e diz: —
Sim, o meu pai. Emudeço. Ele
me espia, com curiosidade: advirto que não me rechaça. Procuro estabelecer
— comecei a minha tarefa? — o que ele conhece dos alcances da morte, onde supõe
que está aquele que morre. Responde
que o pai está num nicho, mas a mãe, no início contava que
ele tinha viajado, e agora diz que ele está no Céu. Ele não
acredita. Não acredita no Céu? No Céu sim, mas o Céu
é para os bons e o pai batia na mãe. Estou
passando um dia carregado de morte. É suficiente. Entro num cinema onde
está passando Alphaville. Trabalharei amanhã. No
entanto, de noite, separado da Júlia, embora junto dela, repasso o que
disse o engraxate e noto que, definitivamente, não cheguei de volta à
interrogação inicial: o que é, para um menino, a morte? Peço
para a Júlia que averigúe isso entre os seus alunos, na escola.
Ela se alarma, defende-se, ofusca-se. Explico, apaziguo. A
série, o meu trabalho... Nega-se
obstinadamente. Diz que não é normal. "Eu
não sou normal?...", e a desconcerto. Sei
perfeitamente que ela não disse isso. Tomo
café-da-manhã com a minha mãe. Habitualmente, é o
único momento que passamos reunidos. Ela
me conta que se encontrou com a Mercedes, sua amiga, e
a dona Mercedes lhe disse: "Não tenho família, tenho televisor".
Eu objeto: "Tem filhos e netos, e vive com eles". —
É, mas a deixam sozinha: entram e saem; jantam com o televisor ligado. Não
é uma recriminação para mim, embora eu possa deduzir uma
moral. O
calor, que está se apoderando do dia, me altera. A minha mãe repara.
Baixa persianas, oferece-me o ventilador. Acredito
que a minha mãe é a única pessoa que gosta de mim. —
Eu gostaria de viver num país com neve — diz. Ela
sempre disse isso. Eu, de minha parte, ofereci-lhe umas férias de inverno.
Anualmente renovo o plano. Repito:
"Este ano iremos". —
Aonde? —
Para a neve. —
Ah, é. Sim, filho, iremos. Em
algumas manhãs ela se opõe e me diz para economizar para o carro
pequeno. "Você precisa, é para o teu trabalho." Isso
me deprime, outros conseguem: carro e neve. O
meu irmão, que tem um Fiat 1500, oferece: —
Posso te levar? A
minha mãe compreende que a sua ração diária desse
filho terminou e se entristece. Eu percebo, mas a minha vida está enredada
com a rua. O
meu irmão beija o seu filho e a sua filha e o segundo menino e o terceiro
menino. O terceiro traz nas mãos, bem destruída, Minotauro 7. Reconheço-a
pelos pedaços de capa. Dou-lhe um bofetão e tiro a revista dele.
A minha cunhada, da porta da cozinha, diz: "Maurício!", mais
nada. Dá o alarme ao marido, reclama com ele, por causa desse irmão
que o marido tem. O
meu irmão se abstém. Diz: "Calma", como um magistrado. No
caminho, não fala. Um
imprudente se mete e se salva porque o Maurício cravou os freios. Podia
insultá-lo, com todo o direito; não o faz, eu o faço. Normalmente
não insulto ninguém, exceto aos sábados. A
Marcela é do turno da tarde. Não poderei vê-la até
as 4. Sem dúvida, não está sabendo que vão colocá-la
comigo. Aceituno,
o cronista da agência que atua no Departamento Central de Polícia,
não liga as fotos com acontecimentos dos quais ele se ocupou. Ele as faz
circular entre os colegas da sala de jornalistas e as imagens voltam ao meu poder
sem suscitar nenhuma lembrança entre os especializados. Aceituno
me vincula com a polícia científica. Deixa-me com o chefe. Solicito
colaboração informativa para a agência. A agência terá
toda a colaboração de que precisar, a menos que se trate de causas
pendentes de decisão judicial, delitos em investigação reservada,
abusos morais contra menores e suicídios. Eu
não mencionei, ainda, as fotografias. Farei que não estou entendendo
que elas se enquadram nas exceções que me vedam. Disponho
de tempo para conhecer o museu interno? Sim, disponho. O que vai contar, no final,
é o lado amistoso. Tomamos
café junto à cabeça de um mafioso com a cara perfurada por
três balas. Está há trinta anos na vitrine. Existe uma fórmula
para conservar a cor da pele. Ele
nomeia os "cadáveres judiciais" e eu lhe formulo o problema:
se eu possuo a foto de um cadáver judicial — quer dizer, com circunstâncias
que dão lugar à intervenção da polícia e da
Justiça —, mas desconheço nome e qualquer outra referência,
como pode ser identificado? Menciona
o arquivo de pessoas desaparecidas, o protocolo de tudo o que se passou na autópsia,
a memória visual dos técnicos, o critério seletivo que fecha
o campo de investigação determinando o sexo, a idade aproximada,
a época em que morreu (pela roupa), o ambiente e muito mais. —
Então, é possível? —
Absolutamente possível. Conseqüentemente,
extraio as fotos e peço a identificação e a história. Recebe-as,
observa-as, separa-as e diz: —
Aparentemente, são suicidas. —
São suicidas. Então
ele diz: —
Absolutamente impossível. Ao
sair, passamos pelos gabinetes. Há uma moça de avental branco e
de pele muito branca. Ela me nota. É alguma coisa. Ando
para escolher um restaurante com duas virtudes: peixe na grelha e pessoas que
eu não conheça e que não me falem do que eu já sei,
do que sai nos jornais, formamos opinião nas mesmas revistas. Coincido
diante do menu da vitrine com um turista que me pergunta onde se pode comer pratos
típicos, e muda de idéia, não sei se adivinha o que eu estava
procurando para o meu almoço: quer que o informe como se chega ao aquário.
Finalmente, me agradece e declara: "Têm uma cidade muito bonita, vocês",
e a este cumprimento respondo que ele não pode dizer "têm",
porque eu não tenho nada, a cidade não é minha. Talvez nós
não tenhamos nos entendido bem, porque ele disse: "Ah, o senhor tampouco
é daqui". É
a época, e vêem-se muitos turistas, as turistas "são
muito vistas", elas querem assim, o que se torna muito agradável. Justamente,
ontem à noite eu sonhei de novo que estava andando nu. |