|
Escolha
de Mestre, vários autores (tradução
de Vera Ribeiro; Nova Fronteira; 320 páginas; 36 reais)
Autor de O Ladrão que Estudava Espinosa e Um Baile
no Matadouro, entre outros romances policiais cultuados, o americano
Lawrence Block teve uma idéia original para organizar uma
coletânea de contos de mistério que contemplasse ao
mesmo tempo escritores contemporâneos e do passado. Para compilar
as dezoito histórias reunidas no livro, ele convidou nove
escritores vivos a fazer uma escolha dupla: cada um deles indicou
o melhor conto que já escreveu e o conto de outro autor que
desejaria ter escrito. O próprio Block selecionou um conto
do conterrâneo John O'Hara (1905-1970), embora este não
fosse um autor tipicamente policial. O mestre do horror pop Stephen
King, por sua vez, escolheu uma história de uma autora contemporânea,
a americana Joyce Carol Oates.
Leia
trecho
Até onde a coisa pode ir
Lawrence Block
ELA O RECONHECEU DE ESTALO ,no minuto
em que entrou no restau rante.Não foi uma grande proeza.Só
havia dois homens sentados sozinhos,e um deles era um senhor idoso,que
já tinha um prato de comida à sua frente.
O outro tinha uns 35 ou 40 anos,com
uma farta cabeleira escura e o queixo quadrado e forte."Poderia
ser ator ",pensou ela. Um ator que se escalaria para um papel
de bandido.Mas estava lendo um livro,o que não se enquadrava
muito bem nessa imagem. "Talvez não fosse ele ",pensou."Talvez
o mau tempo o tivesse feito atrasar-se."
Ela entregou o mantô para
que o guardassem e disse ao maître que iria encontrar um certo
sr.Cutler.
- Por aqui . foi a resposta,e,por um momento,ela
imaginou que o maître fosse conduzi-la à mesa do senhor
idoso, mas é claro que ele a levou ao outro homem,que fechou
o livro à sua aproximação e se levantou.
- Billy
Cutler . disse o homem.. E você é Dorothy Morgan.
E,provavelmente,uma bebida lhe cairia bem.Do que gostaria?
-
Não sei . respondeu ela.. O que você está tomando?
- Bem . disse ele,tocando em sua taça .,numa noite como esta,pedi
um martíni no instante em que me sentei,sem gelo e seco como
um graveto.E estou quase pronto para outro.
- Os martínis estão na moda, não é?
-
No que me concerne,nunca saíram de moda.
-
Vou tomar um . disse ela.
-
Enquanto esperavam as bebidas,os dois conversaram sobre o tempo.
-
A coisa lá fora está traiçoeira . disse ele..
Nas estradas principais,na Jersey Turnpike e na Garden State,há
uns engavetamentos com cinqüenta ou cem carros batendo uns
nos outros. Isso costumava ser o sonho dos advogados,antes de aparecer
o seguro com isenção de culpa.Espero que você
não tenha vindo de carro.
-
Não,peguei o trem intermunicipal,o Nova York -Nova Jersey,
e depois,um táxi.
-
É muito melhor.
-
Bem,já estive em Hoboken . disse ela.. Na verdade,andamos
procurando casa por aqui,há mais ou menos um ano e meio.
-
. Se tivesse comprado alguma coisa naquela época,agora você
estaria numa boa.Os preços andam pela hora da morte.
. Resolvemos ficar em Manhattan . disse ela."E depois deci-
dimos ir cada um pro seu lado ",pensou consigo mesma,mas não
o
disse."E graças a Deus não compramos uma casa,senão
ele estaria
tentando roubá-la de mim."
- Vim de carro . disse Cutler .,e a neblina está um horror,
não há dúvida,mas vim devagar e não
tive nenhum problema.
Aliás,eu não conseguia lembrar se tínhamos
dito sete ou sete e
meia,de modo que me certifiquei de chegar aqui às sete.
- Então,eu o fiz esperar . disse ela.. Anotei sete e meia,
mas...
- Imaginei que seria às sete e meia,provavelmente.Também
achei que eu mesmo preferiria esperar a deixá-la esperando.De
qualquer modo . acrescentou,dando um tapinha no livro .,eu
tinha um livro para ler e pedi uma bebida,e do que mais um ho-
mem precisa?Ah,aí vem o Joe com os nossos drinques.
O martíni dela,sem gelo e sequíssimo,estava revigorante
e frio,
e era justamente o que lhe faltava.Dorothy bebeu um gole e fez
esse comentário.
291 ESCOLHA DE MESTRE
- Bom,não há nada como um martíni . disse o
homem .,e o
deles aqui é bem-feito.Aliás,este é um bom
restaurante,de modo
geral.Eles servem um bom bife,um filé de alcatra.
- Que também está voltando à moda . disse ela..
Junto com
o martíni.
Cutler olhou-a e disse:
- E então?Quer ficar completamente em dia com a última
moda?Devo pedir dois filés?
- Ah,acho que não . disse ela.. Não devo me demorar
tanto
assim,na verdade.
- Como quiser.
- Pensei apenas em tomarmos um drinque e...
- E lidar com o que temos de tratar.
- Isso mesmo.
- Claro . disse ele.. Tudo bem.
Só que era difícil encontrar um jeito de encaminhar
o assunto
que a levara a Hoboken,àquele restaurante e à mesa
daquele ho-
mem.Ambos sabiam por que ela estava ali,mas isso não a liberava
da necessidade de trazer o assunto à baila.Tentando encontrar
uma forma de introduzi-lo,voltou ao tempo,à neblina.Mesmo
que o tempo estivesse bom,disse-lhe,ela teria vindo de trem e de
táxi.Porque não tinha carro.
- Não tem carro?. perguntou ele.. O Tommy não disse
que você tinha uma casa de veraneio perto da dele?Não
pode ir e
voltar de lá de ônibus.
- O carro é dele . disse Dorothy.
- Carro dele.Ah,do sujeito.
- Do Howard Bellamy . ela esclareceu.Por que não dizer o
nome?. Carro dele,casa de campo dele.Apartamento dele na rua
Greene,já que estamos no assunto.
Ele assentiu com a cabeça,com uma expressão pensativa.
- Mas você não continua a morar lá . disse.
- Não,é claro que não.E não tenho nada
meu na casa de
campo.E devolvi meu jogo de chaves do carro.Todas as minhas
chaves,as do carro e das duas casas.Conservei meu antigo aparta-
mento na rua Dez Oeste,durante todo esse tempo.Nem sequer o
subloquei,porque imaginei que poderia precisar dele às pressas.E
tinha razão,não tinha?
- Qual é exatamente o seu grilo com ele,se não se
importa de
eu perguntar?
- Meu grilo . disse ela.. Nunca tive nenhum,no que me di-
zia respeito.Vivemos juntos por três anos e os dois primeiros
não
foram maus.Nunca foi um Romeu e Julieta,claro,mas era legal.E
aí,o terceiro ano foi ruim e chegou a hora de cair fora.
Dorothy estendeu a mão para o drinque e constatou que a taça
estava vazia.Estranho,não se lembrava de havê-lo terminado.
Olhou para o homem do outro lado da mesa e viu que ele espe-
rava pacientemente,sem que nada transparecesse em seus olhos
escuros.
Passado um momento,Dorothy explicou:
- Ele diz que eu lhe devo dez mil dólares.
- Dez mil.
- É o que ele diz.
- E você?
Ela balançou a cabeça num gesto negativo e acrescentou:
- Mas ele tem um papel.Uma nota que assinei.
- Pelos dez mil dólares.
- Isso.
- Como se ele tivesse lhe emprestado o dinheiro.
- Certo.
Dorothy brincou com a taça vazia.
- Mas não emprestou . disse.. Ah,ele tem o papel assinado
por mim,e tem uma cópia do cheque emitido em meu nome e de-
positado na minha conta.Mas não foi um empréstimo.Ele
me deu
o dinheiro e eu o usei para pagar um cruzeiro que fizemos juntos.
- Onde?No Caribe?
- No Extremo Oriente.Fomos de avião para Cingapura e fize-
mos um cruzeiro até Bali.
- Parece um bocado exótico.
- Acho que foi . disse ela.. Isso foi na época em que as
coisas ainda corriam bem entre nós,ou tão bem quanto
jamais
correram.
293 ESCOLHA DE MESTRE
- Esse papel que você assinou.... instigou Cutler.
- Tinha alguma coisa a ver com os impostos.Para que ele pu-
desse fazer uma dedução,não me pergunte como.Olhe,durante
todo o tempo em que moramos juntos,arquei com o meu sustento.
Dividíamos as despesas exatamente pela metade.O cruzeiro
foi
diferente,foi por conta dele.Se ele queria que eu assinasse um pe-
daço de papel,para que o governo arcasse com parte da despesa...
- Por que não?
- Exato.E agora ele diz que é uma dívida e que eu
tenho de pa-
gar,e recebi uma carta do advogado dele.Dá para acreditar?Uma
carta de um advogado?
- Ele não vai processá-la.
- Quem sabe?Isso é o que a carta do advogado diz que ele
vai fazer.
Cutler franziu o cenho:
- Ele entra num tribunal e você começa a depor sobre
uma
sonegação de imposto...
- Mas como é que eu poderia,se fiz parte dela?
- Mesmo assim,essa idéia de ele a processar,depois de você
viver com ele.Em geral,é o contrário,não é?Eles
têm uma ex-
pressão para isso.
- Pensão por concubinato.
- Isso mesmo,pensão por concubinato.Você não
está pedindo
nenhuma,está?
- Está brincando?Eu disse que arcava com o meu sustento.
- Certo,foi o que você disse.
- Eu arcava com o meu sustento antes de conhecê-lo,aquele
filho-da-mãe,e arquei enquanto estive com ele,e vou continuar
a
arcar,agora que estou livre dele.A última vez que aceitei
dinheiro
de um homem foi quando meu tio Ralph me emprestou o dinhei-
ro da passagem de ônibus para Nova York,quando eu tinha 18
anos.Ele não chamou isso de empréstimo e com certeza
não me
deu nenhum papel para assinar,mas,mesmo assim,eu o reem-
bolsei.Juntei o dinheiro e lhe mandei uma ordem de pagamento.
Eu nem tinha conta bancária.Peguei uma ordem de pagamento
no
correio e a mandei para ele.
- Foi nessa ocasião que você veio para cá?Quando
tinha 18
anos?
-
Recém-saída do segundo grau . ela respondeu.. E tenho
vivido sozinha desde então,e banco o meu sustento.Teria pago
minhas despesas em Cingapura,aliás,mas a combinação
não foi
essa.Era para ser um presente.E agora ele quer que eu pague a
minha despesa e a dele,quer os dez mil inteiros,com juros,e...
- Ele está querendo lhe cobrar juros?
- Bem,a nota que eu assinei.Dez mil dólares mais juros de
8%
ao ano.
- Juros . disse Cutler.
- Ele está fulo da vida por eu ter querido terminar o relaciona-
mento.É disso que se trata.
- Foi o que imaginei.
- E o que eu imaginei . disse ela . foi que,se umas duas pes-
soas do tipo certo tivessem uma conversinha com ele,talvez isso
o
fizesse mudar de idéia.
- E foi isso que a trouxe aqui.
Ela acenou com a cabeça,num gesto afirmativo,brincando com
a taça vazia.Ele apontou para a taça e ergueu as sobrancelhas,
com ar questionador.Dorothy tornou a assentir e Cutler levantou
a mão,chamou a atenção do garçom e fez
sinal para uma outra
rodada.
Os dois ficaram em silêncio até chegarem os drinques.Então
ele disse:
- Uns dois rapazes poderiam conversar com ele.
- Seria ótimo.Quanto me custaria?
- Quinhentos dólares resolvem.
- Bem,parece bom para mim.
- O negócio é que,quando a gente fala em conversar,tem
que ser mais do que uma conversa.A gente precisa causar uma certa
impressão;numa situação dessas,a implicação
é que ou ele concorda,ou vai lhe acontecer alguma coisa física.Bom,quando
se quer dar essa impressão,a coisa tem que ser física
desde o começo.
- Para ele saber que é a sério?
- Para ele se assustar.Porque,de outro modo,o que ele fica é
com raiva.Não de imediato,com dois sujeitos mal-encarados
a imprensá-lo na parede e dizer o que ele tem de fazer.Isso
o deixa meio assustado na hora,mas aí eles não partem
pro lado físico,e
o sujeito vai para casa e começa a pensar no assunto,e fica
com
raiva.
- Percebo como isso poderia acontecer.
- Agora,se ele tomar umas bordoadas da primeira vez,só o
bastante para sentir o efeito nos quatro ou cinco dias seguintes,ele
fica assustado demais para sentir raiva.É disso que você
precisa.
- O.k.
Ele bebericou o drinque e olhou para Dorothy por cima da borda da
taça.Seus olhos a estavam esquadrinhando,avaliando.
- Há umas coisas que eu preciso saber sobre o cara.
- Por exemplo?
- Por exemplo,como anda a forma dele.
- Ele poderia perder uns dez quilos,mas,afora isso,está legal.
- Nenhum problema cardíaco,nada desse tipo?
- Não.
- Ele faz ginástica?
- Ele é de uma academia . disse Dorothy .,e costumava ir
lá quatro vezes por semana,no primeiro mês depois que
entrou,mas agora,se for duas vezes por mês,é muito.
- Como todo o mundo . disse ele.. É assim que as academias
continuam funcionando.Se todos os membros pagantes aparecessem,não
se poderia passar pela porta.
- Você faz ginástica . disse ela.
- Bom,é . confirmou o homem.. Levanto peso,principalmente,algumas
vezes por semana.Peguei o hábito.Não vou lhe dizer
onde peguei o hábito.
- E eu não vou perguntar,mas acho provável que pudesse
adivinhar.
- É provável que sim . disse ele,sorrindo.Por um momento,pareceu
um garotinho,mas depois o sorriso desapareceu e ele voltou aos negócios.
- Artes marciais . disse.. Ele já praticou alguma dessas
coisas?
- Não.
- Tem certeza?Não ultimamente,mas,quem sabe,antes de vocês
começarem a sair?
- Ele nunca disse nada . respondeu Dorothy .,e diria.É o
tipo de coisa de que se gabaria.
- Ele usa?
- Usa?
- Alguma arma.
- Deus do céu,não.
- Você sabe disso com certeza?
- Ele nem tem revólver.
- Mesma pergunta.Você sabe disso com certeza?
Dorothy considerou a idéia.
- Bem,como é que se saberia de uma coisa dessas com certeza?
Quer dizer,a gente pode saber com certeza que uma pessoa tem
uma arma,mas,como é que saberia que ela não tem?O
que eu
posso dizer é o seguinte:vivi três anos com ele e nunca
vi nem
ouvi nada que me desse a menor razão para achar que ele tinha
um
revólver.Até você me perguntar agora há
pouco,isso nunca tinha-
me passado pela cabeça,e meu palpite é que também
nunca passou
pela dele .
- Você se surpreenderia com o número de pessoas que
têm
armas . disse Cutler.
- É provável que sim.
- Às vezes,dá a impressão de que metade do
país anda por aí
armada.Tem mais gente armada do que portes de armas.Quando o
sujeito não tem porte de arma,ele tende a guardar segredo
de que
anda armado,ou até de que tem um revólver,para começar.
- Tenho certeza de que ele não tem nenhum revólver,muito
menos anda armado.
- E é provável que você esteja certa . disse
ele .,mas a questão é que nunca se sabe.O que a gente
precisa é estar preparado para o fato de que ele pode ter
um revólver,e pode andar armado.
Ela assentiu com a cabeça,insegura.
- O que eu tenho de lhe perguntar é o seguinte . disse ele..
É isso que você tem de se perguntar,e dar uma resposta:até
onde
você está disposta a deixar que isso chegue?
- Não tenho certeza do que você quer dizer.
- Já dissemos que a coisa vai ser física.Dar uns trancos
nele,e uns dois murros que ele sinta por quase uma semana.Explorar
a
caixa torácica,digamos.
- Certo.
- Bom,isso é ótimo,se ficar por aí.Mas você
precisa reconhecer que pode ir mais longe.
- Como assim?
Ele fez uma cabana com as pontas dos dedos.
- O que eu quero dizer é que não se pode necessariamente
de cidir em que ponto a coisa vai parar.Não sei se você
já ouviu essa expressão,mas é como,ahn,ter
relações sexuais com um gorila.
Você não pára quando quer.Pára quando
o gorila decide.
- Nunca ouvi isso antes . disse ela.. É legal,e acho que
pe guei a idéia,ou talvez não.O gorila é o
Howard Bellamy?
- O gorila não é ele.O gorila é a violência.
- Ah.
- Você começa uma coisa e não sabe onde vai
dar.Será que ele revida?Se revidar,a coisa vai um pouco mais
longe do que você
planejou.Ele continua insistindo,voltando para apanhar mais?
Enquanto ele continuar voltando pra briga,você tem que continuar
a marcar cerrado.Não tem escolha.
- Entendo.
- Depois,tem o fator humano.Os próprios garotos,eles não
estão emocionalmente envolvidos.Daí,você imagina
que serão frios e profissionais.
- Foi o que imaginei.
- Mas só é verdade até certo ponto . prosseguiu
Cutler .,
porque eles são humanos,entende?Daí,eles começam
se zangando com o cara,dizendo a si mesmos o canalha safado que
ele é, porque assim fica mais fácil dar-lhe uns empurrões.Parte
disso é uma encenação,mas parte não
é,e vamos dizer que ele solte os cachorros,ou que entre na
briga e acerte um bom golpe.Aí eles se aborrecem de verdade,e
podem fazer mais estragos do que
pretendiam.
Ela refletiu um pouco:
- Entendo como isso poderia acontecer . disse.
- Logo,a coisa pode ir mais longe do que qualquer um tencionava.Ele
poderia acabar no hospital.
- Quer dizer,com os ossos quebrados?
- Ou coisa pior.Como uma ruptura de baço,eu já soube
de uns casos assim.Ou então,por falar nisso,já houve
quem morresse deum soco no estômago,com os nós dos
dedos.
- Vi um filme em que isso acontecia.
- Bom,eu vi um filme em que um sujeito abre os braços e sai
voando,mas morrer de um soco no estômago,ninguém inventou
isso só pro cinema.Pode acontecer.
- Agora você está me deixando encucada . disse ela.
- Bem,é uma coisa em que você tem de pensar.Porque
você
tem que estar preparada para isso ir até o fim,e quando eu
digo até
o fim,quero dizer até o fim.É provável que
não vá,em 95%das
vezes não vai.
- Mas poderia.
- Certo.Poderia.
- Nossa!. disse Dorothy.. Ele é um filho-da-mãe,mas
não
quero que morra.Quero me livrar do filho-da-mãe.Não
quero car-
regá-lo na consciência pelo resto da vida.
- Foi o que eu pensei.
- Mas também não quero pagar-lhe dez mil dólares,aquele
filho-da-mãe.Isso está ficando complicado,não
é?
- Deixe-me pedir licença por um minuto . disse ele,levan-
tando-se.. Você vai pensando aí,e depois a gente conversa
um
pouco mais.
ENQUANTO ELE ESTAVA FORA da mesa,Dorothy pegou o livro e o virou,
para conseguir ler o título.Examinou a foto do autor,leu
algumas
linhas da sobrecapa e o recolocou onde Cutler o havia deixado.Be-
bericou seu drinque . estava acalentando este,fazendo-o render
299 ESCOLHA DE MESTRE
- e olhou pela janela.Havia carros passando,com os faróis
meio
fantasmagóricos na neblina densa.
Quando o homem voltou,ela disse:
- Bom,já pensei.
- E?
- E acho que você acabou de me convencer a não lhe
pagar
quinhentos dólares.
- Foi o que imaginei.
- Porque com certeza não quero vê-lo morto,e nem quero
que
ele vá parar no hospital.Tenho de admitir que gosto da idéia
de ele
ficar assustado,assustado pra valer.E um pouquinho machucado.
Mas é só porque estou com raiva.
- Qualquer um ficaria com raiva.
- Mas,quando supero a raiva . continuou ela .,tudo o que
eu realmente quero é que ele esqueça essa titica dos
dez mil dó-
lares.Pelo amor de Deus,esse é todo o dinheiro que eu tenho
no
mundo!Não quero dar de graça para ele.
- Talvez não tenha que dar.
- Que quer dizer?
- Acho que não é uma questão de dinheiro .
disse Cutler..
Não para ele.Tem a ver com espicaçar você por
tê-lo largado,ou
coisa parecida.Logo,é uma questão afetiva,e é
fácil você subor-
ná-lo.Mas digamos que fosse uma questão de negócios.Você
está
certa e ele está errado,mas brigar dá um trabalho
que não vale a
pena.Assim,vocês entram num acordo.
- Acordo?
- Você sempre arcou com o seu sustento . disse ele .,logo,
não estaria fora de cogitação pagar metade
do custo do cruzei-
ro,não é?
- Não,mas...
- Mas era para ser um presente dele pra você.Esqueça
isso,
por enquanto.Você poderia pagar a metade.Mesmo assim,seria
muito.Então,o que você faz é oferecer dois mil
dólares.Tenho a
impressão de que ele aceitaria.
- Meu Deus!. disse ela.. Eu não consigo nem falar com ele!
Como é que vou lhe oferecer alguma coisa?
- Peça a alguém para fazer a oferta.
- Quer dizer,como um advogado?
- Nesse caso,você passa a dever ao advogado.Não,eu
estava pensando que eu poderia fazer isso.
- Está falando sério?
- Eu não teria falado,se não estivesse.Acho que,se
eu fizesse
a proposta,ele aceitaria.Eu não o ameaçaria,mas há
um jeito de
fazer a coisa pro cara se sentir ameaçado.
- Ele se sentiria ameaçado,com certeza.
- Levo seu cheque comigo,dois mil dólares,pagáveis
a ele.
Meu palpite é que ele aceita e,se aceitar,você não
o ouvirá dizer
mais nada sobre a questão dos dez mil.
- Com isso,eu livro a minha cara por dois mil.E quinhentos
para você?
- Eu não lhe cobraria nada.
- Por que não?
- Só estaria tendo uma conversa com um cara.Não cobro
para conversar.Não sou advogado,sou apenas um sujeito que
tem uns dois estacionamentos.
- E lê romances grossos de jovens escritores indianos.
- Ah,este aqui?Você o leu?
Ela sacudiu a cabeça,num gesto negativo.
- É difícil gravar direito os nomes . disse Cutler
.,especialmente quando a gente não sabe ao certo como pronunciá-los,para
começo de conversa.E é como se você perguntasse
a um sujeito
que horas são e ele lhe dissesse como fazer um relógio.Ou
um
relógio de sol,talvez.Mas é bem interessante.
- Nunca pensei que você gostasse de ler.
- "Estacionamentos Billy ". disse ele.. O cara que conhece
outros caras e sabe providenciar umas coisas.Provavelmente,isso
foi tudo que o Tommy lhe disse sobre mim.
- Mais ou menos.
- Talvez eu seja só isso.Mas ler,bom,essa é uma vantagem
que
eu levo em relação a praticamente todas as pessoas
que conheço.
Descortina outros mundos.Não vivo nesses mundos,mas gosto
de
visitá-los.
- E você apenas pegou o hábito de ler,como pegou o
hábito de
fazer ginástica?
Ele riu.
- É,mas ler é uma coisa que eu faço desde pequeno.Não
preci-
sei sair de circulação para adquirir esse hábito
específico.
- Eu estava me perguntando sobre isso.
- De qualquer jeito,lá é difícil ler,mais difícil
do que as pes-
soas supõem.Faz barulho o tempo todo.
- É mesmo?Eu não imaginava.Sempre achei que seria
assim
que eu leria Guerra e paz ,quando me mandassem para a cadeia.
Mas,se ela é barulhenta,que vá para o inferno.Não
vou para lá.
- Você é incrível . disse ele.
- Eu?
- É,você.Sua aparência,é claro,mas além
da aparência.A úni-
ca palavra que me vem à cabeça é "classe
",só que é uma palavra
quase sempre usada por pessoas que não têm nenhuma.O
que é a
verdade,provavelmente.
- Ora,deixe disso!. fez Dorothy.. Depois da conversa que
acabamos de ter?De você me dissuadir de fazer uma coisa de
que eu
poderia me arrepender a vida inteira,e descobrir um jeito de tirar
aquele filho-da-mãe das minhas costas por dois mil dólares?Isso
é
que eu chamaria de classe!
- Bom,você está me vendo nos meus melhores dias . disse
ele.
- E você está me vendo no que eu tenho de pior,ou quase.
Querendo contratar um sujeito para dar uma surra num ex-namo-
rado.Isso é que é classe,pois sim!
- Não é assim que eu vejo.Eu vejo uma mulher que não
quer
ser intimidada.E,se eu puder encontrar um modo de ajudá-la
a
chegar aonde quer chegar,fico feliz.Mas,no final das contas,você
é uma dama e eu sou um gorila metido a sabichão.
- Não sei o que você quer dizer.
- Sabe,sim.
- É,acho que sei.
Cutler confirmou com um gesto da cabeça.
- Beba . disse.. Eu lhe dou uma carona até a cidade.
- Não precisa fazer isso.Posso pegar o trem intermunicipal.
- Tenho que ir à cidade,de qualquer maneira.Não é
fora de mão levá-la onde você quiser ir.
- Se você tem certeza.
- Tenho certeza . ele respondeu.. Ei,tenho uma outra idéia.
Nós dois precisamos comer e eu lhe disse que eles servem
um bom
filé aqui.Deixe-me oferecer-lhe o jantar,e depois eu a levo
para
casa.
- Jantar . disse ela.
- Um coquetel de camarão,uma salada,um filé,uma batata
assada...
- Você está me tentando.
- Então,deixe-se tentar.É só uma refeição.
Ela o fitou nos olhos.
- Não . disse.. É mais do que isso.
- É mais,se você quiser que seja.Ou será só
uma refeição,se
você quiser assim.
- Mas não há como saber até onde a coisa pode
ir . disse ela.
- Voltamos à mesma questão,não é?Como
o que você disse sobre
o gorila,e sobre parar quando o gorila quer.
- Imagino que o gorila seja eu,hem?
- Você disse que o gorila era a violência.Bom,neste
caso,não
é a violência,mas também não é
nenhum de nós.É o que acontece
entre nós,e já está acontecendo,não
está?
- Você é quem sabe.
Dorothy olhou para as mãos e tornou a erguer os olhos para
ele.
- A pessoa precisa comer.
- Falou e disse.
- E a neblina continua lá fora.
- Densa como sopa de ervilha.E quem sabe?Há uma boa chance
de a neblina ter-se dissipado quando acabarmos de fazer nossarefeição.
- Eu não me surpreenderia nem um pouco . disse ela..
Acho que já está se dissipando.
|