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Fama
e Anonimato,
de Gay Talese (tradução de Luciano Vieira Machado;
Companhia das Letras; 535 páginas; 52 reais) Ao lado
de Tom Wolfe, Gay Talese é um dos grandes expoentes do chamado
new journalism, escola de jornalismo americana que usava
recursos literários nas reportagens. O livro inclui um clássico
do ensaio jornalístico "Como não entrevistar
Frank Sinatra", de 1965. Sinatra não concedeu entrevista
a Talese, que mesmo assim escreveu o perfil definitivo do cantor.
Além de retratar personalidades como Sinatra e o ator Peter
O'Toole, Talese também tem um faro ímpar para o drama
do homem comum. Um dos melhores textos do livro narra a construção
de uma ponte em Nova York, registrando o ponto de vista dos operários
e dos moradores locais.
Leia
trechos
Frank
Sinatra está resfriado
Frank
Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro
na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras
atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir
alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa
parte da noite calado; só que agora, naquele clube particular
em Beverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, através
da fumaça e da meia-luz, um largo salão depois do
balcão, onde dezenas de jovens casais se espremiam em volta
de pequenas mesas ou dançavam no meio da pista ao som trepidante
do foIkrock que vinha do estéreo. As duas loiras sabiam,
como também sabiam os quatro amigos de Sinatra que estavam
por perto, que não era uma boa idéia forçar
uma conversa com ele quando ele mergulhava num silêncio soturno,
uma disposição nada rara em Sinatra naquela primeira
semana de novembro, um mês antes de seu qüinquagésimo
aniversário.
Sinatra
estava fazendo um filme que agora o aborrecia e não via a
hora de terminá-lo; estava cansado de toda a falação
da imprensa sobre seu namoro com Mia Farrow então com
vinte anos, que aliás não deu as caras naquela noite;
estava furioso com um documentário da rede de televisão
CBS sobre a vida dele, que iria ao ar dentro de duas semanas e que,
segundo se dizia, invadia a sua privacidade e chegava a especular
sobre suas ligações com os chefes da máfia;
estava preocupado com sua atuação num especial da
NBC intitulado Sinatra - um homem e sua música, no qual ele
teria de cantar dezoito canções com uma voz que, naquela
ocasião, poucas noites antes do início das gravações,
estava debilitada, dolorida e insegura. Sinatra estava doente.
Padecia de uma doença tão comum que a maioria das
pessoas a considera banal. Mas quando acontece com Sinatra,
ela o mergulha num estado de angústia, de profunda depressão,
pânico e até fúria. Frank Sinatra está
resfriado.
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