Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

Contos e Novelas Reunidos, de Samuel Rawet (Civilização Brasileira; 490 páginas; 49,90 reais) – O livro reúne os principais títulos da obra desse autor que, há muito tempo ausente das livrarias, era um nome cult nos sebos. Tipo difícil e solitário, Rawet foi encontrado morto num apartamento em Sobradinho, em 1984. A morte na cidade-satélite de Brasília – capital que ele, como engenheiro, havia ajudado a construir – é emblemática de sua posição excêntrica na literatura brasileira. Nascido numa comunidade judaica na Polônia e criado num subúrbio carioca, Rawet construiu sua obra em torno do exílio e do estranhamento cultural. No conto A Prece, por exemplo, os vizinhos de uma família judaica confundem cerimônias fúnebres da religião com algum tipo de ritual satânico.

. Leia trechos

O petroleiro norueguês

Era um homem estranho, dado a idéias estranhas, e naquele momento, sentado no banco do aeroporto, não conseguia saber exatamente o que desejava o tipo ruivo, baixo, de rosto retangular e farto, de rugas espaçadas por convexidades de fartura e sol. Primeiro porque olhava para as nuvens, não propriamente para ver nuvens, mas obedecendo a um impulso do pescoço que se recusava a tomar outra posição, segundo porque não eram bem as nuvens que o interessavam, terceiro porque estava em fase de treino, já bem adiantado, em não permitir que lhe turvassem o próprio egoísmo com outros egoísmos um pouco mais úteis. Custou a perceber que a língua do ruivo não era bem a sua, ou mais exatamente, a que usava diariamente, e que era mais ou menos a usada na região em que vivia. Uma reminiscência em que se fundiam o grotesco-trágico de uma situação limite e uma gargalhada retardou-lhe ainda mais a vontade de abrir uma brecha ao entendimento. Só esse fato seria suficiente para mantê-lo alheado, não existisse um outro menos importante, talvez. Nada especial nas nuvens, nenhuma forma a sugerir fantasias ou a nutrir divagações. Meia hora ainda para a saída de seu avião. A véspera chuvosa deixara na tarde um rastro de umidade, uns salpicos de brisa a acentuar a diferença entre as faixas de sombra e as ensolaradas, ao longo do corredor de espera. Seu banco, junto ao desembarque das bagagens, após a chegada do último avião, não atraía ninguém que pudesse interferir em sua estranheza. Só o ruivo como que lançado de banco em banco, de uma extremidade à outra, ali parou, e como não houvesse mais ninguém além dele parecia disposto a não desistir enquanto permanecesse sua interrogação. O esforço exigido para encarar o ruivo e desviar a atenção das nu-vens seria suficiente para não acrescentar mais nada ao que dele exigiam. Doloroso demais. De relance, entreviu além dos balcões de jornais e revistas e da tabacaria o do café. A melhor solução seria levantar-se e atravessar o ruivo em direção a uma xícara quente. Como quem percorre um espaço desimpedido. Mas a solicitação do pescoço foi mais intensa e voltou às nuvens. Com a calma de mola que regressa à sua forma após os incômodos de uma deformação. Oscilava entre duas nuvens. Uma com os contornos bem definidos, outra com uma faixa tênue de rarefações entre o compacto branco do centro e o azul desbotado da periferia. Baixou a cabeça e apoiou o queixo e a testa nas mãos justapostas, como em oração. Apenas as pontas dos dedos se tocavam; mas entre os dois arcos de polegar e indicador um sorriso malicioso se esboçou, e decidiu manter uma posição ambígua. O que lhe interessava não era propriamente auxiliar o ruivo mas sim entender o que procurava dizer numa língua que não conhecia e de que nunca ouvira uma palavra. Um artifício, talvez, em não se oferecer totalmente, em preservar a sua inacessibilidade, ou um modo meio matreiro de não se recusar totalmente aos avanços do outro. O ruivo se desloca um pouco para a direita e baixa o corpo de modo a se enquadrar em seu campo visual, a impor a sua presença. A camisa limpa e a gravata oscilavam diante dele e o colarinho meio machucado sugeria uma displicência agradável. Os ruídos prosseguiam e às vezes eram sons, mas nunca além disso. A boca se ovalava e um jato expirado dava idéia de que a língua feria o palato, ou se alargava e a ponta comprimia os incisivos superio-res, ou se fechava e os lábios faziam movimentos acompanhados de entonação nasal. A regularidade das emissões afastou uma primeira hipótese de que fosse um mudo tentando se comunicar. A própria mímica que o ruivo começou a utilizar desfez qualquer dúvida. Era exatamente a mímica de quem sabe falar, e por isso mesmo incapaz de utilizar apenas os gestos. Afastou as mãos do rosto e ainda obedecendo a um impulso do pescoço encostou a nuca no encosto do banco, ultrapassando as nuvens, e fixando os olhos no teto. Os movimentos do ruivo não eram desesperados ainda, havia neles uma inquietação, nervosismo contido, havia mesmo uma sugestão de amabilidade, um esboço cordial na gesticulação ainda- não rígida. Para fugir ainda uma vez à imposição do ruivo que se apro-ximara e quase dobrara o peito sobre sua cabeça ele tateou o banco à procu-ra da mala e apertou-a contra o corpo. Com esforço abandonou a atração do teto e ingressou no cotidiano. Abriu a mala, revirou roupas e papéis, abriu a sacola que continha o sabão, o pincel de barba, a escova de dentes (esquecera os chinelos), e encarou com o ruivo, que passou a adotar outra tática. Os ruídos eram mais estridentes, e os gestos de mão e cabeça mais nervosos e precisos. E naquele instante, associando ruídos a reminiscências fragmentárias da intuição compreendeu tudo, compreendeu perfeitamente o que o outro queria dizer. Levantou-se, fez um gesto de quem se desculpa e um sorriso pedindo indulgência, arrastou a mala pelo banco até sentir-lhe o peso nos dedos em gancho, e caminhou para o café. Como pensar em Deus se há um homem no aeroporto preocupado com um petroleiro da Noruega?

 

O profeta

Todas as ilusões perdidas, só lhe restara mesmo aquele gesto. Suspenso já o passadiço, e tendo soado o último apito, o vapor levantaria a âncora. Olhou de novo os guindastes meneando fardos, os montes de minérios. Lá embaixo correrias e línguas estranhas. Pescoços estirados em gritos para os que o rodeavam no parapeito do convés. Lenços. De longe o buzinar de automóveis a denunciar a vida que continuava na cidade que estava agora abandonando. Pouco lhe importavam os olhares zombeteiros de alguns. Em outra ocasião sentir-se-ia magoado. Compreendera que a barba branca e o capotão além do joelho compunham uma figura estranha para eles. Acostumara-se. Agora mesmo ririam da magra figura toda negra, exceto o rosto, a barba e as mãos mais brancas ainda. Ninguém ousava, entretanto, o desafio com os olhos que impunham respeito e confiavam um certo ar majestoso ao conjunto. Relutou com os punhos trançados nas têmporas à fuga de seu interior da serenidade que até ali o trouxera. Ao apito surdo teve consciência plena da solidão em que mergulhava. O retorno, única saída que encontrara, afigurava-se-lhe vazio e inconseqüente. Pensou, no momento de hesitação, ter agido como criança. A idéia que se fora agigantando nos últimos tempos e que culminara com a sua presença no convés, tinha receio de vê-la esboroada no instante de dúvida. O medo da solidão aterrava-o mais pela experiência adquirida no contato diário com a morte. Em tempo ainda.

- Desçam o passadiço, por favor, desçam!...

A figura gorda da mulher a seu lado girou ao ouvir, ou ao julgar ouvir, as palavras do velho.

- O senhor falou comigo?

Inútil. A barreira da língua, sabia-o, não lhe permitiria mais nada. O rosto da mulher desfigurou-se com a negativa e os olhos de súplica do velho. Com exceções, o recurso mesmo seria a mímica e isso lhe acentua-ria a infantilidade que o dominava. Só então percebeu que murmurara a frase, e envergonhado fechou os olhos.

- Minha mulher, meus filhos, meu genro.

Aturdido mirava o grupo que ia abraçando e beijando, grupo estranho (mesmo o irmão e os primos, não fossem as fotografias remetidas antes ser-lhe-iam estranhos, também), e as lágrimas que então rolaram não eram de ternura, mas gratidão. Os mais velhos conhecera-os quando crianças. O próprio irmão havia trinta anos era pouco mais que um adolescente. Aqui se casara, tivera filhos e filhas, e casara a filha também. Nem recolhido às molas macias do carro que o genro guiava cessaram de correr as lágrimas. Às perguntas em assalto respondia com gestos, meias-palavras, ou então com o silêncio. O corpo magro, mas rijo, que apesar da idade produzira trabalho, e garantira sua vida, oscilava com as hesitações do tráfego, e a vista nenhuma vez procurou a paisagem. Mais parecia concentrar-se como que respondendo à avalanche de ternura. O que lhe ia por dentro seria impossível transmitir no contato superficial que iniciava agora. Deduziu que seus silêncios eram constrangedores. Os silêncios que se sucediam ao questionário sobre si mesmo, sobre o que de mais terrível experimentara. Esquecer o acontecido, nunca. Mas como ames-quinhá-lo, tirar-lhe a essência do horror ante uma mesa bem posta, ou um chá tomado entre finas almofadas e macias poltronas? Os olhos ávidos e inquiridores que o rodeavam não teriam- ouvido e visto o bastante para também se horrorizarem e com ele participar dos silêncios? Um mundo só. Supunha encontrar aquém-mar o conforto dos que como ele haviam sofrido, mas que o acaso pusera, marginalmente, a salvo do pior. E consciente disso partilhariam com ele em humildade o encontro. Vislumbrou, porém, um ligeiro engano.

O apartamento ocupado pelo irmão ficava no último andar do prédio.- A varanda aberta para o mar recebia à noite o choque das ondas com mais furor que de dia. Ali gostava de sentar-se (voltando da sinagoga após a prece noturna) com o sobrinho-neto no colo a balbuciarem ambos coisas não sabidas. Os dedos da criança embaraçavam-se na barba e às vezes tenteavam com força uma ou outra mecha. Esfregava então seu nariz duro ao arredondado e cartilaginoso e riam ambos um riso solto e sem intenções. Entretinham-se até a hora em que o irmão voltava e iam jantar.

Nas primeiras semanas houve alvoroço e muitas casas a percorrer, muitas mesas em que comer, e em todas revoltava-o o aspecto de coisa curiosa que assumia. Com o tempo, arrefecidos os entusiasmos e a curiosidade, ficara só com o irmão. Falar mesmo só com este ou a mulher. Os outros quase não o entendiam, nem os sobrinhos, muito menos o genro, por quem principiava a nutrir antipatia.

- Aí vem o "Profeta"!

Mal abrira a porta, a frase e o riso debochado do genro surpreenderam-no. Fez como se não tivesse notado o constrangimento dos outros. Atrasara-se no caminho da sinagoga e eles já o esperavam à mesa. De relance, percebeu o olhar de censura do irmão e o riso cortado de um dos pequenos. Só Paulo (assim batizaram o neto, que em realidade se chamava Pinkos) agitou as mãos num blá-blá como a reclamar a brincadeira perdida. Mudo, depositou o chapéu no cabide, ficando só com a boina preta de seda. Da língua nada havia ainda aprendido. Mas, observador, se bem que não arriscasse, conseguiu por associação gravar alguma coisa. E o "profeta" que o riso moleque lhe pespegara à entrada, ia-se tornando familiar. Seu significado não o atingia. Pouco importava, no entanto. A palavra nunca andava sem um olhar irônico, uma ruga de riso. No banhei-ro (lavava as mãos) recordou as inúmeras vezes em que os mesmos sons foram pronunciados à sua frente. E ligou cenas. Do fundo boiou a lembrança de coisa análoga no templo.

O engano esboçado no primeiro dia acentuava-se. A sensação de que o mundo deles era bem outro, de que não participaram em nada do que fora (para ele) a noite horrível, ia se transformando lentamente em objeto consciente. Eram-lhe enfadonhos os jantares reunidos nos quais ficava à margem. Quando as crianças dormiam e outros casais vinham conversar, apa-lermava-se com o tom da palestra, as piadas concupiscentes, as cifras sempre jogadas, a propósito de tudo, e, às vezes, sem nenhum. A guerra o des-pojara de todas as ilusões anteriores e afirmara-lhe a precariedade do que antes era sólido. Só ficara intacta sua fé em Deus e na religião, tão arrai-gada, que mesmo nos transes mais amargos não conseguira expulsar. (Já o tentara, reconhecia, em vão.) Nem bem se passara um ano e tinha à sua frente numa monótona repetição o que julgava terminado. A situação parasitária do genro despertou-lhe ódio, e a muito custo, dominou-o. Vira outras mãos em outros acenos. E as unhas tratadas e os anéis, e o corpo ro-liço e o riso estúpido e a inutilidade concentravam a revolta que era ge-ral. Quantas vezes (meia-noite ia longe) deixava-se esquecer na varanda com o cigarro aceso a ouvir numa fala bilíngüe risadas canalhas (para ele) entre um cartear e outro.

- Então é isso?

Os outros julgariam caduquice. Ele bem sabia que não. O monólogo fora-lhe útil quando pensava endoidar. Hoje era hábito. Quando só, descarregava a tensão com uma que outra frase sem nexo senão para ele. Recordava-se que um dia (no início, logo) esboçara em meio a alguma conversa um tênue protesto, dera um sinal fraco de revolta, e talvez seu indicador cortasse o ar em acenos carregados de intenções. O mesmo na sinagoga quando a displicência da maioria tumultuara uma prece.

- Esses gordos senhores da vida e da fartura nada têm a fazer aqui - murmurara algum dia para si mesmo.

Talvez daí o profeta. (Descobrira, depois, o significado.)

Pensou em alterar um pouco aquela ordem e principiou a narrar o que havia negado antes. Mas agora não parecia interessar-lhes. Por condescendência (não compreendiam o que de sacrifício isso representava para ele) ouviram-no das primeiras vezes e não faltaram lágrimas nos olhos das mulheres. Depois, notou-lhes aborrecimento, enfaro, pensou descobrir censuras em alguns olhares e adivinhou frases como estas: "Que quer com tudo isso? Por que nos atormenta com coisas que não nos dizem respeito?" Havia rugas de remorso quando recordavam alguém que lhes dizia respeito, sim. Mas eram rápidas. Sumiam como um vinco em boneco de borracha. Não tardou que as manifestações se tornassem abertas, se bem que mascaradas.

- O senhor sofre com isso. Por que insiste tanto?

Calou. E mais que isso, emudeceu. Poucas vezes lhe ouviram a palavra,- e não repararam que se ia colocando numa situação marginal. Só Pinkos (ele assim o chamava) continuava a trançar sua barba, esfregar o nariz, e contar histórias intermináveis com seus olhos redondos. Inutilidade.

O mar trazia lembranças tristes e lançava incógnitas. Solidão sobre solidão. Interrogava-se, às vezes, sobre sua capacidade de resistir a um meio que não era mais o seu. Chiados de ondas. Um dedo pequeno mergulhado em sua boca e um riso ao choque. Riso sacudido. Poderia condenar? Não, se fosse gozo após a tormenta. Não, não poderia nem condenar a si mesmo se por qualquer motivo aderisse, apesar da idade. Mas os outros? Cegos e surdos na insensibilidade e auto-suficência! Erguia-se então. Caminhava pelos cômodos, perscrutando no conforto um contraste que sabia- de antemão não existir. Aliciava argumentos contra si mesmo, inu-tilmente. E do fundo um gosto amargo, decepcionante. Os dias se acumulavam na rotina e lhe era penosa a estada aos sábados na sinagoga. O livro de orações aberto (desnecessário, de cor murmurava todas as preces), fechava os olhos às intrigas e se punha de lado, sempre de lado. No caminho admirava as cores vistosas das vitrinas, os arranha-céus se perdendo na volta- do pescoço, e o incessante arrastar de automóveis. E nisso tudo pesava-lhe a solidão, o estado de espírito que não encontrara afinidade.

Soube ser recente a fortuna do irmão. Numa pausa contara-lhe os anos de luta e subúrbio, e triunfante, em gestos largos, concluía pela segurança atual. Mais que as outras sensações essa ecoou fundo. Concluiu ser impossível a afinidade, pois as experiências eram opostas. A sua, amarga. A outra, vitoriosa. E no mesmo intervalo de tempo!? Deus, meu Deus! As noites de insônia sucederam-se. Tentou concluir que um sentimento de inveja carregava-lhe o ódio. Impossível. Honesto consigo mesmo entreviu sem forças essa conclusão. E suportou o oposto, mais difícil. As formas na penumbra do quarto (dormia com o neto) compunham cenas que não esperava rever. Madrugadas horríveis e ossadas. Rostos de angústia e preces evolando das cinzas humanas. As feições da mulher apertando o xale no último instante. Onde os olhos, onde os olhos que mudos traíram o grito animal? Risada canalha. Carteado. Cifras. Olha o "profeta" aí! E caras de gozo gargalhando do capote suspenso na cadeira. Impossível.

Gritos amontoados deram-lhe a notícia da saída. Olhou o cais. Lentamente a faixa dágua aumentava aos acenos finais. Retesou todas as fibras do corpo. Quando voltassem da estação de águas encontrariam a carta sobre a mesa. E seriam inúteis os protestos, porque tardios. Aproveitara as duas semanas de ausência. O passaporte de turista (depois pensavam em torná-lo permanente) facilitara-lhe o plano. O dinheiro que possuía esgotou-se à compra da passagem. Regresso. A empregada estranhou um pouco ao vê-lo sair com a mala. Mas juntou o fato à figura excêntrica que no início lhe infundira um pouco de medo. Planos? Não os tinha. Ia apenas em busca da companhia de semelhantes, semelhantes, sim. Talvez do fim. As energias que o gesto exigiu esgotaram-no, e a fraqueza trouxera hesitações. E ante o irremediável os olhos frustrados dilataram-se na ânsia de travar o pranto. Miúdas, já, as figuras acenando. O fundo montanhoso, azulando num céu de meio-dia. Blocos verdes de ilhotas e espumas nos sulcos dos lanchões. (Há sempre gaivotas. Mas não conseguiu vê-las.) Novamente os punhos cerrando e trançando, as têmporas apoiadas nos braços, e a figura negra, em forma de gancho, trepidando em lágrimas.



 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio