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Moscou
contra 007, de
Ian Fleming (tradução de Sylvio Gonçalves;
Record; 318 páginas; 36 reais) Antes de se tornar
famoso no cinema, interpretado na primeira encarnação
por Sean Connery, James Bond já fazia sucesso nas listas
de best-sellers. O agente 007 veio ao mundo nos anos 50, numa série
de romances do inglês Ian Fleming (1908-1964). Ex-jornalista
que fez reportagens na União Soviética nos anos 30
e atuou no serviço secreto da Marinha britânica na
II Guerra Mundial, o escritor explorou de forma bem-humorada a paranóia
da Guerra Fria nos catorze títulos da série. Há
vários anos fora de catálogo, Moscou contra 007
que deu origem ao filme homônimo volta às
livrarias em nova tradução. No livro, Bond enfrenta
uma organização de espiões criminosos. Espiões
comunistas, é claro. A editora pretende lançar outras
aventuras do agente secreto.
Leia
trecho do livro
O general
G. abriu a pasta e retirou um envelope grande contendo fotografias
que ele esvaziou na superfície de vidro da mesa. Pegou as
fotos uma a uma. Olhou com atenção para elas, ocasionalmente
através de uma lupa que pegou numa gaveta, e deu-as a Nikitin,
que as examinou antes de passá-las adiante.
A primeira foto datava de 1946. Mostrava um rapaz moreno sentado
a uma mesa no terraço de um restaurante. Sobre a mesa havia
um copo alto e, ao seu lado, um sifão de água tônica.
O braço esquerdo repousava na mesa. Um cigarro espremia-se
entre os dedos da mão direita, que pendia da borda da mesa.
As pernas estavam cruzadas naquela atitude que apenas os ingleses
adotam: com o calcanhar direito apoiado sobre o joelho esquerdo
e a mão direita segurando o calcanhar. Uma pose descuidada.
O homem não sabia que estava sendo fotografado de um ponto
a cerca de seis metros.
A foto seguinte era de 1950. O rosto e os ombros estavam borrados,
mas pertenciam ao mesmo homem. Era um plano fechado, e Bond fitava
com olhos cautelosos alguma coisa um pouco acima da câmera,
talvez o rosto do fotógrafo. Uma minicâmera disfarçada
de botão, deduziu o general G.
A terceira foto era de 1951. Tirada do canto esquerdo, bem de perto,
mostrava o mesmo homem num terno escuro, sem chapéu, caminhando
por uma rua larga e vazia. Estava passando diante uma loja cujo
letreiro dizia Charcuterie. Ele aparentava estar indo
com pressa a algum lugar. O perfil afilado apontava diretamente
para a frente, e a curva do cotovelo direito sugeria que estava
com a mão direita no bolso do paletó. O general G.
refletiu que a foto provavelmente fora tirada de dentro de um carro.
A expressão resoluta e o jeito determinado de andar pareciam
responder a algum perigo, como se o homem estivesse se dirigindo
rapidamente a alguma coisa ruim que acontecia no fim da rua.
A quarta e última fotografia estava marcada Passe. 1953.
O canto do Selo Real e as letras ...GABINETE MONÁRQUICO
no segmento de um círculo apareciam no canto inferior direito.
A fotografia, que fora ampliada de uma foto 3x4, devia ter sido
batida numa fronteira, ou pelo porteiro de um hotel quando Bond
apresentou seu passaporte. O general G. examinou cuidadosamente
o rosto com sua lente de aumento.
Era um rosto moreno, de feições elegantes, com uma
cicatriz esbranquiçada de sete centímetros e meio
sobre a pele bronzeada da bochecha direita. Os olhos eram grandes
e nivelados debaixo de sobrancelhas bastante compridas. O cabelo
era preto, partido no lado esquerdo e penteado cuidadosamente de
modo que uma grossa mecha preta caía sobre a sobrancelha
direita. O nariz reto e longo descia até um lábio
superior curto abaixo do qual havia uma boca bem bonita, mas cruel.
A linha do queixo era reta e firme. Uma vestimenta composta por
terno escuro, camisa branca e gravata de tricô preta completavam
o quadro.
O general G. segurou a fotografia com o braço esticado. Decisão,
autoridade, crueldade... essas qualidades ele conseguia ver. Ele
não se importava com o que mais havia dentro do homem. Passou
a fotografia para os outros e abriu o fichário, correndo
os olhos por cada página e passando bruscamente para a seguinte.
As fotografias voltaram para ele. O general marcou o ponto em que
estava com um dedo e olhou rapidamente para cima.
- Parece um inimigo perigoso - disse secamente. - Seu histórico
confirma isso. Lerei alguns trechos. Em seguida deveremos decidir.
Está ficando tarde.
Voltou à primeira página e começou a ler em
voz alta os pontos que lhe tinham chamado a atenção.
- Nome de batismo: JAMES. Altura: 183 centímetros.
Peso: 76 quilos. Magro. Olhos: azuis. Cabelo: preto. Cicatrizes
na face direita e no ombro esquerdo. Sinais de cirurgia plástica
nas costas da mão direita (veja Apêndice A).
Atleta completo. Especialista em manejo de pistolas, boxe,
arremesso de facas. Não usa disfarces. Línguas: francês
e alemão. Fumante inveterado. (Nota: cigarros especiais
com três faixas douradas.) Vícios: bebida, mas não
em excesso, e mulheres. Nenhum registro de corrupção.
O general G. saltou uma página e prosseguiu:
- O homem invariavelmente anda armado com uma Beretta automática
calibre 25, que porta num coldre debaixo do braço esquerdo.
Pente de oito balas. Há notícias de que carrega uma
faca amarrada no braço esquerdo. Já usou como arma
sapatos com biqueiras de ferro. Conhece os rudimentos do judô.
Em geral, luta com tenacidade e possui uma tolerância elevada
à dor (veja Apêndice B).
O general G. folheou mais algumas páginas, lendo trechos
dos relatórios de agentes dos quais esses dados haviam sido
extraídos. Chegou à última página antes
dos apêndices que detalhavam os casos dos quais Bond fora
encarregado. Correu o olho até o fundo e leu:
- Conclusão. Este homem é um profissional em
terrorismo e espionagem de alta periculosidade. Trabalha
para o Serviço Secreto britânico desde 1938 e agora
(veja a ficha de Highsmith de dezembro de 1950) porta o número
secreto 007 desse Serviço. O zero-zero identifica
um agente que já matou e que possui licença para matar
em serviço ativo. Acredita-se que existam apenas dois outros
agentes britânicos com essa autoridade. O fato de que esse
espião foi condecorado em 1953 com o CMG, um prêmio
usualmente conferido apenas a agentes que se aposentam do Serviço
Secreto, é uma medida de seu valor. Se encontrado no campo,
o fato e os detalhes completos devem ser reportados ao QG (vide
Ordens de Serviço Permanentes para SMERSH, MGB e GRU de 1951
em diante).
O general G. fechou a pasta e deu um tapa decidido na capa.
- E então, camaradas, estamos de acordo?
- Sim - respondeu bem alto o coronel Nikitin.
- Sim - disse o general Slavin numa voz entediada.
O general Vozdvishensky estava olhando para as próprias unhas.
Ele estava enjoado de assassinatos. Fartara-se disso em seu período
na Inglaterra.
- Sim - disse ele. - Suponho que sim.
O general G. estendeu a mão até o telefone interno
e falou com o seu ajudante-de-ordens.
- Mandado de morte - disse rudemente. - Faça-o no nome de
James Bond. - Ele soletrou o nome. - Descrição:
Angliski Spion. Crime: Inimigo do Estado.
Tornou a colocar o telefone no gancho e se curvou para a frente
em sua cadeira.
- E agora será uma questão de planejar uma konspiratsia
apropriada. E que seja à prova de falhas! - Esboçou
um sorriso cruel. - Não podemos ter em nossas mãos
mais um caso Khoklov.
A porta se abriu e o ajudante-de-ordens entrou trazendo uma folha
de papel amarela reluzente. Ele a colocou na frente do general G.
e saiu. O general G. correu os olhos pelo papel e escreveu as palavras
A ser morto. Assinou Grubozaboyschikov no cabeçalho do grande
espaço vazio do canto. Passou o papel para o homem da MGB
que o leu e escreveu Matar. Assinou Nikitin e passou papel para
o diretor da GRU. Este escreveu Matar e assinou Slavin. Um dos ajudantes-de-ordens
passou o papel para o homem em roupas civis sentado ao lado do representante
da RUMID. O homem colocou o papel na frente do general Vozdvishensky
e deu-lhe uma caneta.
O general Vozdvishensky leu o documento atentamente. Levantou lentamente
os olhos para o general G., que o observava, e, sem olhar para baixo,
escreveu o Matar mais ou menos debaixo das outras assinaturas
e rabiscou o seu nome depois. Então afastou as mãos
do papel e se levantou.
- Isto é tudo, camarada general? - perguntou afastando sua
cadeira.
O general G. estava satisfeito. Seus instintos sobre esse homem
tinham estado certos. Ele teria de ficar de olho nele e passar suas
suspeitas ao general Serov.
- Só um momento, camarada general - disse ele. - Tenho uma
coisa a acrescentar ao mandado.
O papel foi passado de volta para ele. O general pegou sua caneta
e rabiscou o que havia escrito. Escreveu de novo, pronunciando lentamente
as palavras em voz alta enquanto o fazia.
A ser morto, COM DESONRA, Grubozaboyschikov.
Levantou os olhos e sorriu agradavelmente para os homens à
mesa.
- Obrigado, camaradas. Isto é tudo. Notificarei os senhores
a respeito da decisão do Praesidium sobre nossa recomendação.
Tenham uma boa noite.
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