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China S.A., de Ted Fishman (tradução de C.E. de Andrade; Ediouro; 376 páginas; 59,90 reais) – Jornalista e ex-corretor da bolsa, o americano Ted Fishman foi à China para compor um retrato vibrante de uma das economias que mais crescem no mercado internacional. O autor mostra como os chineses, amparados por uma mão-de-obra barata e por uma cultura empresarial dinâmica, estão mudando o modo como se fazem negócios no mundo. Os números que Fishman apresenta são impressionantes – calcula-se, por exemplo, que nos próximos quinze anos 300 milhões de chineses vão se deslocar das zonas rurais para as cidades em busca de empregos. O mais interessante do livro são as entrevistas com os chineses – de operários a empresários – que movem essa potência.

Leia trecho

O século da China

Os norte-americanos e o resto do mundo conseguem enxergar o que está acontecendo na China? Aparentemente, sim. Afinal, a mídia global atualmente cobre os acontecimentos na China tanto com um ardente desejo de documentar sua ascensão quanto com uma confusa percepção de seu desavergonhado consumismo. A imprensa diária relata a correnteza de modas e maravilhas chinesas. Os diários financeiros acompanham o dinheiro do mundo até as portas da China, e umas após outras as revistas comerciais como Automotive News e Modern Plastics vão ficando parecidas com noticiários a respeito da China. Às vezes a impressão é de que tudo o que pode acontecer está acontecendo na China. No período de um mês no outono de 2004, a China realizou sua primeira corrida de Fórmula 1 ao estilo europeu numa pista que custou 320 milhões de dólares, organizou um jogo de exibição da Associação Nacional de Basquete (NBA, sigla em inglês) dos Estados Unidos com seu novo astro global Yao Ming e fez a primeira tourada espanhola num estádio convertido em praça de touros completa, tudo isso em Xangai e diante de platéias entusiasmadas. Ao mesmo tempo chegam notícias de que a cadeia de restaurantes e bares Hooters oferecerá sua curvilínea fantasia norte-americana aos fregueses chineses em oito locais; a Starbucks abrirá centenas de novas filiais na terra do chá, e uma exposição de produtos para adultos atraiu quatro mil fabricantes de artigos eróticos e grandes multidões. Todos os dias aparecem anúncios de novas maneiras pelas quais grandes e pequenos investidores podem participar dos acontecimentos na China por meio de um simples telefonema a um corretor. Informou-se que as memórias de Bill Clinton,* de 2004, assim

 

* O escritor Alex Beels se deu o trabalho de traduzir de volta para o inglês as edições pirateadas do livro My Life (Minha vida) de Bill Clinton, para o Harper’s Magazine. Uma versão chinesa do texto transformava Clinton em ávido sinófilo, pondo na boca do ex-presidente palavras que diziam que a tecnologia chinesa havia deixado os Estados Unidos "comendo poeira". Em outra versão, Clinton diz que sua cidade natal de Hope, no Arkansas, "tem muito bom feng shui".

 

como as de Hillary, em 2003, foram pirateadas e amplamente reescritas com características chinesas; que a China consome a metade da carne de porco do mundo; que a empresa de transporte de cargas FedEx servirá diretamente muitas cidades chinesas; e assim por diante.

O noticiário, no entanto, reflete tanto uma China ilusória quanto a verdadeira China. Para verificar de que maneira o país está realmente mudando, e para reagir de maneira prudente à forma pela qual ele está mudando o mundo, é preciso olhar além das informações surpreendentes. Isso parece coisa simples, mas há muitas forças que o impedem. Por um lado, as notícias que vêm da China estão longe de ser completas. Em épocas de mudanças importantes, o noticiário sempre perde boa parte do quadro geral. No caso da China, onde a informação é estreitamente controlada, esses hiatos são inevitáveis. Por outro lado, o resto do mundo tem suficientes problemas sérios: guerras, para começar, além da política doméstica. Também podemos queixar-nos, em vão, de outros problemas menos sérios. O próprio grupo demográfico — a população entre 18 e 34 anos — que deveria estar mais concentrada no século chinês que se avizinha é também o que mais se distrai com o noticiário que trata dos detalhes da vida das celebridades e das neuroses dos reality shows da televisão. Que surpresa causaria se algum pensionista do programa The Real World estivesse preocupado com seu futuro e estudasse o idioma chinês, ou talvez estivesse atraindo um dos colegas para uma lucrativa espionagem industrial. (E como seria prosaico encontrar seus correspondentes chineses estudando inglês ou se debruçando sobre patentes norteamericanas de medicamentos.) Ainda mais preocupante é o fato de que o público, sobretudo nos países desenvolvidos, evita deliberadamente as questões difíceis relativas a como se preparar e como enfrentar as mudanças inevitáveis e extraordinárias provocadas pela China.

 

Onde foram parar todas as fábricas?

Não há indagação mais importante que saber o que acontecerá ao futuro do trabalho. Se ultimamente o noticiário parece estar normalmente composto de obituários de fábricas das vizinhanças e dos empregos de classe média por elas até então proporcionados, dando a impressão de um êxodo industrial, é possível que isso reflita melhor as tendências da economia do que as estatísticas governamentais constantemente anunciadas que relatam a perda de empregos.

Apesar da generalizada preocupação com a transferência de empregos para países de baixos salários, o governo dos Estados Unidos não produz estatísticas oficiais sobre a migração de empregos, a não ser as que as empresas voluntariamente informem quando se transferem. (A maior parte das companhias, naturalmente, não tem incentivos para anunciar essas decisões, dada a reação cáustica que elas provocam.) Seria útil possuir informação mais precisa a fim de quantificar ou desacreditar essa tendência. Pelo que se sabe, e já se comentou neste livro, a melhoria da produtividade é responsável pelo grande número de empregos industriais perdidos nos Estados Unidos e em todo o mundo, tendência estreitamente ligada à competição da indústria chinesa que recebe salários baixos.

Não obstante, o noticiário diário nos dá indícios constantes de que muitos empregos estão realmente sendo exportados para outras linhas de montagem em lugares distantes. A compilação desses relatos, um por um, agência de notícias por agência de notícias, confirma que as transferências de empregos acontecem freqüentemente e em toda parte. A imensa tarefa de quantificar essas histórias tem sido levada a cabo como parte de uma tentativa periódica da Comissão Revisora Econômica e de Segurança Estados Unidos–China de preencher esse hiato estatístico.

1 Uma contagem recente, que cobre o breve período entre janeiro e março de 2004, está longe de ser abrangente, mas é reveladora.*

O estudo examinou não somente os Estados Unidos, mas também a Europa, a América Latina e também outros países da Ásia. Nos três meses mencionados, 58 empresas norte-americanas, 55 européias e 33 de outros países asiáticos anunciaram planos de transferir empregos para a China. As quantidades aumentaram drasticamente com relação a três anos antes. Durante um período comparável em 2001, somente 25 empresas norte-americanas anunciaram mudança para a China.**

 

* O estudo, concluído em outubro de 2004, foi concebido e conduzido pela dra. Kate Bronfenbrenner, na Universidade Cornell, e pela dra. Stephanie Luce, da Universidade de Massachusetts em Amherst. As duas estudiosas acompanharam relatos da mídia online e nas pesquisas de empresas durante os três meses sob investigação.

** Durante os primeiros três meses de 2004, também houve anúncios de 69 transferências norteamericanas para o México, 31 para a Índia, 39 para outros países da Ásia, 35 para a América Latina e Caribe e 23 para outros países, inclusive da Europa Oriental e Ocidental e do Canadá. No total, houve 255 transferências para fora dos Estados Unidos.

 

Outra grande diferença: muitas das companhias que transferiram empregos dos Estados Unidos para a China em 2004 também os transferiram simultaneamente para outros países de baixos salários.

Extrapolando para o ano inteiro o número de empregos perdidos durante os primeiros três meses, o estudo conclui que os locais de trabalho dos Estados Unidos transferiram 400 mil empregos para outros países no decurso do ano, o dobro dos que haviam sido transferidos no ano anterior. Mesmo assim, os algarismos coligidos pelas agências governamentais norte-americanas, que são pelo menos tão exigentes e obsessivas na compilação de dados econômicos quanto qualquer outro governo do mundo, subestimaram grandemente os empregos que passaram ao exterior. O Escritório de Estatísticas dos Estados Unidos, por exemplo, registrou menos de um quinto dos empregos expatriados.

Dos empregos que mudaram de lugar em 2004, um quarto foi para a China. No entanto, o papel da China na migração é muito desproporcional a essa quantidade. A pressão exercida pela China sobre outros países de salários baixos para reduzirem o preço do trabalho torna esses países mais atraentes para empresas norteamericanas que buscam locais baratos. Esse é o caso das maquiadoras mexicanas, cujos trabalhadores são forçados a fazer concessões salariais sob a ameaça de perderem seus empregos para o operariado menos bem remunerado da China. A produtora de autopeças Delphi é um dos maiores empregadores do setor privado no México, com setenta mil operários em suas folhas de pagamento. Em 2003, a empresa tinha cinco mil trabalhadores na China, número que a Delphi deixou claro que iria crescer. A firma também esclareceu que esperava que o México melhorasse seus incentivos, inclusive reduções de impostos, se desejasse mantê-la integralmente comprometida com o país.2

O papel da China nessa transformação é também evidente na composição da cesta de empregos atualmente exportados. Os empregos norte-americanos transferidos para a China se concentravam em indústrias como as de aparelhos eletrônicos e brinquedos, para as quais os países de baixos salários sempre são atraentes. Já em 2004, as migrações se dividiam por um número muito maior de atividades que reflete mais de perto o panorama industrial do país. O estudo revelou que as firmas que mais ativamente transferiam empregos para a China eram grandes, abertas ao público, altamente lucrativas e antigas. Quase três em cada quatro das que transferiram empregos eram afiliadas de multinacionais norte-americanas.

Talvez previsivelmente, os empregos dos operários sindicalizados são os mais vulneráveis à atração da China. Não somente as empresas sindicalizadas correm maior risco de ver seu local de trabalho nos Estados Unidos eliminado pelos chefes que encontram fábricas não-sindicalizadas e muito baratas na China, mas a partida de indústrias sindicalizadas em determinado ramo pode causar um efeito de imitação entre firmas não-sindicalizadas do mesmo ramo, que passam a mandar empregos para o exterior.

O efeito sobre a economia norte-americana é profundo. Eliminar o trabalho organizado também enfraquece o grupo mais qualificado para proteger os interesses dos trabalhadores nas repartições do governo e nas diretorias das empresas. Sem essa voz, as ambições globais das grandes empresas têm mais facilidade para isolar seus atuais empregados. Ao depor em setembro de 2004 em audiências no Congresso norte-americano sobre o impacto da China nas indústrias manufatureiras, William Burga, presidente da AFL-CIO* do estado de Ohio, observou que, se houvesse comparecido à mesma comissão dois anos antes, teria falado em nome de mais cem mil membros do sindicato, mas que o encolhimento das manufaturas durante o período havia reduzido a participação na agremiação de 850 mil para 750 mil membros.3

Ainda mais preocupante que a onda de notícias sobre empregos já perdidos é a perspectiva do futuro para os Estados Unidos e outros países. Que possibilidades existem de que a força de trabalho de um país se afirme, se a tendência das empresas em dirigir-se à China e outros destinos de baixos salários solapa o poder do trabalhismo para participar da agenda nacional? Ou quando fábricas norte-americanas, européias e japonesas são guarnecidas por fantasmas de software cuja capacitação nenhum ser humano pode igualar? À medida que as fábricas vão ficando mais produtivas e ao mesmo tempo reduzindo suas folhas de pagamento até o osso, para onde irá a classe média que desde o final da Segunda Guerra Mundial vem impulsionando as economias avançadas do mundo? Estará o mundo desenvolvido destinado a uma maré vazante que dispersará todos os barcos?

 

* Sigla da AFL-CIO (American Federation of Labor/Committee of Industrial Organization), a mais poderosa organização sindical dos Estados Unidos. (N. do T.)

 

"A única maneira de conservar nossa segurança e prosperidade é a constante inovação", diz Deborah Wince-Smith, presidente do Conselho de Competitividade, uma coalizão de empresas norte-americanas, grupos trabalhistas e instituições educativas. Wince-Smith argumenta que a capacidade de inovação da economia é a chave da melhoria da produtividade, que por sua vez é o mais importante elemento da competitividade e do crescimento econômico.

Michael Cox, do Federal Reserve Bank de Dallas, diz que o principal problema para os Estados Unidos é não possuir suficientes empreendedores globais. Observa ele que o país pode ver-se em situação de ter de exportar ainda mais empregos em manufaturas e serviços que atualmente exporta, caso os norte-americanos tenham aptidão e criatividade para oferecer ao mundo novos bens e serviços. "Não há motivo para que um em cada quatro norte-americanos trabalhando nos Estados Unidos não seja capaz de executar as funções de 95 pessoas em outro lugar do mundo", diz ele. "Se fizéssemos isso, empregaríamos toda a nossa força de trabalho."

Mas há uma complicação importante. A inovação não tem melhores condições de surgir quando pessoas inteligentes trabalham em pequenos grupos ou geograficamente isoladas, e sim quando se aproveitam de um ambiente que lhes proporciona profundo conhecimento de sua indústria. Os projetistas dos chips que saem das linhas de montagem não recebem as informações dos operários profissionais que os ajudam a otimizar seus desenhos. As firmas de software que trabalham longe dos corredores técnicos do mundo não se beneficiam das correntes de trabalhadores que vêm e vão entre as empresas, ou das idéias compartilhadas por grupos de amigos ao almoço.

Para que os Estados Unidos continuem sendo a economia mais inovadora, é preciso que sejam também a economia mais completa.

Uma das armas econômicas mais poderosas da China é sua capacidade de atrair grupos inteiros de indústrias, adquirindo a massa crítica de empresas que catalisam o fermento criativo que leva à inovação veloz. As telecomunicações globais e as conexões aéreas regulares podem ser muito importantes para encurtar as distâncias do exército de empreendedores globais do país, de que falava Cox, mas os norte-americanos que procuram oportunidade em terras distantes terão de passar muito tempo recriando a rede de relacionamentos que se perdeu à medida que os conjuntos de indústrias nos Estados Unidos se despovoam, se transferem ou fazem ambas as coisas.

1 Kate Bronfenbrenner e Stephanie Luce, "The Changing Nature of Corporate Global Restructuring: The Impact of Production Shifts on Jobs in the U.S., China and Around the Globe" (apresentado à U.S.-China Economic and Security Review Commission em 14 de outubro de 2004),

http:// www.uscc.gov/researchreports/2004/cornell_u_mass_report.pdf.

2 Tom Hartley, "As Delphi Eyes China, Mexican venture Uncertain", Business First (Buffalo, Nova York), 11 de agosto de 2003.

3 "U.S.-China Trade and I nvestment: Impact on Key Manufacturing and Industrial Sectors: Fiel Hearing in Akron, Ohio, 23 de setembro de 2004, U.S.-China Economic and Security Review Commission", http://www.uscc.gov/hearings/2004hearings/transcripts/04_09_ 23.pdf.

 

 

 


 
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