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O Caçador de Autógrafos, de Zadie Smith (tradução de Beth Vieira; Companhia das Letras; 392 páginas; 49 reais) – O primeiro romance da inglesa Zadie Smith, o aclamado Dentes Brancos, retratava uma Londres pós-colonial habitada por imigrantes das mais variadas procedências. O mesmo cenário multicultural também aparece em O Caçador de Autógrafos, cujo protagonista, Alex-Li Tandem, é filho de pai chinês e mãe judia. O tema central, porém, é a indústria da celebridade. Alex-Li ganha a vida vendendo autógrafos de figuras famosas. Obcecado por uma vedete dos anos 40, ele viaja para Nova York na tentativa de encontrá-la. Zadie Smith mistura as mais variadas referências culturais nesse romance, do mundo pop ao esoterismo da cabala, em uma narrativa marcada pelo humor.

Leia trecho

[…]

Num cruzamento, param de falar todos ao mesmo tempo e o silêncio gruda por alguns instantes, como se alguém o tivesse cuspido no pára-brisa e estivessem assistindo a seu lento escorregar. Mountjoy vai aos poucos ficando para trás, o bairro e seus atarracados palácios suburbanos com suas árvores podadas. É ali que eles moram, e o trânsito prova que, aos sábados, e à primeira oportunidade, qualquer um que more em Mountjoy tenta escapulir. Estão todos exercendo seu direito de proprietário. Não se esqueceram daquele rapaz ambicioso de bigodinho fino e gravata acrílica que os levou para ver suas futuras casas, discorrendo sobre redução no número de vôos, proteção de quina em todas as paredes, detalhes originais de acabamento e aquele fantástico trajeto — promessa de todo fictícia, como se viu depois — de trinta minutos até o centro. Ninguém protesta. Qualquer um que espere algo diferente de Mountjoy, que alimente alguma ilusão a respeito do sistema de mão única de Mountjoy, bem, tal pessoa jamais moraria em Mountjoy. Os habitantes de Mountjoy alicerçaram a vida nos meios-termos e, todas as noites, aceitam com silenciosa dignidade os tampões de ouvido, as enxaquecas e as dores musculares decorrentes do estresse adquirido em troca de casas baratas situadas bem debaixo da rota de vôo de um aeroporto internacional. Esta aqui não é a Terra Prometida. É, isso sim, um bairro de preços módicos, casas da década de 50, trancas e aquecimento central-padrão, escolas incluídas, na extremidade norte da cidade de Londres. Para Li-Jin, cai como uma luva porque não há problema para estacionar e ele sempre teve consultório no bairro. Além do mais, conhece todo mundo. Há uma vizinhança judaica considerável e isso é do agrado de Sarah. Para Alex-Li serve como uma luva porque qualquer lugar serviria. Adam, o único menino negro por muitos e muitos quilômetros — possivelmente o único judeu negro em toda esta uga de mundo — odeia Mountjoy com todas as forças, odeia tanto — muito mesmo — de verdade —, de forma tão visceral, que se por acaso algum dia procurar essa palavra no dicionário dirá: é, é bem aí que eu odeio Mountjoy, nas tripas. Quanto a Rubinfine, se Mountjoy fosse uma pessoa, arrancaria a cabeça dela, daria uma mijada em seu olho e cagaria dentro da sua goela.

YHWH

Fato interessante: o pai de Rubinfine, Rubinfine, quer que Rubinfine seja rabino quando crescer. Toda vez que Rubinfine comenta com Li-Jin seu mais recôndito desejo para o futuro de Rubinfine, Li-Jin não sabe o que fazer da própria cara. Na primeira vez em que Rubinfine mencionou o assunto, estavam comendo espaguete à bolonhesa num almoço de negócios em que discutiam maneiras de Li-Jin dar uma guaribada nas contas — foi pego tão de surpresa que teve de ir até o banheiro do restaurante para tirar um macarrão do nariz.

YHWH

Rubinfine: "Uga uga uga. Porra, cara, que calor. Ô gente boa, será que não dá pra desligar o aquecimento, não? Nós já estamos chegando? Nós já estamos chegando? Nósjáestamoschegandonósjáestamoschegandonósjáestamoschegando?

Imitação de um garoto de um filme americano que se cansou de viajar de carro. Eu não vou matá-lo, pensa Li-Jin. Sua cabeça dói.

"Eu não vou matar você", ele diz, olhando Rubinfine pelo espelhinho.

Rubinfine chupa as bochechas feito um peixe. "Hum... Vejamos. Certo. Bom, quer dizer, pensando bem, só daqui a quarenta milhões de anos."

Uma avaliação até que bem razoável da situação, já que Li-Jin tinha um metro e sessenta e sete, com muito boa vontade, e Rubinfine era um baita de um latagão, apesar da idade.

"Você já foi menor um dia", diz Li-Jin.

"Não me diga."

"Foi, sim. A menos que minha memória esteja começando a falhar. Mais simpático não, isso é verdade — apenas menor."

"O recorde", diz Adam, "para um homem permanecer enterrado vivo pertence a Rodrigues Jesus Monti, de Tampa, na Flórida, que passou quarenta e seis dias enterrado no deserto do Arizona, respirando por uma espécie de canudinho bem comprido."

"Onde foi que você viu isso tudo, exatamente?", Rubinfine exige saber, furioso da vida. "Em que canal? Que cara tinha?"

"Não foi na televisão, não. Foi num livro. De recordes. Eu li."

"Bom, cala essa boca, então."

Tirando uma das mãos do volante, Li-Jin pega dois centímetros de pele da têmpora e começa a fazer uma massagem com o polegar e o indicador. Ele costumava aconselhar seus pacientes a imaginar o centro da dor como uma pelota de massa de modelar, ou um pedaço de argila, porque, ao trabalhá-la como se fosse um material plástico, conseguiriam reduzir a dor a um cordão até rompê-la por completo. Era mentira.

"Misericórdia!", esganiça Rubinfine. "Eu e o Ads primeiro. Alex fica com quem ganhar."

Rubinfine e Adam entrelaçam os dedos. É algum tipo de jogo. Querem que Li-Jin conte até três. Mas Li-Jin está num outro mundo, mergulhado na sua dor de cabeça. Olha para duas crianças de uns seis anos de idade, que acenam do carro ao lado, as fisionomias meio borradas pelo vidro escorrido de chuva, feito uma aquarela sentimental. Tenta se lembrar de quando foi que todas as crianças pareciam pequenas e inseguras. Mas que nada, mesmo aos seis anos, Rubinfine sempre fora um tirano dos subúrbios, ainda que usasse táticas diferentes. Naquele tempo, eram só berros, ranho e greves de fome. Rubinfine era o tipo de menino capaz de pôr fogo nas próprias roupas só para ver a cara da mãe. Adam, se Li-Jin não estiver trocando as bolas, havia mudado da água para o vinho. Aos seis anos, era americano. Mais que isso, não tinha pai nem mãe. Era como algo saído de um livro. Todos eles apareceram no consultório de Li-Jin num dia de inverno: um avô negro-azulado, Isaac Jacobs, Adam e a irmãzinha dele, chamada…? De todo modo, era ela o motivo. Uma menina de olhos amendoados com problemas no coração e precisando da assistência médica gratuita da Grã-Bretanha. Todos eles judeus negros do Harlem, todos descendentes da tribo de Judá. Vestidos como reis etíopes! Os adultos de Mountjoy levaram um certo tempo para aceitar a idéia de Isaac Jacobs. Com Adam, foi diferente. Adam foi imediatamente tido como o grão-senhor do parquinho. Li-Jin sorriu ao lembrar de Alex chegando em casa um dia e falando de "um menino de filme", como se Adam tivesse saltado das telas para os subúrbios, um daqueles seres de cinema que não morrem jamais. Entretanto, aquilo não poderia durar, para Adam. O sotaque sumiu, o corpo cresceu. Sete anos mais tarde e Adam Jacobs continua sendo castigado por um dia ter surgido num subúrbio agindo como se fosse feito de mágica.

Esther — a menina se chamava Esther. Com os cabelos trançados como um quebra-cabeça. Eles puseram um marca-passo nela.

 

E agora Rubinfine, cansado de esperar pela permissão, entortou para trás as mãos de Adam. Adam berra, porém Rubinfine não se comove.

"A palavra é misericórdia", diz Rubinfine com frieza, soltando Adam, que chora e sopra os nós dos dedos. "Era tudo que você precisava dizer."

"Vocês vão esperar um pouco aqui", diz Li-Jin, parando de repente em frente a uma farmácia. "Alguma queixa?"

"Que fedor é esse?", pergunta Rubinfine.

YHWH

Quando Alex tinha onze anos e Li-Jin começou a sentir dores de cabeça, um médico chinês do Soho diagnosticou o sintoma como sendo resultado da obstrução que Alex-Li fazia ao qi do pai. O médico disse que Li-Jin amava demais o menino, igual a um viúvo a quem restou apenas o filho como lembrança da mulher. Li-Jin amava Alex de forma feminina, em vez de masculina. Seu mu qi (ar materno) era excessivo, bloqueando seus qi-men (passagens de ar). Isso provocara o distúrbio. Besteira. Li-Jin censurou-se por ter chegado a sucumbir às superstições de sua infância em Beijing; nunca mais consultou esse homem nem nenhum outro médico chinês. Passagens de ar? Todo mundo em Mountjoy tinha dor de cabeça. Barulho de avião, poluição, estresse. A profaníssima trindade da vida em Mountjoy. Era vaidade, sem dúvida, presumir que fora eleito para algo especial, para o tumor raríssimo, para o vírus quase desconhecido. Vaidade! Por que haveria de ser algo mais que isso? Depois do encontro, esse médico tão inteligente passou um ano dizendo a si mesmo que não era nada, que estava se comportando como um de seus pacientes idiotas. Sem exames, com dores contínuas, chutando a bola para a frente. Mesmo assim, em algum lugar lá dentro, ele sabia. Sempre soube.


 
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