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Beleza e Tristeza, de Yasunari Kawabata (tradução de Alberto Alexandre Martins; Globo; 282 páginas; 34 reais) – Este é o último livro do japonês Kawabata, que se suicidou em 1972. Neste romance, o Nobel de Literatura de 1968 narra a história de Oki Toshio, um escritor de meia-idade que retorna a Kyoto para ouvir os sinos dos templos na noite de Ano-Novo e para reencontrar Otoko, uma antiga amante. Pintora consagrada, Otoko tem uma aluna jovem e amoral, Keiko. Em torno desses três personagens, Kawabata tece uma reflexão sobre o sentido da arte e da literatura. Há muito tempo fora de catálogo, Beleza e Tristeza aparece em edição revisada. Reparo importante: a tradução não foi feita do original japonês, mas a partir de uma versão inglesa.

Leia trechos

Cinco cadeiras giratórias alinhavam-se ao longo da janela no vagão panorâmico do expresso de Kyoto. Oki Toshio notou que a última cadeira da fila rodopiava mansamente sobre si mesma ao sabor das oscilações do trem. Ele não conseguia desviar os olhos dessa cadeira. Na fileira onde estava sentado, as poltronas eram baixas e fixas e, evidentemente, não rodopiavam sobre si mesmas.

Oki estava sozinho no vagão panorâmico. Profundamente imerso em sua poltrona, ele olhava a cadeira girar à sua frente. Ela não girava sempre na mesma direção nem na mesma velocidade. Às vezes ganhava embalo ou fazia-se mais lenta ou até mesmo parava, para em seguida retomar seu movimento em sentido contrário. Ao ver essa cadeira rodopiar assim no vagão onde se encontrava só, Oki experimentou uma sensação de isolamento, e diversos pensamentos emergiram de seu espírito.

Era 29 de dezembro. Oki dirigia-se a Kyoto para ouvir os sinos de fim de ano.

Há quantos anos Oki adquirira o hábito de ouvir pelo rádio, na véspera do Ano-Novo, o repicar dos sinos anunciando a passagem de um ano a outro? Desde quando existia essa transmissão? Oki, provavelmente, nunca deixara de escutá-la, assim como os comentários dos locutores que apresentavam, uns após os outros, os sinos célebres dos velhos monastérios espalhados pelo país. Como o ano findo ia ceder seu lugar ao Ano-Novo, os apresentadores sentiam-se inclinados, em seus comentários, a pronunciar belas frases em tom declamatório. Com longos intervalos, o velho sino de um monastério budista soava, e o eco que deixava atrás de si fazia sonhar com a alma do velho Japão e com o tempo que escoa. Aos sinos dos monastérios situados ao norte do país sucediam-se os sinos de Kyushu, mas toda entrada de Ano-Novo culminava com os sinos de Kyoto. Os templos em Kyoto eram tantos que às vezes o rádio transmitia os sons simultâneos de inúmeros sinos.

Ao mesmo tempo, sua mulher e sua filha preparavam na cozinha diversos pratos para festejar o Ano-Novo, punham um pouco de ordem na casa, arrumavam seus quimonos ou arranjavam as flores, e, enquanto elas se entregavam a esses afazeres, Oki sentava-se na sala e ouvia o rádio. À medida que soavam os sinos, seu pensamento se voltava, não sem emoção, para o ano que findava. Conforme os anos, a emoção que experimentava revelava-se dolorosa ou violenta. Às vezes, a tristeza e o remorso o atormentavam. Mas o repicar dos sinos ecoava sempre em seu coração, mesmo quando Oki discernia na voz e nos votos dos locutores um sentimentalismo que o repugnava. Por isso, a idéia de estar em Kyoto num 31 de dezembro para ouvir diretamente de lá os sinos dos velhos monastérios o tentava havia muitos anos.

A idéia lhe surgira repentinamente no fim deste ano e ele se pusera a caminho de Kyoto. Secretamente em seu coração, ele também ansiava reencontrar, em Kyoto, Ueno Otoko, que não via há muitos anos, e ouvir os sinos em sua companhia. Desde que ela se mudara para Kyoto e que sua pintura no estilo tradicional lhe trouxera certa notoriedade, Oki praticamente não mais tivera notícias de Otoko. Não imaginava que ela pudesse ter se casado.

Como agira por impulso e não era de seu temperamento fixar com antecedência datas para reservar suas passagens de trem, Oki fora à estação de Yokohama e embarcara, sem reserva, no vagão panorâmico do expresso de Kyoto. Devido às festas de fim de ano, era bem possível que o trem estivesse lotado na linha de Tokaido, mas Oki conhecia o velho empregado do vagão e dizia a si mesmo que ele lhe encontraria um lugar.

Oki apreciava bastante esse trem que partia de Tóquio e de Yokohama no começo da tarde, chegava a Kyoto ao anoitecer e, na volta, saía igualmente de Osaka e Kyoto no começo da tarde. Ele o tomava sempre que ia a Kyoto, e quase todas as moças encarregadas de atender aos passageiros de segunda classe o conheciam de vista.

Uma vez dentro do trem, ele se surpreendeu ao encontrar o vagão de segunda classe vazio. Talvez fossem raros os viajantes num 29 de dezembro e o trem só ficasse realmente lotado no dia 30 ou 31.

Enquanto observava a cadeira giratória rodar, a meada de seus pensamentos levou-o de repente a se indagar sobre o destino. Nesse instante o velho empregado trouxe-lhe chá.

- Estou sozinho? - perguntou Oki.

- Sim, há apenas cinco ou seis passageiros hoje, senhor.

- Estará lotado no dia de Ano-Novo? - Não, normalmente fica quase vazio. O senhor pretende regressar nesse dia?

- Temo que sim...

- Não trabalho no dia de Ano-Novo, mas me encarregarei para que atendam bem ao senhor.

- Obrigado.

Quando o velho empregado partiu, Oki lançou um olhar pelo compartimento e divisou duas valises de couro branco ao pé da última poltrona da fila. De um modelo novo, quadradas e bem pequenas, eram feitas em couro branco com constelações de manchas pálidas quase castanhas. Tratava-se de valises de um gênero desconhecido no Japão, bagagens de qualidade superior. Havia também, colocada sobre uma cadeira, uma enorme bolsa de pele de jaguar. Os proprietários dessa bagagem eram, sem dúvida, norte-americanos e deviam estar no vagão-restaurante.

Do outro lado da janela, as árvores dos bosques flutuavam numa bruma espessa e cálida. Acima da bruma, uma tênue claridade que parecia emanar do chão iluminava longínquas nuvens brancas. Mas, à medida que o trem avançava, o céu tornava-se mais luminoso. Pela janela, os raios de sol invadiram o compartimento. Como o trem passava perto de uma montanha coberta de pinhos, Oki pôde ver que o chão estava juncado de folhinhas secas pontiagudas. Um bosque de bambus tinha as folhas todas amarelas. Vagas brilhantes quebravam-se contra um promontório sombrio.

Dois casais norte-americanos de meia-idade retornaram do vagão-restaurante e, assim que o trem passou por Numazu e o monte Fuji ficou à vista, lançaram-se às janelas e não pararam de tirar fotografias. Mas quando finalmente o monte Fuji se perfilou com nitidez e a planície a seus pés tornou-se visível, eles pareciam cansados de fotografar e viraram as costas para a janela.

O dia de inverno já se aproximava do fim. Oki acompanhou com os olhos a curva prateada e baça de um rio; daí, erguendo a cabeça, voltou seu olhar em direção ao pôr-do-sol. Os últimos raios, brancos e gelados, finalmente se infiltraram nas fendas em forma de arco, rompendo as nuvens negras e ali ficando bastante tempo antes de desaparecer. No compartimento, as luzes haviam sido acesas e as cadeiras giratórias, em resposta a um solavanco do trem, deram, repentinamente, todas de uma vez, meia-volta sobre si mesmas. Mas somente a última cadeira da fila continuou a girar sem parar.

Quando chegou a Kyoto, Oki se instalou no hotel Miyako. Imaginando que talvez Otoko viesse vê-lo no hotel, ele pediu um quarto tranqüilo. O elevador pareceu subir seis ou sete andares, mas como o hotel fora construído em degraus na encosta íngreme das Colinas do Leste, depois de atravessar um longo corredor Oki se encontrou novamente numa ala do andar térreo. Tamanho silêncio reinava nos quartos situados de ambos os lados do corredor que eles pareciam vazios. Mas, pouco depois das dez horas, Oki ouviu subitamente um estardalhaço de vozes estrangeiras nos quartos vizinhos ao seu. Ele interrogou o camareiro sobre isso.

- São duas famílias que têm, juntas, doze crianças - foi a resposta.

As crianças não apenas berravam nos quartos como também entravam e saíam dos aposentos a toda velocidade, fazendo grande algazarra no corredor. Por que, então, já que o hotel estava praticamente vazio, o quarto que lhe fora destinado se encontrava rodeado de hóspedes tão turbulentos? Oki, porém, esperando que as crianças logo adormecessem, procurou não se irritar com o fato, mas como a viagem as havia sem dúvida excitado, elas não se acalmaram tão cedo. O barulho de seus passos indo e vindo pelo corredor era especialmente desagradável a seus ouvidos. Ele acabou por se levantar da cama.

O ruído de vozes em língua estrangeira que provinha dos quartos vizinhos aumentava ainda mais a sensação de solidão que ele experimentava. A cadeira rodopiando sobre si mesma no vagão panorâmico veio-lhe ao espírito e pareceu-lhe ver sua própria solidão girar silenciosamente em seu coração.

Oki viera a Kyoto para ouvir os sinos de fim de ano e para reencontrar Ueno Otoko, mas ele se perguntou mais uma vez qual havia sido o verdadeiro motivo. Se estava seguro de ouvir os sinos, não tinha tanta certeza de poder encontrar Otoko. Seria possível que os sinos não fossem senão um pretexto e que, secretamente, seu único desejo fosse reencontrar Otoko? Ele viera a Kyoto para ouvir os sinos em companhia de Otoko. Não acreditava que fosse uma esperança irrealizável. Contudo, muitos anos separavam Oki e Otoko. Além do mais, embora parecesse não ter se casado, não era impossível que Otoko se recusasse a rever seu amante de outros tempos e a aceitar um convite de sua parte.

"Não, não uma mulher como ela!", murmurou Oki. Mas ele ignorava se essa mulher se transformara ou não.

Otoko parecia ter alugado um pavilhão próximo a um monastério e ali vivia com uma jovem que era sua aluna. Oki havia visto sua foto numa revista de arte; ela não morava num apartamento de um ou dois cômodos, mas numa verdadeira casa com um vasto quarto em estilo japonês que utilizava como estúdio. Havia também um jardim encantador. Na foto, Otoko tinha um pincel em uma das mãos e se debruçava sobre um quadro; da testa até a ponta do nariz, Oki não pôde deixar de reconhecê-la. Ela não engordara nem um pouco com o passar dos anos e estava mais esbelta do que nunca. À visão dessa fotografia, e antes ainda que o passado irrompesse em sua memória, Oki sentiu o remorso rondando-o ao pensar que privara essa mulher das alegrias do matrimônio e da maternidade. Obviamente, de todos os que veriam aquela foto, ele seria o único a reagir dessa maneira. Os outros, para quem Otoko era apenas uma estranha, veriam nela somente o retrato de uma artista que se estabelecera em Kyoto e se tornara uma das belezas típicas dessa cidade.

Como chegara no dia 29 à noite, Oki decidiu telefonar para Otoko ou ir procurá-la em sua casa no dia seguinte, 30 de dezembro. Mas, no outro dia pela manhã, depois que o alarido das crianças o havia despertado, uma espécie de timidez o invadiu e ele começou a se sentir hesitante. Instalando-se em sua mesa, ele decidiu enviar-lhe uma carta. E enquanto se deixava ficar ali, com o olhar fixo na folha branca do papel de carta fornecido pelo hotel, Oki imaginou que não tinha nenhuma necessidade de rever Otoko, que lhe bastaria só ouvir os sinos de fim de ano e voltar para casa.

Oki despertara cedo com a movimentação nos quartos vizinhos, mas voltara a dormir assim que as duas famílias saíram. Eram quase onze horas quando ele despertou.

Dava lentamente o nó na gravata quando se recordou das palavras de Otoko: "Eu darei o nó para você. Deixe-me...".

Otoko tinha dezesseis anos e foram as primeiras palavras que ela pronunciou depois que ele a desvirginara. Oki ainda não dissera nada. Não havia encontrado nada para dizer. Ele a havia atraído ternamente para seus braços, havia acariciado seus cabelos, mas não conseguira pronunciar uma palavra. Então, Otoko se desvencilhou de seus braços e começou a se vestir. Ele se levantou, enfiou a camisa e, no momento de dar o nó na gravata, surpreendeu o olhar de Otoko fixo sobre si. Ela não chorava, mas seus olhos estavam úmidos e brilhantes. Oki evitou seu olhar. Alguns minutos antes, enquanto ele a abraçava, Otoko mantivera os olhos abertos até que ele os fechasse com um beijo.

Havia qualquer coisa de infantil e carinhoso em sua voz quando Otoko lhe propôs dar o nó em sua gravata. Oki sentiu uma onda de alívio. O oferecimento era inteiramente inesperado! Mais que uma maneira de lhe perdoar, o gesto da moça significava antes de tudo um jeito de fugir de si mesma, e suas mãos tinham toques delicados enquanto ajeitava a gravata, embora parecesse ter alguma dificuldade em dar o nó.

- Você sabe como dar o nó? - perguntou Oki.

- Acho que sim. Vi meu pai fazer.

O pai de Otoko havia morrido quando ela tinha doze anos.

Oki sentou-se numa cadeira, pôs Otoko sobre seus joelhos e ergueu o queixo a fim de lhe facilitar a tarefa. Otoko curvou-se ligeiramente e, em duas ou três tentativas, desfez e refez o nó que acabara de começar. Em seguida desceu dos joelhos de Oki, deslizou os dedos por seu ombro direito e observou a gravata, dizendo-lhe:

- Aí está, menino. Será que ficou bom assim?

Oki se levantou e foi até o espelho. O nó de sua gravata estava impecável. Com a palma da mão, enxugou de forma enérgica o rosto suado e ligeiramente engordurado. Depois de haver violado esta criança, não podia suportar a visão de seu próprio rosto. Viu no espelho a face da jovem que avançava em sua direção. Estupefato com seu frescor e sua beleza profunda, Oki virou-se. Otoko pôs a mão sobre seu ombro e, encostando docemente a cabeça no seu peito, disse-lhe:

- Eu te amo.

Oki achara curioso que uma criança de dezesseis anos chamasse de "menino" um homem de 31.

Vinte e quatro anos haviam se passado desde então. Oki tinha hoje 55 anos e Otoko devia ter quarenta.

Oki saiu do banho e quando ligou o rádio que havia em seu quarto soube que uma fina camada de gelo recobria Kyoto naquela manhã. Mas, segundo as previsões meteorológicas, o inverno continuaria a ser ameno durante as festas de fim de ano.

No desjejum, Oki se contentou com café e torradas servidos no quarto, em seguida saiu de carro. Incapaz de se decidir a ver Otoko, e não sabendo mais o que fazer, resolveu ir ao monte Arashi. Do carro, viu que certas montanhas que se estendiam ao norte e ao oeste estavam banhadas de sol, enquanto outras estavam invadidas pela sombra e que alguma coisa em suas silhuetas arredondadas deixava transparecer o frio dos invernos de Kyoto. O brilho do sol sobre as montanhas empalidecia, parecendo que a noite cairia em breve. Oki desceu do carro diante da ponte de Togetsu, mas, em vez de atravessá-la, dirigiu-se ao parque de Kameyama tomando o caminho que margeia o rio.

Nesse 30 de dezembro, o monte Arashi, que pencas de turistas costumam invadir da primavera ao outono, estava deserto e tinha um aspecto inteiramente diferente. Diante de Oki, no mais profundo silêncio, erguia-se a antiga montanha em toda a sua nudez. A seus pés, o rio formava um espelho límpido e verde. Ao longe ressoavam os estrondos de troncos de madeira sendo transportados em canoas pelo rio e carregados nos caminhões. Com certeza era para ver o monte Arashi erguer-se assim frente ao rio que as pessoas vinham até aqui, mas a montanha estava, no momento, mergulhada na sombra e o sol iluminava apenas um de seus flancos que descia em declive acompanhando o curso do rio.

Oki planejara almoçar sozinho num lugar tranqüilo perto da montanha. Em suas visitas anteriores havia conhecido dois restaurantes, mas a porta do primeiro, situado não muito longe da ponte, encontrava-se fechada. Parecia pouco provável que, quase no fim do ano, as pessoas se dessem ao trabalho de vir a um lugar tão desolado. Oki seguia seu caminho lentamente, perguntando-se se o pequeno e antigo restaurante, rio acima, estaria também fechado. Nada, no entanto, o obrigava a almoçar no monte Arashi. Enquanto subia os gastos degraus de pedra, uma jovem mandou-o embora, dizendo-lhe que todo o pessoal do restaurante partira para Kyoto. Quantos anos haviam se passado desde que comera, nesse mesmo restaurante, grandes rodelas de brotos de bambu - era a estação - cozidas com postas de bonito defumado? Enquanto descia o caminho ao longo do rio, Oki surpreendeu, sobre os degraus de pedra que conduziam docemente ao restaurante vizinho, uma velha mulher varrendo folhas secas de falsos plátanos. À sua pergunta, a velha respondeu que acreditava que o restaurante estivesse aberto. Oki parou por um instante ao lado dela e observou como o lugar era calmo.

- Sim, pode-se ouvir distintamente as pessoas falarem do outro lado do rio - disse-lhe a velha.

Escondido sob algumas árvores, o restaurante tinha um velho teto de palha, espesso e úmido, e uma entrada sombria que não possuía nenhum aspecto de entrada, diante da qual crescia um bosque de bambus. Os troncos de quatro ou cinco esplêndidos pinheiros vermelhos erguiam-se do outro lado do teto de palha. Oki foi conduzido a uma sala em estilo japonês. O restaurante parecia vazio. Diante das portas de vidro corrediças viam-se somente as manchas vermelhas das bagas de aoki.* Oki descobriu uma azaléia florindo fora de estação. As bagas de aoki, os bambus e os pinhos vermelhos obstruíam-lhe a visão, mas, pelas frestas das folhagens, ele podia distinguir uma superfície de água cor de jade claro, profunda, límpida e imóvel. Em sua imobilidade, o monte Arashi era semelhante a essa superfície de água.

Oki debruçou-se sobre o kotatsu,** no qual ardia um fogo de lenha. Ouviu um pássaro cantar. Os estrondos dos troncos de madeira sendo carregados nos caminhões ressoavam através do vale. Discerniu, vindo das Montanhas do Oeste, o apito de um trem que entrava ou saía de um túnel deixando atrás de si um eco taciturno. Esse eco o fez pensar no grito débil de um recém-nascido... Com dezessete anos, no oitavo mês de gravidez, Otoko dera à luz uma criança prematura.

O bebê era uma menina.

A recém-nascida não pôde ser salva e Otoko não pôde ter sua filha a seu lado. Quando a criança morreu, o médico dissera a Oki:

- Na minha opinião, seria preferível esperar até que ela esteja um pouco mais restabelecida para lhe dar a notícia.

- Sr. Oki - dissera-lhe a mãe de Otoko -, conte à minha filha, eu lhe imploro. Não posso conter as lágrimas quando penso em tudo o que ela teve de suportar, quando é ainda uma criança.

A raiva e o ressentimento da mãe de Otoko para com Oki tinham sido esquecidos nesse momento. Ela se sentira assim por Oki ter engravidado Otoko sendo casado e pai de família, mas, como sua filha única era tudo que lhe restava, sua raiva acabara por se dissipar. E esta mulher, cuja determinação era ainda maior do que a de Otoko, parecia ter cedido repentinamente. Não tivera, afinal de contas, de se reconciliar com Oki para assegurar o nascimento secreto da criança e os cuidados que ela deveria receber após o parto? Além disso, a gravidez tornara Otoko muito nervosa e ela ameaçara se matar se alguma vez sua mãe falasse mal de Oki.

Assim que Oki voltou à cabeceira de sua cama, Otoko fitou-o com seu olhar claro, afetuoso e sereno de jovem mãe, depois, de repente, grossas lágrimas formaram-se no canto de seus olhos e rolaram sobre o travesseiro.

"Ela compreendeu", pensou Oki.

Otoko chorava, sem conseguir se conter. Oki via as lágrimas formarem sulcos em suas faces e descerem até as orelhas. Apressou-se em enxugá-las. A jovem agarrou sua mão e, pela primeira vez, deixou escapar soluços audíveis. Suas lágrimas e soluços tinham a violência de uma barragem que se rompe.

- Ele está morto? O bebê está morto, não é verdade? Ele está morto!

Ela se contorcia de dor, o corpo deformado pelo sofrimento. Oki tentou controlá-la, apertando-a inteiramente contra si. Ele podia sentir seus diminutos seios de criança, miúdos, mas inchados de leite, roçando levemente no seu braço.

A mãe de Otoko, que devia estar observando do outro lado da porta, entrou chamando a filha.

Sem lhe dar a menor atenção, Oki continuou a apertar Otoko em seus braços.

- Não consigo respirar. Solte-me... - pediu Otoko.

- Você vai ficar calma? Não vai se mexer mais?

- Ficarei calma.

Oki afrouxou o aperto e os ombros de Otoko despencaram. Novamente, as lágrimas rolaram de suas pálpebras fechadas.

- Mãe, vão incinerá-lo?

Não houve resposta.

- Um bebê tão pequeno...?

Sua mãe não respondia.

- Você não disse, mãe, que quando nasci eu tinha os cabelos todos pretos?

- Sim, bem pretos.

- Meu bebê também tem os cabelos pretos? Mãe, você não poderia guardar uma mecha de seus cabelos para mim?

- Não sei, Otoko... - disse sua mãe com embaraço, e acrescentou num ímpeto: - Otoko, você poderá ter outra criança.

Depois, como se se arrependesse de suas palavras, franziu as sobrancelhas e desviou a cabeça.

Não tinham, a mãe de Otoko e o próprio Oki, desejado secretamente que essa criança não visse a luz do dia? Otoko tivera seu bebê numa clínica sórdida dos subúrbios de Tóquio. Oki se encheu de remorsos ao pensar que a criança poderia ter sido salva se tivesse sido cuidada em um bom hospital. Oki conduzira Otoko à clínica sozinho. Sua mãe não se resolvera a ir. O médico era um homem de rosto avermelhado pelo álcool, beirando a velhice. A jovem enfermeira fitava Oki com os olhos repletos de reprovação. Otoko vestia um quimono vermelho de seda ordinária e corte infantil.

Vinte e três anos mais tarde, sobre o monte Arashi, Oki reviu nitidamente a imagem de um bebê de cabelos cor de azeviche, nascido prematuramente, que parecia se esconder entre os bosques invernais ou imergir na superfície de água verde. Bateu palmas para chamar a servente. Compreendera, desde o começo, que nenhum cliente era esperado hoje e que seria preciso aguardar pacientemente até que sua refeição estivesse pronta.

A servente veio à sala de estilo japonês e, certamente para entretê-lo, serviu-lhe uma xícara de chá, antes de sentar a seu lado.

Na sua conversação descosida, a servente contou-lhe a história de um homem que fora enfeitiçado por um texugo.* Descobriram-no ao amanhecer chafurdando no rio e gritando:

"'Eu vou morrer! Socorro! Eu vou morrer, ajudem-me!' Ele estava a se debater embaixo da ponte de Togetsu, num lugar onde o rio é pouco profundo e pode-se subir facilmente pela margem. Quando vieram em seu auxílio e ele já tinha voltado a si, contou então que tinha errado pela montanha como sonâmbulo desde as dez horas da noite anterior e que acabara por se encontrar dentro do rio sem compreender o que havia acontecido."

Da cozinha, uma servente trouxe a refeição. Oki havia escolhido, como entrada, um prato com tiras de carpa crua. Bebeu, em pequenos goles, um pouco de saquê.

Ao sair, lançou novamente um olhar sobre o grosso teto de palha. Havia um certo encanto naquele teto coberto de musgo e quase em ruínas, mas a dona do restaurante explicou-lhe que aquele teto não conseguia se secar nunca, pois estava sob as árvores. Não fazia sequer dez anos que tinham trocado toda a palha e já há oito que ele estava assim. No céu, à direita do teto, brilhava uma meia-lua branca. Eram três e meia. Como ele descia o caminho ao longo do rio, Oki observou os martins-pescadores que voavam rasantes à água. Distinguia claramente a cor de sua plumagem.

Perto da ponte de Togetsu, subiu novamente no carro com a intenção de dirigir-se ao cemitério de Adashino. Nesta tarde de inverno, diante de uma infinidade de pedras sepulcrais e de efígies de Jizo,* ele teria como que um antegosto da precariedade das coisas humanas. Mas quando viu a penumbra dos bosques de bambu à entrada do monastério de Gio, ordenou ao motorista que desse meia-volta. Resolveu parar no Templo dos Musgos antes de retornar ao hotel. O jardim do monastério estava vazio, com exceção de um jovem casal que parecia em viagem de núpcias. O musgo estava juncado de folhas de pinhos secos, e as sombras das árvores que se refletiam no lago moviam-se à medida que ele caminhava. Oki retornou ao hotel pelas Colinas do Leste, às quais os raios do sol poente davam uma coloração alaranjada.

Depois de ter tomado um banho para se aquecer, procurou na lista o número do telefone de Ueno Otoko. A voz de uma jovem - provavelmente a aluna de Otoko - respondeu e passou em seguida para Otoko.

- Alô!

- É Oki quem está falando.

...

- É Oki, Oki Toshio.

- Sim. Já faz tanto tempo... - Otoko falava com a pronúncia de Kyoto.

Oki não sabia o que dizer; assim, a fim de evitar frases embaraçosas e para dar a impressão de que agira por impulso, falou com volubilidade, sem sequer escutar sua interlocutora.

- Vim a Kyoto para ouvir aqui os sinos de fim de ano.

- Os sinos...?

- Por que não ouvi-los juntos?

...

Durante um longo momento, Otoko permaneceu sem responder. Surpresa, ela provavelmente não sabia o que dizer.

- Alô! Alô!... - chamou Oki.

- Você veio sozinho?

- Sim. Sim, estou sozinho.

Otoko calou-se novamente.

- Vou voltar no dia 1º de janeiro pela manhã, depois de ter ouvido os sinos. Vim porque tive vontade de ouvir a seu lado os sinos que marcam a passagem de um ano a outro. Já não sou tão jovem. Há quantos anos não nos vemos? Já faz tanto tempo que jamais teria ousado fazer-lhe esse convite, se não fosse por essa ocasião.

...

- Posso passar amanhã para apanhá-la?

- Não - precipitou-se Otoko. - Eu passarei para apanhá-lo. Às oito horas... Talvez seja um pouco cedo, marquemos então por volta das nove, no seu hotel. Eu me encarrego das reservas.

Oki pensara em jantar tranqüilamente com Otoko, mas às nove horas ela já teria jantado. Pelo menos ela havia consentido em vê-lo. A imagem que guardava dela em suas longínquas recordações retornou à vida pouco a pouco.

No dia seguinte, ficou o dia inteiro no hotel, até as nove horas da noite. Por ser o último dia do ano, o tempo parecia se escoar com uma lentidão ainda maior. Oki nada tinha para fazer. Apesar de ter alguns amigos em Kyoto, nesta véspera de Ano-Novo, à espera de Otoko, ele não sentia vontade de ver ninguém. Embora não faltassem restaurantes que ofereciam especialidades de Kyoto, ele se contentou com um jantar simples no hotel. Assim, o último dia do ano foi repleto de recordações de Otoko. À medida que as lembranças afluíam ao seu espírito, elas adquiriam força e frescor. Fatos ocorridos há vinte anos possuíam mais vida do que eventos ocorridos na véspera.

Oki estava afastado demais da janela para ver a rua do hotel, mas podia ver, além dos tetos da cidade, as Colinas do Oeste. Comparada com Tóquio, Kyoto era uma cidadezinha tranqüila, na qual até as Colinas do Oeste pareciam ao alcance da mão. Enquanto mirava na direção das colinas, uma tênue nuvem transparente e dourada adquiriu um tom cinza e frio e a noite caiu.

Quais eram suas lembranças? Que passado era esse que ele recordava tão claramente? Quando Otoko viera se instalar em Kyoto com sua mãe, Oki havia pensado que essa partida assinalaria a separação entre ambos, mas haviam eles realmente se separado? Ele não podia banir de seu coração o remorso de ter transtornado a existência de Otoko, de tê-la impedido de se desabrochar enquanto esposa e mãe, e se perguntava o que essa jovem mulher que nunca havia se casado podia estar pensando dele depois de tantos anos. Em suas recordações, Otoko era a mulher mais apaixonada que já conhecera. E se a lembrança que tinha dela era, ainda hoje, assim tão viva, isso não significava que não houvera nenhuma separação entre eles? Apesar de não ter nascido em Kyoto, as luzes da cidade ao cair da noite pareceram familiares a Oki. Talvez Kyoto fosse de alguma maneira o berço de todo japonês, mas para Oki era também a cidade onde morava Otoko. Sem conseguir ficar tranqüilo, ele tomou um banho, trocou inteiramente de roupa e andou de um lado para outro do quarto, mirando-se algumas vezes no espelho, enquanto esperava Otoko.

Eram nove e vinte quando telefonaram da recepção anunciando que a srta. Ueno havia chegado.

- Diga a ela para me esperar no saguão, descerei agora mesmo - respondeu Oki.

Em seguida indagou-se se não teria sido melhor convidá-la a subir.

Não avistou Otoko no vasto saguão. Uma jovem se aproximou e perguntou polidamente:

- É o sr. Oki?

- Sim.

- A srta. Ueno encarregou-me de vir procurá-lo.

- É mesmo? - Oki esforçou-se por parecer à vontade. - É muito gentil de sua parte...

Oki esperava que Otoko viesse buscá-lo sozinha, mas ela havia se esquivado. As imagens vivas que povoaram seu dia pareceram se dissipar subitamente.

Quando entrou no carro que os esperava, Oki permaneceu em silêncio um momento. Depois perguntou:

- Você é a aluna da srta. Ueno?

- Sou.

- A srta. Ueno e você moram juntas?

- Sim, há uma empregada que também vive conosco.

- Você é de Kyoto?

- Não, de Tóquio, mas como fiquei apaixonada pelas obras da srta. Ueno, eu a segui até aqui e ela me acolheu em sua casa.

Oki voltou a cabeça e observou a jovem. Desde o momento em que ela lhe dirigira a palavra no hotel, ele havia notado o quanto ela era bela. Agora podia ver seu perfil encantador, com o pescoço longo e delgado, e o formato gracioso de suas orelhas. A beleza de seus traços não podia deixá-lo indiferente. Além disso, ela falava pausadamente, mas com evidente reserva para com ele. Oki se perguntava se esta jovem estava a par do que havia se passado entre ele e Otoko, dessa relação que existira antes que ela houvesse nascido. De repente perguntou-lhe de uma maneira um tanto incongruente:

- Você sempre usa quimono?

- Não. Em casa, como ando de um lado para o outro, uso calça,


 
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