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Beleza
e Tristeza,
de Yasunari Kawabata (tradução de Alberto Alexandre
Martins; Globo; 282 páginas; 34 reais) Este é
o último livro do japonês Kawabata, que se suicidou
em 1972. Neste romance, o Nobel de Literatura de 1968 narra a história
de Oki Toshio, um escritor de meia-idade que retorna a Kyoto para
ouvir os sinos dos templos na noite de Ano-Novo e para reencontrar
Otoko, uma antiga amante. Pintora consagrada, Otoko tem uma aluna
jovem e amoral, Keiko. Em torno desses três personagens, Kawabata
tece uma reflexão sobre o sentido da arte e da literatura.
Há muito tempo fora de catálogo, Beleza e Tristeza
aparece em edição revisada. Reparo importante:
a tradução não foi feita do original japonês,
mas a partir de uma versão inglesa.
Leia
trechos
Cinco
cadeiras giratórias alinhavam-se ao longo da janela no vagão
panorâmico do expresso de Kyoto. Oki Toshio notou que a última
cadeira da fila rodopiava mansamente sobre si mesma ao sabor das
oscilações do trem. Ele não conseguia desviar
os olhos dessa cadeira. Na fileira onde estava sentado, as poltronas
eram baixas e fixas e, evidentemente, não rodopiavam sobre
si mesmas.
Oki
estava sozinho no vagão panorâmico. Profundamente imerso
em sua poltrona, ele olhava a cadeira girar à sua frente.
Ela não girava sempre na mesma direção nem
na mesma velocidade. Às vezes ganhava embalo ou fazia-se
mais lenta ou até mesmo parava, para em seguida retomar seu
movimento em sentido contrário. Ao ver essa cadeira rodopiar
assim no vagão onde se encontrava só, Oki experimentou
uma sensação de isolamento, e diversos pensamentos
emergiram de seu espírito.
Era
29 de dezembro. Oki dirigia-se a Kyoto para ouvir os sinos de fim
de ano.
Há
quantos anos Oki adquirira o hábito de ouvir pelo rádio,
na véspera do Ano-Novo, o repicar dos sinos anunciando a
passagem de um ano a outro? Desde quando existia essa transmissão?
Oki, provavelmente, nunca deixara de escutá-la, assim como
os comentários dos locutores que apresentavam, uns após
os outros, os sinos célebres dos velhos monastérios
espalhados pelo país. Como o ano findo ia ceder seu lugar
ao Ano-Novo, os apresentadores sentiam-se inclinados, em seus comentários,
a pronunciar belas frases em tom declamatório. Com longos
intervalos, o velho sino de um monastério budista soava,
e o eco que deixava atrás de si fazia sonhar com a alma do
velho Japão e com o tempo que escoa. Aos sinos dos monastérios
situados ao norte do país sucediam-se os sinos de Kyushu,
mas toda entrada de Ano-Novo culminava com os sinos de Kyoto. Os
templos em Kyoto eram tantos que às vezes o rádio
transmitia os sons simultâneos de inúmeros sinos.
Ao
mesmo tempo, sua mulher e sua filha preparavam na cozinha diversos
pratos para festejar o Ano-Novo, punham um pouco de ordem na casa,
arrumavam seus quimonos ou arranjavam as flores, e, enquanto elas
se entregavam a esses afazeres, Oki sentava-se na sala e ouvia o
rádio. À medida que soavam os sinos, seu pensamento
se voltava, não sem emoção, para o ano que
findava. Conforme os anos, a emoção que experimentava
revelava-se dolorosa ou violenta. Às vezes, a tristeza e
o remorso o atormentavam. Mas o repicar dos sinos ecoava sempre
em seu coração, mesmo quando Oki discernia na voz
e nos votos dos locutores um sentimentalismo que o repugnava. Por
isso, a idéia de estar em Kyoto num 31 de dezembro para ouvir
diretamente de lá os sinos dos velhos monastérios
o tentava havia muitos anos.
A
idéia lhe surgira repentinamente no fim deste ano e ele se
pusera a caminho de Kyoto. Secretamente em seu coração,
ele também ansiava reencontrar, em Kyoto, Ueno Otoko, que
não via há muitos anos, e ouvir os sinos em sua companhia.
Desde que ela se mudara para Kyoto e que sua pintura no estilo tradicional
lhe trouxera certa notoriedade, Oki praticamente não mais
tivera notícias de Otoko. Não imaginava que ela pudesse
ter se casado.
Como
agira por impulso e não era de seu temperamento fixar com
antecedência datas para reservar suas passagens de trem, Oki
fora à estação de Yokohama e embarcara, sem
reserva, no vagão panorâmico do expresso de Kyoto.
Devido às festas de fim de ano, era bem possível que
o trem estivesse lotado na linha de Tokaido, mas Oki conhecia o
velho empregado do vagão e dizia a si mesmo que ele lhe encontraria
um lugar.
Oki
apreciava bastante esse trem que partia de Tóquio e de Yokohama
no começo da tarde, chegava a Kyoto ao anoitecer e, na volta,
saía igualmente de Osaka e Kyoto no começo da tarde.
Ele o tomava sempre que ia a Kyoto, e quase todas as moças
encarregadas de atender aos passageiros de segunda classe o conheciam
de vista.
Uma
vez dentro do trem, ele se surpreendeu ao encontrar o vagão
de segunda classe vazio. Talvez fossem raros os viajantes num 29
de dezembro e o trem só ficasse realmente lotado no dia 30
ou 31.
Enquanto
observava a cadeira giratória rodar, a meada de seus pensamentos
levou-o de repente a se indagar sobre o destino. Nesse instante
o velho empregado trouxe-lhe chá.
-
Estou sozinho? - perguntou Oki.
-
Sim, há apenas cinco ou seis passageiros hoje, senhor.
-
Estará lotado no dia de Ano-Novo? - Não, normalmente
fica quase vazio. O senhor pretende regressar nesse dia?
-
Temo que sim...
-
Não trabalho no dia de Ano-Novo, mas me encarregarei para
que atendam bem ao senhor.
-
Obrigado.
Quando
o velho empregado partiu, Oki lançou um olhar pelo compartimento
e divisou duas valises de couro branco ao pé da última
poltrona da fila. De um modelo novo, quadradas e bem pequenas, eram
feitas em couro branco com constelações de manchas
pálidas quase castanhas. Tratava-se de valises de um gênero
desconhecido no Japão, bagagens de qualidade superior. Havia
também, colocada sobre uma cadeira, uma enorme bolsa de pele
de jaguar. Os proprietários dessa bagagem eram, sem dúvida,
norte-americanos e deviam estar no vagão-restaurante.
Do
outro lado da janela, as árvores dos bosques flutuavam numa
bruma espessa e cálida. Acima da bruma, uma tênue claridade
que parecia emanar do chão iluminava longínquas nuvens
brancas. Mas, à medida que o trem avançava, o céu
tornava-se mais luminoso. Pela janela, os raios de sol invadiram
o compartimento. Como o trem passava perto de uma montanha coberta
de pinhos, Oki pôde ver que o chão estava juncado de
folhinhas secas pontiagudas. Um bosque de bambus tinha as folhas
todas amarelas. Vagas brilhantes quebravam-se contra um promontório
sombrio.
Dois
casais norte-americanos de meia-idade retornaram do vagão-restaurante
e, assim que o trem passou por Numazu e o monte Fuji ficou à
vista, lançaram-se às janelas e não pararam
de tirar fotografias. Mas quando finalmente o monte Fuji se perfilou
com nitidez e a planície a seus pés tornou-se visível,
eles pareciam cansados de fotografar e viraram as costas para a
janela.
O
dia de inverno já se aproximava do fim. Oki acompanhou com
os olhos a curva prateada e baça de um rio; daí, erguendo
a cabeça, voltou seu olhar em direção ao pôr-do-sol.
Os últimos raios, brancos e gelados, finalmente se infiltraram
nas fendas em forma de arco, rompendo as nuvens negras e ali ficando
bastante tempo antes de desaparecer. No compartimento, as luzes
haviam sido acesas e as cadeiras giratórias, em resposta
a um solavanco do trem, deram, repentinamente, todas de uma vez,
meia-volta sobre si mesmas. Mas somente a última cadeira
da fila continuou a girar sem parar.
Quando
chegou a Kyoto, Oki se instalou no hotel Miyako. Imaginando que
talvez Otoko viesse vê-lo no hotel, ele pediu um quarto tranqüilo.
O elevador pareceu subir seis ou sete andares, mas como o hotel
fora construído em degraus na encosta íngreme das
Colinas do Leste, depois de atravessar um longo corredor Oki se
encontrou novamente numa ala do andar térreo. Tamanho silêncio
reinava nos quartos situados de ambos os lados do corredor que eles
pareciam vazios. Mas, pouco depois das dez horas, Oki ouviu subitamente
um estardalhaço de vozes estrangeiras nos quartos vizinhos
ao seu. Ele interrogou o camareiro sobre isso.
-
São duas famílias que têm, juntas, doze crianças
- foi a resposta.
As
crianças não apenas berravam nos quartos como também
entravam e saíam dos aposentos a toda velocidade, fazendo
grande algazarra no corredor. Por que, então, já que
o hotel estava praticamente vazio, o quarto que lhe fora destinado
se encontrava rodeado de hóspedes tão turbulentos?
Oki, porém, esperando que as crianças logo adormecessem,
procurou não se irritar com o fato, mas como a viagem as
havia sem dúvida excitado, elas não se acalmaram tão
cedo. O barulho de seus passos indo e vindo pelo corredor era especialmente
desagradável a seus ouvidos. Ele acabou por se levantar da
cama.
O
ruído de vozes em língua estrangeira que provinha
dos quartos vizinhos aumentava ainda mais a sensação
de solidão que ele experimentava. A cadeira rodopiando sobre
si mesma no vagão panorâmico veio-lhe ao espírito
e pareceu-lhe ver sua própria solidão girar silenciosamente
em seu coração.
Oki
viera a Kyoto para ouvir os sinos de fim de ano e para reencontrar
Ueno Otoko, mas ele se perguntou mais uma vez qual havia sido o
verdadeiro motivo. Se estava seguro de ouvir os sinos, não
tinha tanta certeza de poder encontrar Otoko. Seria possível
que os sinos não fossem senão um pretexto e que, secretamente,
seu único desejo fosse reencontrar Otoko? Ele viera a Kyoto
para ouvir os sinos em companhia de Otoko. Não acreditava
que fosse uma esperança irrealizável. Contudo, muitos
anos separavam Oki e Otoko. Além do mais, embora parecesse
não ter se casado, não era impossível que Otoko
se recusasse a rever seu amante de outros tempos e a aceitar um
convite de sua parte.
"Não,
não uma mulher como ela!", murmurou Oki. Mas ele ignorava
se essa mulher se transformara ou não.
Otoko
parecia ter alugado um pavilhão próximo a um monastério
e ali vivia com uma jovem que era sua aluna. Oki havia visto sua
foto numa revista de arte; ela não morava num apartamento
de um ou dois cômodos, mas numa verdadeira casa com um vasto
quarto em estilo japonês que utilizava como estúdio.
Havia também um jardim encantador. Na foto, Otoko tinha um
pincel em uma das mãos e se debruçava sobre um quadro;
da testa até a ponta do nariz, Oki não pôde
deixar de reconhecê-la. Ela não engordara nem um pouco
com o passar dos anos e estava mais esbelta do que nunca. À
visão dessa fotografia, e antes ainda que o passado irrompesse
em sua memória, Oki sentiu o remorso rondando-o ao pensar
que privara essa mulher das alegrias do matrimônio e da maternidade.
Obviamente, de todos os que veriam aquela foto, ele seria o único
a reagir dessa maneira. Os outros, para quem Otoko era apenas uma
estranha, veriam nela somente o retrato de uma artista que se estabelecera
em Kyoto e se tornara uma das belezas típicas dessa cidade.
Como
chegara no dia 29 à noite, Oki decidiu telefonar para Otoko
ou ir procurá-la em sua casa no dia seguinte, 30 de dezembro.
Mas, no outro dia pela manhã, depois que o alarido das crianças
o havia despertado, uma espécie de timidez o invadiu e ele
começou a se sentir hesitante. Instalando-se em sua mesa,
ele decidiu enviar-lhe uma carta. E enquanto se deixava ficar ali,
com o olhar fixo na folha branca do papel de carta fornecido pelo
hotel, Oki imaginou que não tinha nenhuma necessidade de
rever Otoko, que lhe bastaria só ouvir os sinos de fim de
ano e voltar para casa.
Oki
despertara cedo com a movimentação nos quartos vizinhos,
mas voltara a dormir assim que as duas famílias saíram.
Eram quase onze horas quando ele despertou.
Dava
lentamente o nó na gravata quando se recordou das palavras
de Otoko: "Eu darei o nó para você. Deixe-me...".
Otoko
tinha dezesseis anos e foram as primeiras palavras que ela pronunciou
depois que ele a desvirginara. Oki ainda não dissera nada.
Não havia encontrado nada para dizer. Ele a havia atraído
ternamente para seus braços, havia acariciado seus cabelos,
mas não conseguira pronunciar uma palavra. Então,
Otoko se desvencilhou de seus braços e começou a se
vestir. Ele se levantou, enfiou a camisa e, no momento de dar o
nó na gravata, surpreendeu o olhar de Otoko fixo sobre si.
Ela não chorava, mas seus olhos estavam úmidos e brilhantes.
Oki evitou seu olhar. Alguns minutos antes, enquanto ele a abraçava,
Otoko mantivera os olhos abertos até que ele os fechasse
com um beijo.
Havia
qualquer coisa de infantil e carinhoso em sua voz quando Otoko lhe
propôs dar o nó em sua gravata. Oki sentiu uma onda
de alívio. O oferecimento era inteiramente inesperado! Mais
que uma maneira de lhe perdoar, o gesto da moça significava
antes de tudo um jeito de fugir de si mesma, e suas mãos
tinham toques delicados enquanto ajeitava a gravata, embora parecesse
ter alguma dificuldade em dar o nó.
-
Você sabe como dar o nó? - perguntou Oki.
-
Acho que sim. Vi meu pai fazer.
O
pai de Otoko havia morrido quando ela tinha doze anos.
Oki
sentou-se numa cadeira, pôs Otoko sobre seus joelhos e ergueu
o queixo a fim de lhe facilitar a tarefa. Otoko curvou-se ligeiramente
e, em duas ou três tentativas, desfez e refez o nó
que acabara de começar. Em seguida desceu dos joelhos de
Oki, deslizou os dedos por seu ombro direito e observou a gravata,
dizendo-lhe:
-
Aí está, menino. Será que ficou bom assim?
Oki
se levantou e foi até o espelho. O nó de sua gravata
estava impecável. Com a palma da mão, enxugou de forma
enérgica o rosto suado e ligeiramente engordurado. Depois
de haver violado esta criança, não podia suportar
a visão de seu próprio rosto. Viu no espelho a face
da jovem que avançava em sua direção. Estupefato
com seu frescor e sua beleza profunda, Oki virou-se. Otoko pôs
a mão sobre seu ombro e, encostando docemente a cabeça
no seu peito, disse-lhe:
-
Eu te amo.
Oki
achara curioso que uma criança de dezesseis anos chamasse
de "menino" um homem de 31.
Vinte
e quatro anos haviam se passado desde então. Oki tinha hoje
55 anos e Otoko devia ter quarenta.
Oki
saiu do banho e quando ligou o rádio que havia em seu quarto
soube que uma fina camada de gelo recobria Kyoto naquela manhã.
Mas, segundo as previsões meteorológicas, o inverno
continuaria a ser ameno durante as festas de fim de ano.
No
desjejum, Oki se contentou com café e torradas servidos no
quarto, em seguida saiu de carro. Incapaz de se decidir a ver Otoko,
e não sabendo mais o que fazer, resolveu ir ao monte Arashi.
Do carro, viu que certas montanhas que se estendiam ao norte e ao
oeste estavam banhadas de sol, enquanto outras estavam invadidas
pela sombra e que alguma coisa em suas silhuetas arredondadas deixava
transparecer o frio dos invernos de Kyoto. O brilho do sol sobre
as montanhas empalidecia, parecendo que a noite cairia em breve.
Oki desceu do carro diante da ponte de Togetsu, mas, em vez de atravessá-la,
dirigiu-se ao parque de Kameyama tomando o caminho que margeia o
rio.
Nesse
30 de dezembro, o monte Arashi, que pencas de turistas costumam
invadir da primavera ao outono, estava deserto e tinha um aspecto
inteiramente diferente. Diante de Oki, no mais profundo silêncio,
erguia-se a antiga montanha em toda a sua nudez. A seus pés,
o rio formava um espelho límpido e verde. Ao longe ressoavam
os estrondos de troncos de madeira sendo transportados em canoas
pelo rio e carregados nos caminhões. Com certeza era para
ver o monte Arashi erguer-se assim frente ao rio que as pessoas
vinham até aqui, mas a montanha estava, no momento, mergulhada
na sombra e o sol iluminava apenas um de seus flancos que descia
em declive acompanhando o curso do rio.
Oki
planejara almoçar sozinho num lugar tranqüilo perto
da montanha. Em suas visitas anteriores havia conhecido dois restaurantes,
mas a porta do primeiro, situado não muito longe da ponte,
encontrava-se fechada. Parecia pouco provável que, quase
no fim do ano, as pessoas se dessem ao trabalho de vir a um lugar
tão desolado. Oki seguia seu caminho lentamente, perguntando-se
se o pequeno e antigo restaurante, rio acima, estaria também
fechado. Nada, no entanto, o obrigava a almoçar no monte
Arashi. Enquanto subia os gastos degraus de pedra, uma jovem mandou-o
embora, dizendo-lhe que todo o pessoal do restaurante partira para
Kyoto. Quantos anos haviam se passado desde que comera, nesse mesmo
restaurante, grandes rodelas de brotos de bambu - era a estação
- cozidas com postas de bonito defumado? Enquanto descia o caminho
ao longo do rio, Oki surpreendeu, sobre os degraus de pedra que
conduziam docemente ao restaurante vizinho, uma velha mulher varrendo
folhas secas de falsos plátanos. À sua pergunta, a
velha respondeu que acreditava que o restaurante estivesse aberto.
Oki parou por um instante ao lado dela e observou como o lugar era
calmo.
-
Sim, pode-se ouvir distintamente as pessoas falarem do outro lado
do rio - disse-lhe a velha.
Escondido
sob algumas árvores, o restaurante tinha um velho teto de
palha, espesso e úmido, e uma entrada sombria que não
possuía nenhum aspecto de entrada, diante da qual crescia
um bosque de bambus. Os troncos de quatro ou cinco esplêndidos
pinheiros vermelhos erguiam-se do outro lado do teto de palha. Oki
foi conduzido a uma sala em estilo japonês. O restaurante
parecia vazio. Diante das portas de vidro corrediças viam-se
somente as manchas vermelhas das bagas de aoki.* Oki descobriu uma
azaléia florindo fora de estação. As bagas
de aoki, os bambus e os pinhos vermelhos obstruíam-lhe a
visão, mas, pelas frestas das folhagens, ele podia distinguir
uma superfície de água cor de jade claro, profunda,
límpida e imóvel. Em sua imobilidade, o monte Arashi
era semelhante a essa superfície de água.
Oki
debruçou-se sobre o kotatsu,** no qual ardia um fogo de lenha.
Ouviu um pássaro cantar. Os estrondos dos troncos de madeira
sendo carregados nos caminhões ressoavam através do
vale. Discerniu, vindo das Montanhas do Oeste, o apito de um trem
que entrava ou saía de um túnel deixando atrás
de si um eco taciturno. Esse eco o fez pensar no grito débil
de um recém-nascido... Com dezessete anos, no oitavo mês
de gravidez, Otoko dera à luz uma criança prematura.
O bebê
era uma menina.
A
recém-nascida não pôde ser salva e Otoko não
pôde ter sua filha a seu lado. Quando a criança morreu,
o médico dissera a Oki:
-
Na minha opinião, seria preferível esperar até
que ela esteja um pouco mais restabelecida para lhe dar a notícia.
-
Sr. Oki - dissera-lhe a mãe de Otoko -, conte à minha
filha, eu lhe imploro. Não posso conter as lágrimas
quando penso em tudo o que ela teve de suportar, quando é
ainda uma criança.
A
raiva e o ressentimento da mãe de Otoko para com Oki tinham
sido esquecidos nesse momento. Ela se sentira assim por Oki ter
engravidado Otoko sendo casado e pai de família, mas, como
sua filha única era tudo que lhe restava, sua raiva acabara
por se dissipar. E esta mulher, cuja determinação
era ainda maior do que a de Otoko, parecia ter cedido repentinamente.
Não tivera, afinal de contas, de se reconciliar com Oki para
assegurar o nascimento secreto da criança e os cuidados que
ela deveria receber após o parto? Além disso, a gravidez
tornara Otoko muito nervosa e ela ameaçara se matar se alguma
vez sua mãe falasse mal de Oki.
Assim
que Oki voltou à cabeceira de sua cama, Otoko fitou-o com
seu olhar claro, afetuoso e sereno de jovem mãe, depois,
de repente, grossas lágrimas formaram-se no canto de seus
olhos e rolaram sobre o travesseiro.
"Ela
compreendeu", pensou Oki.
Otoko
chorava, sem conseguir se conter. Oki via as lágrimas formarem
sulcos em suas faces e descerem até as orelhas. Apressou-se
em enxugá-las. A jovem agarrou sua mão e, pela primeira
vez, deixou escapar soluços audíveis. Suas lágrimas
e soluços tinham a violência de uma barragem que se
rompe.
-
Ele está morto? O bebê está morto, não
é verdade? Ele está morto!
Ela
se contorcia de dor, o corpo deformado pelo sofrimento. Oki tentou
controlá-la, apertando-a inteiramente contra si. Ele podia
sentir seus diminutos seios de criança, miúdos, mas
inchados de leite, roçando levemente no seu braço.
A
mãe de Otoko, que devia estar observando do outro lado da
porta, entrou chamando a filha.
Sem
lhe dar a menor atenção, Oki continuou a apertar Otoko
em seus braços.
-
Não consigo respirar. Solte-me... - pediu Otoko.
-
Você vai ficar calma? Não vai se mexer mais?
-
Ficarei calma.
Oki
afrouxou o aperto e os ombros de Otoko despencaram. Novamente, as
lágrimas rolaram de suas pálpebras fechadas.
-
Mãe, vão incinerá-lo?
Não
houve resposta.
-
Um bebê tão pequeno...?
Sua
mãe não respondia.
-
Você não disse, mãe, que quando nasci eu tinha
os cabelos todos pretos?
-
Sim, bem pretos.
-
Meu bebê também tem os cabelos pretos? Mãe,
você não poderia guardar uma mecha de seus cabelos
para mim?
-
Não sei, Otoko... - disse sua mãe com embaraço,
e acrescentou num ímpeto: - Otoko, você poderá
ter outra criança.
Depois,
como se se arrependesse de suas palavras, franziu as sobrancelhas
e desviou a cabeça.
Não
tinham, a mãe de Otoko e o próprio Oki, desejado secretamente
que essa criança não visse a luz do dia? Otoko tivera
seu bebê numa clínica sórdida dos subúrbios
de Tóquio. Oki se encheu de remorsos ao pensar que a criança
poderia ter sido salva se tivesse sido cuidada em um bom hospital.
Oki conduzira Otoko à clínica sozinho. Sua mãe
não se resolvera a ir. O médico era um homem de rosto
avermelhado pelo álcool, beirando a velhice. A jovem enfermeira
fitava Oki com os olhos repletos de reprovação. Otoko
vestia um quimono vermelho de seda ordinária e corte infantil.
Vinte
e três anos mais tarde, sobre o monte Arashi, Oki reviu nitidamente
a imagem de um bebê de cabelos cor de azeviche, nascido prematuramente,
que parecia se esconder entre os bosques invernais ou imergir na
superfície de água verde. Bateu palmas para chamar
a servente. Compreendera, desde o começo, que nenhum cliente
era esperado hoje e que seria preciso aguardar pacientemente até
que sua refeição estivesse pronta.
A servente
veio à sala de estilo japonês e, certamente para entretê-lo,
serviu-lhe uma xícara de chá, antes de sentar a seu
lado.
Na
sua conversação descosida, a servente contou-lhe a
história de um homem que fora enfeitiçado por um texugo.*
Descobriram-no ao amanhecer chafurdando no rio e gritando:
"'Eu
vou morrer! Socorro! Eu vou morrer, ajudem-me!' Ele estava a se
debater embaixo da ponte de Togetsu, num lugar onde o rio é
pouco profundo e pode-se subir facilmente pela margem. Quando vieram
em seu auxílio e ele já tinha voltado a si, contou
então que tinha errado pela montanha como sonâmbulo
desde as dez horas da noite anterior e que acabara por se encontrar
dentro do rio sem compreender o que havia acontecido."
Da
cozinha, uma servente trouxe a refeição. Oki havia
escolhido, como entrada, um prato com tiras de carpa crua. Bebeu,
em pequenos goles, um pouco de saquê.
Ao
sair, lançou novamente um olhar sobre o grosso teto de palha.
Havia um certo encanto naquele teto coberto de musgo e quase em
ruínas, mas a dona do restaurante explicou-lhe que aquele
teto não conseguia se secar nunca, pois estava sob as árvores.
Não fazia sequer dez anos que tinham trocado toda a palha
e já há oito que ele estava assim. No céu,
à direita do teto, brilhava uma meia-lua branca. Eram três
e meia. Como ele descia o caminho ao longo do rio, Oki observou
os martins-pescadores que voavam rasantes à água.
Distinguia claramente a cor de sua plumagem.
Perto
da ponte de Togetsu, subiu novamente no carro com a intenção
de dirigir-se ao cemitério de Adashino. Nesta tarde de inverno,
diante de uma infinidade de pedras sepulcrais e de efígies
de Jizo,* ele teria como que um antegosto da precariedade das coisas
humanas. Mas quando viu a penumbra dos bosques de bambu à
entrada do monastério de Gio, ordenou ao motorista que desse
meia-volta. Resolveu parar no Templo dos Musgos antes de retornar
ao hotel. O jardim do monastério estava vazio, com exceção
de um jovem casal que parecia em viagem de núpcias. O musgo
estava juncado de folhas de pinhos secos, e as sombras das árvores
que se refletiam no lago moviam-se à medida que ele caminhava.
Oki retornou ao hotel pelas Colinas do Leste, às quais os
raios do sol poente davam uma coloração alaranjada.
Depois
de ter tomado um banho para se aquecer, procurou na lista o número
do telefone de Ueno Otoko. A voz de uma jovem - provavelmente a
aluna de Otoko - respondeu e passou em seguida para Otoko.
-
Alô!
-
É Oki quem está falando.
...
-
É Oki, Oki Toshio.
-
Sim. Já faz tanto tempo... - Otoko falava com a pronúncia
de Kyoto.
Oki
não sabia o que dizer; assim, a fim de evitar frases embaraçosas
e para dar a impressão de que agira por impulso, falou com
volubilidade, sem sequer escutar sua interlocutora.
-
Vim a Kyoto para ouvir aqui os sinos de fim de ano.
-
Os sinos...?
-
Por que não ouvi-los juntos?
...
Durante
um longo momento, Otoko permaneceu sem responder. Surpresa, ela
provavelmente não sabia o que dizer.
-
Alô! Alô!... - chamou Oki.
-
Você veio sozinho?
-
Sim. Sim, estou sozinho.
Otoko
calou-se novamente.
-
Vou voltar no dia 1º de janeiro pela manhã, depois de
ter ouvido os sinos. Vim porque tive vontade de ouvir a seu lado
os sinos que marcam a passagem de um ano a outro. Já não
sou tão jovem. Há quantos anos não nos vemos?
Já faz tanto tempo que jamais teria ousado fazer-lhe esse
convite, se não fosse por essa ocasião.
...
-
Posso passar amanhã para apanhá-la?
-
Não - precipitou-se Otoko. - Eu passarei para apanhá-lo.
Às oito horas... Talvez seja um pouco cedo, marquemos então
por volta das nove, no seu hotel. Eu me encarrego das reservas.
Oki
pensara em jantar tranqüilamente com Otoko, mas às nove
horas ela já teria jantado. Pelo menos ela havia consentido
em vê-lo. A imagem que guardava dela em suas longínquas
recordações retornou à vida pouco a pouco.
No
dia seguinte, ficou o dia inteiro no hotel, até as nove horas
da noite. Por ser o último dia do ano, o tempo parecia se
escoar com uma lentidão ainda maior. Oki nada tinha para
fazer. Apesar de ter alguns amigos em Kyoto, nesta véspera
de Ano-Novo, à espera de Otoko, ele não sentia vontade
de ver ninguém. Embora não faltassem restaurantes
que ofereciam especialidades de Kyoto, ele se contentou com um jantar
simples no hotel. Assim, o último dia do ano foi repleto
de recordações de Otoko. À medida que as lembranças
afluíam ao seu espírito, elas adquiriam força
e frescor. Fatos ocorridos há vinte anos possuíam
mais vida do que eventos ocorridos na véspera.
Oki
estava afastado demais da janela para ver a rua do hotel, mas podia
ver, além dos tetos da cidade, as Colinas do Oeste. Comparada
com Tóquio, Kyoto era uma cidadezinha tranqüila, na
qual até as Colinas do Oeste pareciam ao alcance da mão.
Enquanto mirava na direção das colinas, uma tênue
nuvem transparente e dourada adquiriu um tom cinza e frio e a noite
caiu.
Quais
eram suas lembranças? Que passado era esse que ele recordava
tão claramente? Quando Otoko viera se instalar em Kyoto com
sua mãe, Oki havia pensado que essa partida assinalaria a
separação entre ambos, mas haviam eles realmente se
separado? Ele não podia banir de seu coração
o remorso de ter transtornado a existência de Otoko, de tê-la
impedido de se desabrochar enquanto esposa e mãe, e se perguntava
o que essa jovem mulher que nunca havia se casado podia estar pensando
dele depois de tantos anos. Em suas recordações, Otoko
era a mulher mais apaixonada que já conhecera. E se a lembrança
que tinha dela era, ainda hoje, assim tão viva, isso não
significava que não houvera nenhuma separação
entre eles? Apesar de não ter nascido em Kyoto, as luzes
da cidade ao cair da noite pareceram familiares a Oki. Talvez Kyoto
fosse de alguma maneira o berço de todo japonês, mas
para Oki era também a cidade onde morava Otoko. Sem conseguir
ficar tranqüilo, ele tomou um banho, trocou inteiramente de
roupa e andou de um lado para outro do quarto, mirando-se algumas
vezes no espelho, enquanto esperava Otoko.
Eram
nove e vinte quando telefonaram da recepção anunciando
que a srta. Ueno havia chegado.
-
Diga a ela para me esperar no saguão, descerei agora mesmo
- respondeu Oki.
Em
seguida indagou-se se não teria sido melhor convidá-la
a subir.
Não
avistou Otoko no vasto saguão. Uma jovem se aproximou e perguntou
polidamente:
-
É o sr. Oki?
-
Sim.
-
A srta. Ueno encarregou-me de vir procurá-lo.
-
É mesmo? - Oki esforçou-se por parecer à vontade.
- É muito gentil de sua parte...
Oki
esperava que Otoko viesse buscá-lo sozinha, mas ela havia
se esquivado. As imagens vivas que povoaram seu dia pareceram se
dissipar subitamente.
Quando
entrou no carro que os esperava, Oki permaneceu em silêncio
um momento. Depois perguntou:
-
Você é a aluna da srta. Ueno?
-
Sou.
-
A srta. Ueno e você moram juntas?
-
Sim, há uma empregada que também vive conosco.
-
Você é de Kyoto?
-
Não, de Tóquio, mas como fiquei apaixonada pelas obras
da srta. Ueno, eu a segui até aqui e ela me acolheu em sua
casa.
Oki
voltou a cabeça e observou a jovem. Desde o momento em que
ela lhe dirigira a palavra no hotel, ele havia notado o quanto ela
era bela. Agora podia ver seu perfil encantador, com o pescoço
longo e delgado, e o formato gracioso de suas orelhas. A beleza
de seus traços não podia deixá-lo indiferente.
Além disso, ela falava pausadamente, mas com evidente reserva
para com ele. Oki se perguntava se esta jovem estava a par do que
havia se passado entre ele e Otoko, dessa relação
que existira antes que ela houvesse nascido. De repente perguntou-lhe
de uma maneira um tanto incongruente:
-
Você sempre usa quimono?
-
Não. Em casa, como ando de um lado para o outro, uso calça,
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